Caminhando
sábado, 24 de outubro de 2026
Shevchuk leva ao Papa “a oração da Ucrânia” e uma lista com nomes dos prisioneiros
Salvatore Cernuzio – Vatican News
O chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sviatoslav Shevchuk, tinha muitas coisas a dizer e a oferecer ao Papa Leão XIV, que o recebeu no Palácio Apostólico vaticano: muitos presentes (selos, livros, álbuns de fotos), a oração e a gratidão da Ucrânia pelos apelos e pela ação humanitária da Santa Sé, e também uma lista com os nomes das centenas de prisioneiros de guerra detidos na Rússia, entregue, conforme informado em um comunicado da IGCU, durante a audiência.
É a quinta vez que o arcebispo-mor de Kiev-Halič se encontra com o Pontífice estadunidense, missionário da paz na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, inclusive por meio das recentes ligações telefônicas aos presidentes Putin e Zelensky para pedir uma trégua na cidade de Oleshky, ocupada pelos russos, onde se vive uma tragédia para a população, que carece de alimentos, água e medicamentos. Esse gesto — as duas ligações (a ligação para Putin feita durante a internação no Gemelli) — foi motivo de especial gratidão expressada por Shevchuk ao Papa, assim como pela atenção dedicada à “catástrofe humanitária” de Oleshky.
Gratidão pelo apoio à Ucrânia
“Obrigado”: o chefe da Igreja greco-católica ucraniana repetiu essa palavra várias vezes durante a conversa, também pelo apoio ao país tantas vezes definido como “atormentado” pelo Papa Francisco, pelos contínuos apelos para pôr fim à guerra e, sobretudo, pela ação da Santa Sé. Uma “diplomacia humanitária” voltada para aliviar o sofrimento da população civil, obter a libertação dos prisioneiros e dos civis mantidos em cativeiro pela Rússia e o retorno das crianças ucranianas transferidas para longe de seus territórios de origem.
As missões de Zuppi e Gallagher
Uma missão, iniciada durante o pontificado anterior e relançada por Leão XIV, que no verão passado europeu levou a Kiev e a Moscou o cardeal Matteo Maria Zuppi, presidente da CEI, e dom Paul Richard Gallagher, secretário das Relações com os Estados e as Organizações Internacionais. Quatro viagens marcadas por encontros institucionais e pastorais e, no caso de Zuppi, também por uma visita a um centro de detenção russo onde estão presos os ucranianos capturados nos campos de batalha. Foi a primeira vez que um representante de uma instituição internacional conseguiu visitar os prisioneiros de guerra ucranianos na Rússia, destacou Shevchuk: “É um sinal de que ninguém é esquecido. O Senhor Deus se recorda de todos. E a Igreja Mãe se empenha para que todos os nossos prisioneiros de guerra e reféns detidos ilegalmente sejam libertados o mais rápido possível”, disse ele. E lembrou também as palavras do arcebispo Gallagher em Moscou, segundo as quais esta guerra não tem solução militar e, portanto, é necessário criar as condições para um processo político e diplomático.
O temor pelo inverno iminente
Durante a conversa na Biblioteca do Palácio Apostólico, não deixou de mencionar os desafios que a Ucrânia terá de enfrentar neste enésimo inverno europeu de temperaturas rigorosas e com as infraestruturas bombardeadas. O arcebispo pediu ao Papa, de fato, o apoio e a solidariedade da comunidade católica internacional neste período de provações para o povo ucraniano. Uma resposta chegará em poucos dias, com a visita, de 27 a 30 de outubro, do esmoleiro dom Luis Marín de San Martín, prefeito do Dicastério para o Serviço da Caridade, que levará ao país do Leste Europeu alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade, mas, sobretudo, a proximidade de Leão XIV. Missão na qual a Igreja greco-católica ucraniana está envolvida na linha de frente.
O Sínodo da Igreja greco-católica
Justamente a respeito da Igreja greco-católica, da qual é chefe, Shevchuk informou ao Papa sobre o último Sínodo dos Bispos dedicado ao tema das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Uma ocasião, explicou ele, para reafirmar a necessidade de cultivar as vocações no contexto das crises demográficas e humanitárias causadas pela agressão russa.
“Obrigado pelo testemunho”
Por sua vez, Leão XIV — segundo relatado por Shevchuk — agradeceu pelo testemunho especial de fé dos bispos, padres, monges e fiéis da Igreja greco-católica ucraniana em tempos de guerra. O arcebispo-mor assegurou as orações e o acompanhamento de todos os greco-católicos ucranianos neste período de recuperação após a cirurgia torácica.
Os presentes
Foram trazidos de Kiev inúmeros presentes: um selo postal e um folheto temático do Estado da Cidade do Vaticano, dedicado a três eventos importantes na vida da Igreja greco-católica ucraniana. Emissão realizada em colaboração com os Correios do Vaticano. Também foi oferecido um selo especial retratando o próprio Leão XIV, emitido na Ucrânia – explicou Shevchuk – “como sinal de gratidão à Santa Sé por sua missão humanitária”. Foram entregues, além disso, um álbum de fotos intitulado Peregrinos da Esperança, dedicado ao encontro da comunidade ucraniana com o Papa, e o livro Hemingway não sabe nada, de Arthur Dron, veterano da guerra russo-ucraniana.
Os encontros anteriores
O primeiro encontro oficial entre Leão e Shevchuk ocorreu em 15 de maio de 2025, quando o recém-eleito Pontífice recebeu o arcebispo-mor no Palácio Apostólico. Em 28 de junho, o Papa dirigiu-se à Basílica de São Pedro para participar da celebração do Jubileu da Igreja greco-católica ucraniana e, nessa ocasião, ao observar crianças, idosos, casais e, sobretudo, as mulheres mães de soldados mortos na frente de batalha, expressou sua dor por “uma guerra sem sentido”. Em 12 de fevereiro de 2026, ocorreu outra audiência privada no Palácio Apostólico e, também nessa ocasião, Schevchuk entregou uma lista com 400 nomes de prisioneiros de guerra. O arcebispo retornou então ao Vaticano para o encontro em comemoração aos dez anos da Amoris laetitia, para a qual também foram convidados os líderes das Igrejas católicas orientais.
Milão: faltam família e comunidade aos jovens da guerrilha, alerta Pe. Como
Davide Dionisi - Vatican News
“Uma vida familiar sólida e uma comunidade de referência. Tudo isso falta hoje aos jovens que causaram distúrbios na cidade nos últimos dias. Eles se movimentam em grupo, mas com uma lógica mais de bando do que de comunidade. Pelo que se percebe, são em grande parte menores de idade, sem orientação política específica, que se sentem excluídos de tudo e não veem futuro. Vivem numa espera pelo nada e parecem reduzir tudo a nada: destroem o que encontram porque o nada é o que sentem ao seu redor e dentro de si.”
O Pe. Giuseppe Como, vigário episcopal para a Educação e a Celebração da Fé e para a Pastoral Escolar da Arquidiocese de Milão, na Itália, procura descrever ao Vatican News o que aconteceu no último sábado (17/10), quando a manifestação contra o aumento dos preços, o custo da gasolina e a carga tributária transformou Milão em uma guerra urbana.
Os confrontos no centro da cidade
Centenas de jovens vestidos de preto cercaram a Praça Duomo, lançando fogos de artifício, garrafas e pedras contra a polícia, que respondeu com jatos de água e gás lacrimogêneo. O balanço do sábado (17/10), somente em Milão, é de 72 pessoas levadas à delegacia, 17 presas e pelo menos 22 autuadas. Também houve confrontos em Turim, Bolonha e Bérgamo. No domingo (18/10), a desordem recomeçou: grupos de jovens encapuzados atacaram e saquearam lojas, bares e um supermercado nas proximidades do Duomo, da Via Torino, da Via Cordusio e do Largo Cairoli, utilizando a tática de mini-ataques relâmpagos e fuga em pequenos grupos. Pelo menos 200 jovens foram detidos, cerca de 80% deles menores de idade.
Pe. Como: “há um sentimento de exclusão”
“Não sei se essa é uma interpretação com a qual todos concordam, mas a ausência de um contexto familiar sólido e de uma comunidade de referência me parece um aspecto relevante. Pelo que posso perceber pelos jornais e pelo que ouço, há realmente um sentimento de exclusão, como se a sociedade tivesse criado dos rejeitados, pessoas que têm poucas esperanças de participar da vida social”, prossegue Pe. Como.
Ao falar sobre a resposta da Igreja de Milão, o vigário episcopal destaca: “acompanho a Fundação dos Oratórios Milaneses (FOM) e penso no que estamos fazendo em relação às novas gerações, que são as mais afetadas. Justamente na última terça e quarta-feira, realizamos um encontro de dois dias no Centro Pastoral de Seveso sobre o tema ‘adolescentes e violência’. Na ocasião, foram apresentados depoimentos sobre projetos com educadores que atuam em periferias bastante carentes: Baranzate, com uma porcentagem altíssima de imigrantes; a estação de Rho-Fiera; e o Corvetto, que ganhou destaque na mídia por alguns episódios ocorridos há algum tempo".
“Nesses contextos, a Igreja está demonstrando que não fecha os olhos nem desvia o rosto para o outro lado. Ela faz isso por meio de canais comuns, mas também com projetos específicos, buscando compreender quem são os jovens que passam o tempo nas ruas ou no oratório, e que, às vezes, quase tomam conta do local. Há tentativas de diálogo para compreender suas necessidades, exigências e motivos, e, por esse caminho, procura-se envolvê-los.”
Os projetos educacionais da Igreja de Milão
Ao falar sobre os resultados alcançados, o Pe. Como revela que: “o fruto mais bonito é que alguns jovens que ocupavam o oratório de Baranzate de maneira bastante arrogante, com muita violência verbal (não física), acabaram sendo envolvidos no projeto educacional e se tornaram colaboradores da própria ação educacional. São respostas muito parciais, é claro, mas revelam uma Igreja que não é alheia a esses jovens, que procura compreender seu mal-estar e não fazê-los sentir-se meros objetos de uma intervenção educacional, envolvendo-os, ao contrário, em uma responsabilidade”.
A importância da família e da comunidade
O padre reitera, por fim, que: “ainda ontem, durante a celebração de duas crismas, me peguei refletindo sobre o que aconteceu no fim de semana. Dirigi-me aos meninos do primeiro ano do ensino fundamental, alguns anos mais novos do que aqueles que estão causando esses desastres no centro de Milão, e me veio à mente que eles têm sorte, pois contam com uma família e uma comunidade de referência. Infelizmente, enquanto lá fora explodiam fogos de artifício e bombas e havia distúrbios, com as sirenes ao fundo, nós estávamos em pleno clima de comunhão. Isso não significa que a Igreja se sinta sitiada ou compelida a se fechar porque o mundo lá fora é ruim. Muito pelo contrário. Estamos presentes e tentando oferecer propostas concretas”.
As medidas restritivas
Para a tarde da segunda-feira (19/10) estavam previstos os interrogatórios na prisão de San Vittore dos 5 maiores de idade presos no sábado (17/10), enquanto nesta terça-feira (20/10), no Instituto Beccaria, terão início os interrogatórios dos 11 menores detidos. Também chegaram os primeiros pedidos de validação e de medidas cautelares para os menores, que, somados aos 23 detidos no domingo (18/10), elevam o número total de prisões para 34. Esse número pode aumentar, uma vez que as investigações ainda estão em andamento. As acusações, de natureza variada, incluem vandalismo, saques e resistência com agravantes múltiplas.
Papa a "Jesus Youth" da Índia: testemunhar com coragem a fé e promover o matrimônio
Tiziana Campisi – Vatican News
Testemunhar Cristo, trabalhar com as famílias, promover o matrimônio como um chamado de Deus, cultivar a oração, estar ao lado dos pobres: é o que Leão XIV recomenda ao Jesus Youth, o movimento católico internacional que nasceu na Índia no âmbito da Renovação Carismática “por iniciativa espontânea de jovens que viveram a experiência de um encontro pessoal” com Jesus e que se dedica à evangelização e à promoção de iniciativas missionárias. Neste ano, o movimento também comemora 40 anos de fundação e 10 anos desde o reconhecimento da Santa Sé. A audiência da manhã deste sábado, 24 de outubro, na Sala Paulo VI, foi especial pois, pela primeira vez, a associação católica encontrou o Sucessor de Pedro. Estavam presentes cerca de mil delegados e responsáveis de mais de 40 países que participam da “GO Conference 2026”, inaugurada na terça-feira (20/10) em Castel Gandolfo e que termina neste domingo (25/10).
Alimentar o zelo apostólico
A todos aqueles que, nestes dias, se reuniram “para refletir e discernir como prosseguir da melhor maneira” o caminho, acolhendo generosamente os dons do Espírito Santo e valorizando o “longo percurso de consulta, em estilo sinodal”, empreendido nos últimos três anos, o Papa, em discurso proferido, explica que “o ponto de partida de toda renovação autêntica na Igreja é a descoberta do amor de Jesus”. Por isso, os membros de vários grupos de oração “sentiram a necessidade de se unir, para canalizar seu entusiasmo e suas iniciativas para algo que pudesse sustentar e orientar o novo ímpeto espiritual e missionário que haviam experimentado”. E para incentivá-los a “enfrentar novos desafios e dar novos frutos”, o Pontífice exorta:
"Não percam o zelo apostólico de vocês; pelo contrário, alimentem-no e levem-no a novos países. Mais uma vez, tudo isso só é possível mantendo o olhar fixo em Jesus Cristo. Muitos jovens do movimento de vocês fizeram exatamente isso, tornando-se assim testemunhas alegres e corajosas da fé. Alguns o fizeram de maneira particularmente bela e comovente."
Viver o Evangelho e apoiar as famílias
Leão lembra, em particular, Ajna George, uma jovem indiana muito ativa no Jesus Youth, falecida aos 27 anos em 2022, que lutou com grande coragem contra um osteossarcoma e que “na grande provação da doença, foi sustentada pelo amor a Jesus presente na Eucaristia”, e incentiva todos a encarnar o Evangelho, mesmo nos contextos mais difíceis.
"Embora muitos de vocês vivam em contextos em que os cristãos são minoria, não tenham medo de testemunhar a amizade com Jesus. O coração dos jovens anseia por descobrir o amor de Cristo. De maneira especial, encorajo-os a colaborar com as famílias para apoiar a vocação à vida matrimonial. Os jovens precisam saber que vida deles é grandiosa e bela, pois faz parte de um desígnio de Deus mais amplo."
O matrimônio: uma vocação a ser promovida
E o Papa insiste no matrimônio, pedindo que ele seja divulgado como sacramento e projeto querido por Deus, tal como foi vivenciado por tantos jovens do Jesus Youth, que se casaram, tornaram-se pais e descobriram a vocação de “ser famílias missionárias, colaborando com os ministros ordenados na difusão do Evangelho”.
"Ao lado do sacerdócio e da Vida Consagrada, é importante promover o matrimônio como um chamado de Deus, uma vocação à santidade a ser acolhida com alegria, na certeza de que Deus sustenta com a sua graça todos aqueles que Ele chama."
Preservar a unidade
O Pontífice, por sua vez, dirigiu aos membros do Jesus Youth o convite para continuarem a caminhar “vivendo com fidelidade a vida de oração e o serviço aos pobres que caracterizam” o movimento e para permanecerem unidos.
"Procurem preservar a unidade de vocês, especialmente diante da grande variedade de origens sociais, culturas e línguas que caracterizam o movimento. A esse respeito, peço também aos sacerdotes e bispos que adotem um olhar paterno e visionário, superando eventuais dificuldades que possam surgir de diferenças rituais, para buscar, acima de tudo, o bem espiritual supremo dos jovens."
Por fim, antes de conceder a bênção e se despedir dos participantes da audiência, Leão deseja que o Jesus Youth “seja sempre caracterizado por seu frescor juvenil e pelo entusiasmo pela fé, permitindo assim que muitos outros encontrem o Senhor e cresçam na vida espiritual”.
Diocese portuguesa reza dia e noite por vocações sacerdotais e religiosas
Por Natalia Zimbrão
23 de out de 2026 às 09:38
A diocese do Algarve, Portugal, vai promover o Lausperene Diocesano, a adoração permanente ao Santíssimo Sacramento, de 24 de outubro a 6 de novembro, rezando pelas vocações sacerdotais e religiosas. A iniciativa acontecerá no contexto da Semana de Oração pelos Seminários, realizada pela Igreja em Portugal de 1 a 8 de novembro.
A adoração ininterrupta durante 15 dias é promovida pela equipe formadora do Seminário do Faro e, segundo o jornal ‘Folha do Domingo’ da diocese do Algarve, será “assegurada pelas paróquias que constituem as três regiões pastorais, pelas comunidades, congregações, grupos e movimentos católicos da diocese algarvia”.
Os fiéis vão “pedir a Deus vocações de consagração, tanto no sacerdócio, como na vida religiosa ou nos institutos seculares”.
A iniciativa acontece desde 2004 e é, segundo o jornal diocesano, “uma das mais significativas” que acontecem “no decurso de cada ano pastoral”.
O Lausperene Diocesano vai começar com a missa na igreja de São Pedro, a matriz de Faro, às 21h. Em seguida, haverá uma procissão eucarística para a Sé e adoração até às 6h do dia seguinte. Depois de passar pelas várias comunidades paroquiais, segundo um programa diocesano, o encerramento do Lausperene será no dia 6 de novembro, na igreja matriz de Loulé, às 21h.
Semana de Oração pelos Seminários
A Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (CEVM) da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promove, de 1 a 8 de novembro, a Semana de Oração pelos Seminários. Neste ano, o tema é “Comunidade que reza, Seminário que floresce”.
Em uma nota pastoral dedicada à Semana dos Seminários, o bispo do Algarve, dom Vitorino Soares, presidente da CEVM, diz que “além da equipa formadora que acompanha de perto os seminaristas candidatos ao sacerdócio, não podemos esquecer e nem podemos prescindir da comunidade, sobretudo paroquial, como suporte dos futuros sacerdotes”.
Segundo ele, “o primeiro sinal de pertença neste processo alargado que compete à comunidade é a oração”.
“Sem a oração de todos, sobretudo das comunidades cristãs, os Seminários não podem crescer espontaneamente, não podem prosperar as vocações sacerdotais e não se podem desenvolver com sucesso as sementes que já estão depositadas no coração de muitos jovens”, disse.
(acidigital)
A verdadeira justiça nunca está separada ‘da verdade e da misericórdia’, diz Leão XIV
Por Victoria Cardiel
23 de out de 2026 às 12:23
O papa Leão XIV disse hoje (23) que, embora possa ser "impossível" traduzir perfeitamente a imagem da Igreja para a linguagem canônica, o direito canônico é chamado a "refletir essa imagem".
Ele disse isso na audiência de hoje (23) aos participantes do Congresso Internacional organizado por ocasião do 150º aniversário da Faculdade de Direito Canônico da Pontifícia Universidade Gregoriana.
Em seu discurso, o papa disse que o estudo do Direito da Igreja só pode ser plenamente compreendido à luz do mistério eclesial descrito pelo Concílio Vaticano II, especialmente na constituição dogmática Lumen gentium.
Citando o papa são João Paulo II e a constituição apostólica Sacrae disciplinae leges, com a qual promulgou o Código de Direito Canônico de 1983, Leão XIV disse que, embora “seja impossível traduzir perfeitamente a imagem da Igreja para a linguagem canônica”, a ordem jurídica eclesial tem a obrigação de refletir essa imagem.
Leão XIV tem doutorado em direito canônico e uma longa carreira como especialista em legislação eclesiástica, experiência que influencia significativamente sua visão sobre o governo da Igreja.
Para ele, o direito canônico presta um “serviço essencial à preservação da comunhão eclesial” e, por conseguinte, é “extremamente necessário à Igreja”. O seu propósito, disse, é “criar na sociedade eclesial uma ordem que, dando a primazia ao amor, à graça e aos carismas, facilite [...] o seu desenvolvimento orgânico”.
O papa disse também que as dimensões jurídica e pastoral não podem ser separadas. "Efetivamente, o bem da pessoa e o bem da comunidade eclesial não podem existir independentemente um do outro", disse.
Herdeiros de uma longa tradição canônica
Em seu discurso, Leão XIV prestou homenagem à Faculdade de Direito Canônico da Universidade Gregoriana, fundada em 16 de agosto de 1876 por decisão do papa beato Pio IX e que neste ano celebra um século e meio de existência.
O papa disse que esse aniversário é “a etapa fundamental de uma história iniciada há séculos” e elogiou os vários estudiosos que contribuíram para o desenvolvimento do direito canônico. Graças a eles, disse, a instituição consolidou uma tradição acadêmica que continua dando frutos para a Igreja universal.
“Eles constituem uma espécie de fio ininterrupto que une as gerações e que, ainda hoje, transmite um precioso legado científico e eclesial”, disse.
Ele disse também que a Faculdade é uma obra apostólica da Companhia de Jesus e divide a espiritualidade inaciana, sintetizada no princípio Non multa, sed multum (Não muitas coisas, mas muito). “O importante não é conhecer muitas coisas, mas penetrar profundamente na realidade, compreendê-la e interiorizá-la”, disse, evocando ensinamentos de santo Inácio de Loyola.
Formar juristas com um sentido de justiça eclesial
Na parte final de seu discurso, o papa disse que o ensino do direito canônico não pode se limitar à transmissão de normas. Seu objetivo, disse ele, é “formar pessoas que possuam o sentido eclesial do iustum, adquirido através do estudo minucioso das fontes, da tradição canônica e dos princípios teológicos que iluminam a norma”.
Leão XIV disse também que o próprio programa acadêmico da faculdade estabelece que "o direito da Igreja deve tender sempre para o bem sobrenatural de cada fiel e para a edificação da comunhão eclesial".
Ele pediu a professores e alunos para trabalhar em busca da "verdadeira justiça, que na Igreja nunca é separada da verdade e da misericórdia".
Inspirando-se numa famosa expressão de santo Agostinho, o papa disse: Ordinata dilectio est iustitia, ou seja, “o amor ordenado é justiça”.
Em seguida, ele incentivou a oferta aos estudantes de “uma experiência viva da Igreja universal”, dizendo-lhes que ela encontra “no bispo de Roma o princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade”.
Falando aos estudantes que vieram de vários países, ele pediu que vivam a universalidade da Igreja em seus anos de formação e que, ao voltarem às suas dioceses e comunidades, levem essa experiência consigo "como um tesouro para compartilhar".