Caminhando
segunda-feira, 20 de abril de 2026
Papa: "Os idosos guardam a sabedoria de um povo"
Nesta segunda-feira, 20 de abril, o primeiro compromisso de Leão XIV foi na cidade de Saurimo, visitando um asilo. "Os idosos não devem ser apenas assistidos, mas, em primeiro lugar, devem ser escutados, pois guardam a sabedoria de um povo", afirmou.
Bianca Fraccalvieri - Vatican News
A manhã desta segunda-feira começou para o Santo Padre com mais um deslocamento em Angola. O Pontífice deixou Luanda em direção a Saurimo, capital da província de Lunda Sul, cidade a cerca de mil quilômetros ao leste da capital.
O primeiro compromisso foi uma visita a um centro de acolhimento para idosos. O local abriga 74 pessoas, das quais 42 mulheres, que têm entre 60 e 93 anos de idade. A maioria foi abandonada pela própria família. Após ouvir alguns testemunhos, iniciou sua saudação com as seguintes palavras: "Paz a esta casa e a quantos nela habitam!".
Leão XIV disse que ficou tocado ao saber que chamam este espaço de «lar», uma palavra que remete à família, recordando que Jesus também gostava de estar na casa dos seus amigos, como narram alguns episódios do Evangelho.
"Por isso mesmo, caríssimos, gosto de pensar que Jesus também habita aqui, neste lar. Sim, Ele habita no meio de vós sempre que procurais amar-vos e ajudar-vos mutuamente, como irmãos e irmãs. Sempre que, depois de um mal-entendido ou de uma pequena ofensa, sois capazes de vos perdoar e reconciliar. Sempre que, alguns de vós ou todos juntos, rezais com simplicidade e humildade."
O Papa manifestou o seu apreço às Autoridades angolanas pelas iniciativas em favor dos idosos mais necessitados, bem como a todos os colaboradores e voluntários. O cuidado das pessoas mais frágeis, afirmou, é um sinal muito importante da qualidade da vida social de um país. "E não nos esqueçamos: os idosos não devem ser apenas assistidos, mas, em primeiro lugar, devem ser escutados, pois guardam a sabedoria de um povo. E temos de lhes ser gratos, pois enfrentaram grandes dificuldades pelo bem da comunidade."
O Pontífice concluiu sua breve visita afirmando que levará no coração a recordação deste encontro e se despediu invocando a Virgem Maria para que vigie sempre sobre esta comunidade. "E que a minha bênção também vos acompanhe."
O Papa: quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Leão XIV presidiu a missa em Saurimo, capital da província angolana de Lunda Sul, na manhã desta segunda-feira (20/04).
A cidade de Saurimo situa-se a 1.081 metros acima do nível do mar. Anteriormente, chamava-se Henrique de Carvalho, em homenagem a um explorador português de mesmo nome que visitou a região, em 1884, e entrou em contato com o povo Lunda-Cokwe, povo banto e grupo etnolinguístico predominante no nordeste de Angola.
Procuramos o Senhor por gratidão ou por interesse?
O Pontífice iniciou sua homilia, ressaltando que Jesus Ressuscitado "ilumina-nos a via para o Pai e santifica-nos com a força do Espírito, para que transformemos o nosso estilo de vida segundo o seu amor".
“Esta é a Boa Nova, o Evangelho que corre como sangue nas veias, sustentando-nos ao longo do caminho. Um caminho que hoje me trouxe até aqui, para estar convosco!”
A seguir, o Papa refletiu "sobre o motivo e o fim pelos quais seguimos o Senhor", que realizou "gestos eloquentes para manifestar a vontade do Pai: ilumina as trevas dando a vista aos cegos, dá voz aos oprimidos soltando a língua dos mudos, sacia a nossa fome de justiça multiplicando o pão para os pobres e os fracos". "Quem ouve falar destas obras põe-se à procura de Jesus", sublinhou o Papa.
"Ao mesmo tempo, o Senhor vê o nosso coração, perguntando-nos se o procuramos por gratidão ou por interesse, por cálculo ou por amor", disse ainda Leão XIV, recordando as palavras de Jesus: «Vós procurais-me, não por terdes visto sinais milagrosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes».
Projetos de quem não deseja o encontro
De acordo com o Papa, as palavras de Jesus "manifestam os projetos de quem não deseja o encontro com uma pessoa, mas o consumo de objetos. A multidão vê Jesus como um instrumento para atingir outros fins, o vê como um prestador de serviços. Se Ele não lhes desse de comer, os seus gestos e ensinamentos não interessariam".
"O mesmo acontece quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve. Até os mais belos dons do Senhor, que cuida sempre do seu povo, se tornam então uma exigência, um prêmio ou uma chantagem, e são mal compreendidos precisamente por quem os recebe", disse Leão XIV, acrescentando:
“O relato evangélico faz-nos, portanto, compreender que existem motivos errados para procurar Cristo, sobretudo quando é considerado um guru ou um amuleto da sorte. Também o objetivo que aquela multidão se propõe é inadequado: não procuram, efetivamente, um mestre a quem amar, mas um líder a reverenciar por interesse.”
Acolher o sentido das palavras de Jesus
"Bem diferente é a atitude de Jesus para conosco", ressaltou o Papa. "Ele não rejeita esta procura insincera, mas incentiva a sua conversão. Não manda embora a multidão, mas convida todos a examinar o que palpita no nosso coração. Cristo chama-nos à liberdade: não quer servos nem clientes, mas procura irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser."
“Para corresponder com fé a este amor, não basta ouvir falar de Jesus: é preciso acolher o sentido das suas palavras. Nem basta sequer ver o que Jesus faz: é preciso seguir e imitar a sua iniciativa. Quando, no sinal do pão partilhado, vemos a vontade do Salvador, que se dá a si mesmo por nós, então aproximamo-nos do verdadeiro encontro com Jesus, que se torna seguimento, missão e vida.”
Explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza
Jesus nos educa "a procurar de modo correto o pão da vida, alimento que nos sustenta para sempre. O desejo da multidão encontra assim uma resposta ainda maior e surpreendente: Jesus não nos dá um alimento que acaba, mas um pão que não nos deixa acabar, porque é alimento de vida eterna".
“O seu dom ilumina o nosso presente: com efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos. Perante tais males, Cristo escuta o clamor dos povos e renova a nossa história: em cada queda levanta-nos, em cada sofrimento conforta-nos, na missão encoraja-nos.”
"Tal como o pão vivo que sempre nos dá, a Eucaristia, assim a sua história não tem fim e, por isso mesmo, remove o fim, ou seja, a morte, da nossa história, que o Ressuscitado abre com a força do seu Espírito. Cristo vive! Ele é o nosso Redentor. Este é o Evangelho que partilhamos, fazendo irmãos todos os povos da terra. Este é o anúncio que transforma o pecado em perdão. Esta é a fé que salva a vida", disse o Papa Leão.
Não viemos ao mundo para morrer
Em Jesus, "ganha voz o anúncio da nossa ressurreição", disse o Pontífice, ressaltando que "não viemos ao mundo para morrer. Não nascemos para nos tornarmos escravos nem da corrupção da carne, nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão, violência, exploração e mentira nega a ressurreição de Cristo, dom supremo da nossa liberdade".
A palavra de Deus "é para nós regra de vida e critério de verdade", disse ainda o Papa. "É o Senhor quem traça a via para esta caminhada, não as nossas urgências, nem as modas do momento. Por isso, seguindo Jesus, o caminho eclesial é sempre um «Sínodo da ressurreição e da esperança»", disse Leão XIV, citando um trecho da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia in Africa de São João Paulo II. "O Senhor caminha sempre ao nosso lado, para que possamos prosseguir na sua estrada: o próprio Cristo dá orientação e força à caminhada, uma caminhada que queremos aprender a viver cada vez mais como deve ser, ou seja, de modo sinodal", concluiu.
Viagem Apostólica a Angola: Santa Missa
VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)
HOMILIA DO SANTO PADRE
Esplanada de Saurimo (Saurimo)
Segunda-feira, 20 de abril de 2026
Em todas as partes do mundo, a Igreja vive como povo que caminha no seguimento de Cristo, nosso irmão e Redentor: Ele, o Ressuscitado, ilumina-nos a via para o Pai e santifica-nos com a força do Espírito, para que transformemos o nosso estilo de vida segundo o seu amor. Esta é a Boa Nova, o Evangelho que corre como sangue nas veias, sustentando-nos ao longo do caminho. Um caminho que hoje me trouxe até aqui, para estar convosco! Na alegria e na beleza da nossa assembleia, reunida em nome de Jesus, escutamos com coração aberto a sua Palavra de salvação, porque nos faz refletir sobre o motivo e o fim pelos quais seguimos o Senhor.
Quando o Filho de Deus se faz homem, realiza gestos eloquentes para manifestar a vontade do Pai: ilumina as trevas dando a vista aos cegos, dá voz aos oprimidos soltando a língua dos mudos, sacia a nossa fome de justiça multiplicando o pão para os pobres e os fracos. Quem ouve falar destas obras põe-se à procura de Jesus. Ao mesmo tempo, o Senhor vê o nosso coração, perguntando-nos se o procuramos por gratidão ou por interesse, por cálculo ou por amor. Com efeito, à gente que o seguia diz: «Vós procurais-me, não por terdes visto sinais miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes» (Jo 6, 26). As suas palavras manifestam os projetos de quem não deseja o encontro com uma pessoa, mas o consumo de objetos. A multidão vê Jesus como um instrumento para atingir outros fins, vê-o como um prestador de serviços. Se Ele não lhes desse de comer, os seus gestos e ensinamentos não interessariam.
O mesmo acontece quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve. Até os mais belos dons do Senhor, que cuida sempre do seu povo, se tornam então uma exigência, um prémio ou uma chantagem, e são mal compreendidos precisamente por quem os recebe. O relato evangélico faz-nos, portanto, compreender que existem motivos errados para procurar Cristo, sobretudo quando é considerado um guru ou um amuleto da sorte. Também o objetivo que aquela multidão se propõe é inadequado: não procuram, efetivamente, um mestre a quem amar, mas um líder a reverenciar por interesse.
Bem diferente é a atitude de Jesus para connosco: Ele não rejeita esta procura insincera, mas incentiva à sua conversão. Não manda embora a multidão, mas convida todos a examinar o que palpita no nosso coração. Cristo chama-nos à liberdade: não quer servos nem clientes, mas procura irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser. Para corresponder com fé a este amor, não basta ouvir falar de Jesus: é preciso acolher o sentido das suas palavras. Nem basta sequer ver o que Jesus faz: é preciso seguir e imitar a sua iniciativa. Quando, no sinal do pão partilhado, vemos a vontade do Salvador, que se dá a si mesmo por nós, então aproximamo-nos do verdadeiro encontro com Jesus, que se torna seguimento, missão e vida.
A advertência que o Senhor dirige à multidão transforma-se assim num convite: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). Com estas palavras, Cristo indica o seu verdadeiro dom para nós: não nos chama ao desinteresse pelo pão quotidiano, que aliás multiplica em abundância e ensina a pedir na oração. Ele educa-nos a procurar de modo correto o pão da vida, alimento que nos sustenta para sempre. O desejo da multidão encontra assim uma resposta ainda maior e surpreendente: Jesus não nos dá um alimento que acaba, mas um pão que não nos deixa acabar, porque é alimento de vida eterna.
O seu dom ilumina o nosso presente: com efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos. Perante tais males, Cristo escuta o clamor dos povos e renova a nossa história: em cada queda levanta-nos, em cada sofrimento conforta-nos, na missão encoraja-nos. Tal como o pão vivo que sempre nos dá – a Eucaristia, assim a sua história não tem fim e, por isso mesmo, remove o fim, ou seja, a morte, da nossa história, que o Ressuscitado abre com a força do seu Espírito. Cristo vive! Ele é o nosso Redentor. Este é o Evangelho que partilhamos, fazendo irmãos todos os povos da terra. Este é o anúncio que transforma o pecado em perdão. Esta é a fé que salva a vida!
O testemunho pascal, portanto, diz respeito certamente a Cristo, o crucificado que ressuscitou, mas precisamente por isso também nos diz respeito a nós: n’Ele ganha voz o anúncio da nossa ressurreição. Não viemos ao mundo para morrer. Não nascemos para nos tornarmos escravos nem da corrupção da carne, nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão, violência, exploração e mentira nega a ressurreição de Cristo, dom supremo da nossa liberdade. Na verdade, esta libertação do mal e da morte não acontece apenas no fim dos tempos, mas na história de todos os dias. O que devemos fazer para acolher tal dom? O próprio Evangelho no-lo ensina: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Sim, nós cremos! Hoje, juntos, dizemo-lo com força e gratidão para Convosco, Senhor Jesus. Queremos seguir-Vos e servir-Vos no nosso próximo: a vossa palavra é para nós regra de vida e critério de verdade.
«Ditosos os que seguem a lei do Senhor» (cf. Sl 119/118,1): assim cantámos com o Salmo. Caríssimos, é o Senhor quem traça a via para esta caminhada, não as nossas urgências, nem as modas do momento. Por isso, seguindo Jesus, o caminho eclesial é sempre um «Sínodo da ressurreição e da esperança» (Exort. ap. Ecclesia in Africa, 13), como afirmava São João Paulo II na sua Exortação Apostólica para a África: continuemos nesta sábia direção! Com o Evangelho no coração, tereis coragem diante das dificuldades e desilusões: o caminho, que Deus abriu para nós, nunca desilude. O Senhor caminha sempre ao nosso lado, para que possamos prosseguir na sua estrada: o próprio Cristo dá orientação e força à caminhada, uma caminhada que queremos aprender a viver cada vez mais como deve ser, ou seja, de modo sinodal.
Em particular, «a Igreja anuncia a Boa Nova não só através da proclamação da palavra que recebeu do Senhor, mas também mediante o testemunho de vida, pelo qual os discípulos de Cristo dão razão da fé, da esperança e do amor que neles existe» (ibid., 55). Partilhando a Eucaristia, pão da vida eterna, somos chamados a servir o nosso povo com uma dedicação que levanta de todas as quedas, que reconstrói o que a violência arruína e que partilha com alegria dos vínculos fraternos. Através de nós, a iniciativa da graça divina dá bons frutos sobretudo nas adversidades, como mostra o exemplo do protomártir Estevão (cf. Act 6, 8-15).
Caríssimos, o testemunho dos mártires e dos santos encoraja-nos e impele-nos a um caminho de esperança, de reconciliação e de paz, ao longo do qual o dom de Deus se torna o compromisso do homem na família, na comunidade cristã, na sociedade civil. Percorrendo-o juntos, à luz do Evangelho, a Igreja em Angola cresce segundo aquela fecundidade espiritual que começa na Eucaristia e se prolonga no cuidado integral de cada pessoa e de todo o povo. A vitalidade das vocações que vivenciais é, de modo particular, sinal da correspondência ao dom do Senhor, sempre abundante para quem o acolhe com coração puro. Graças ao Pão de vida nova, que hoje partilhamos, podemos continuar no caminho de toda a Igreja, que tem por meta o Reino de Deus, por luz a fé e por alma a caridade.
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Agradecimento do Santo Padre no final da Santa Missa
Queridos irmãos e irmãs,
Esta tarde teremos o último encontro com a Comunidade Católica em Angola, mas desejo, neste momento, dirigir a todos uma saudação repleta de gratidão.
Obrigado aos senhores Bispos, bem como aos presbíteros e diáconos, e igualmente aos consagrados e aos fiéis leigos, por toda a preparação da minha visita.
Expresso o meu profundo reconhecimento às autoridades civis angolanas pelo grande empenho colocado na organização.
Angola, mantém-te fiel às tuas raízes cristãs! Assim, poderás continuar, cada vez melhor, a dar o teu contributo para a construção da justiça e da paz em África e em todo o mundo. Muito obrigado!
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domingo, 19 de abril de 2026
ANGOLA HOMILIA
VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)
HOMILIA DO SANTO PADRE
Kilamba (Angola)
Domingo 19 de abril de 2026
Queridos irmãos e irmãs,
Com o coração cheio de gratidão, celebro a Eucaristia entre vós. Graças sejam dadas a Deus por esta dádiva e obrigado a todos pelo festivo acolhimento!
Neste Terceiro Domingo da Páscoa, o Senhor falou-nos através do Evangelho dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). Deixemo-nos iluminar por esta Palavra de vida.
Dois discípulos do Senhor, com o coração ferido e triste, partem de Jerusalém para regressar à sua aldeia de Emaús. Viram morrer aquele Jesus em quem tinham depositado a sua confiança e a quem tinham seguido e, agora, desiludidos e abatidos, regressam às suas casas. Pelo caminho, «conversavam entre si sobre tudo o que acontecera» (v. 14). Precisam de falar sobre isso, de contar um ao outro o que viram, de partilhar o que viveram. Porém, arriscavam-se a ficar presos na dor e fechados à esperança.
Irmãos e irmãs, nesta primeira cena do Evangelho, vejo refletida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade. Na verdade, ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza.
Quando, durante muito tempo, se permanece imerso numa história tão marcada pela dor, corre-se o mesmo risco dos dois discípulos de Emaús: perder a esperança e ficar paralisados pelo desânimo. Com efeito, eles caminham, mas continuam presos aos acontecimentos ocorridos três dias antes, quando viram Jesus morrer; conversam entre si, mas sem ter esperança numa qualquer saída; continuam a falar do que aconteceu, com o cansaço de quem não sabe como recomeçar, nem se isso é possível.
Caríssimos, a Boa Nova do Senhor, hoje também para nós, é precisamente esta: Ele está vivo, ressuscitou e caminha ao nosso lado enquanto percorremos o caminho do sofrimento e da amargura, abrindo-nos os olhos para que possamos reconhecer a sua obra e concedendo-nos a graça de recomeçar e reconstruir o futuro.
O Senhor aproxima-se dos dois discípulos desiludidos e com pouca esperança e, fazendo-se companheiro de viagem, ajuda-os a juntar as peças daquela história, a olhar para além da dor, a descobrir que não estão sozinhos no caminho e que os espera um futuro, habitado ainda pelo Deus do amor. E quando Ele se detém para jantar com eles, se senta à mesa e parte o pão, então «os seus olhos abriram-se e reconheceram-no» (v. 31).
Eis aqui traçada também para nós, para vós, queridos irmãos e irmãs angolanos, a via para recomeçar: por um lado, a certeza de que o Senhor nos acompanha e tem compaixão de nós; por outro, o compromisso que Ele nos pede.
Experimentamos a companhia do Senhor sobretudo na relação com Ele, na oração, na escuta da sua Palavra que faz arder o nosso coração como o dos dois discípulos e, sobretudo, na celebração da Eucaristia. É aqui que encontramos Deus. Por isso, é necessário estar sempre atentos às formas de religiosidade tradicional, que certamente pertencem às raízes da vossa cultura, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de confundir e misturar elementos mágicos e supersticiosos que não ajudam no caminho espiritual. Permanecei fiéis ao que a Igreja ensina, confiai nos vossos pastores e mantende o olhar fixo em Jesus, que se revela especialmente na Palavra e na Eucaristia. Em ambas, experimentamos que o Senhor Ressuscitado caminha ao nosso lado e, unidos a Ele, também nós vencemos as mortes que nos cercam e vivemos como ressuscitados.
A esta certeza de não estarmos sozinhos ao longo do caminho junta-se também um esforço generoso, capaz de aliviar as feridas e reacender a esperança. Na verdade, se os dois de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão para eles, isso significa que também nós devemos reconhecê-lo assim: não apenas na Eucaristia, mas em qualquer lugar onde haja uma vida que se torna pão partido, em qualquer lugar onde alguém se torna dom de compaixão, tal como Ele.
A história do vosso país, as consequências ainda difíceis que suportais, os problemas sociais e económicos e as diversas formas de pobreza exigem a presença de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos. Uma Igreja que, com a luz da Palavra e o alimento da Eucaristia, saiba reavivar a esperança perdida. Uma Igreja feita de pessoas como vós, que se doam tal como Jesus parte o pão para os dois discípulos de Emaús. Angola precisa de bispos, sacerdotes, missionários, religiosas e religiosos, leigas e leigos que tenham no coração o desejo de partir a sua vida e doá-la uns aos outros, de se empenhar no amor e no perdão mútuos, de construir espaços de fraternidade e paz, de realizar gestos de compaixão e solidariedade para com quem mais precisa.
Com a graça de Cristo Ressuscitado, podemos tornar-nos esse pão partido que transforma a realidade. E assim como a Eucaristia nos recorda que somos um só corpo e um só espírito, unidos ao único Senhor, também nós podemos e queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha. Só assim será possível um futuro de esperança, sobretudo para os muitos jovens que a perderam.
Irmãos e irmãs, hoje é necessário olhar para o futuro com esperança e construir a esperança do futuro. Não tenhais medo de o fazer! Jesus Ressuscitado, que percorre o caminho convosco e por vós se parte como pão, encoraja-vos a ser testemunhas da sua ressurreição e protagonistas de uma nova humanidade e de uma nova sociedade.
Neste caminho, caríssimos, podeis contar com a proximidade e com a oração do Papa! Também eu sei que posso contar convosco, e por isso vos agradeço! Confio-vos à proteção e à intercessão da Virgem Maria, Nossa Senhora de Muxima, para que Ela vos sustente sempre na fé, na esperança e na caridade.
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sábado, 18 de abril de 2026
DISCURSO DO SANTO PADRE EM ANGOLA
VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)
ENCONTRO COM AS AUTORIDADES, A SOCIEDADE CIVIL E O CORPO DIPLOMÁTICO
DISCURSO DO SANTO PADRE
Palácio Presidencial, Luanda
Sábado, 18 de abril de 2026
Senhor Presidente,
Distintas Autoridades e membros do Corpo Diplomático,
Senhoras e Senhores!
É para mim motivo de grande alegria estar entre vós. Obrigado, Senhor Presidente, pelo convite para visitar Angola e pelas palavras de boas-vindas. Venho até vós para encontrar o vosso povo, como um peregrino que procura os sinais da passagem de Deus por esta terra que Ele ama.
Antes de prosseguir, gostaria de assegurar a minha oração pelas vítimas das fortes chuvas e inundações que atingiram a província de Benguela, bem como expressar a minha proximidade com as famílias que perderam suas casas. Sei também que vós, angolanos, estais unidos em uma grande corrente de solidariedade em favor dos atingidos.
Desejo encontrar-vos na gratuidade da paz e constatar que o vosso povo possui tesouros que não se vendem nem se roubam. Em particular, possui em si uma alegria que nem mesmo as circunstâncias mais adversas conseguiram extinguir. Essa alegria, que também conhece a dor, a indignação, as desilusões e as derrotas, resiste e regenera-se entre aqueles que mantiveram o coração e a mente livres do engano da riqueza. Vós sabeis bem que, demasiadas vezes, se olhou e se olha às vossas terras para dar ou, mais frequentemente, para tirar algo. É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria.
A África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que eu não hesitaria em definir como virtudes “políticas”, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa. Com efeito, a sabedoria de um povo não se deixa esmorecer por nenhuma ideologia e, realmente, o desejo de infinito que habita o coração humano é um princípio de transformação social mais profundo do que qualquer programa político ou cultural. Estou aqui, entre vós, ao serviço das melhores forças que animam as pessoas e as comunidades de que Angola é um mosaico muito colorido. Desejo ouvir e encorajar aqueles que já escolheram o bem, a justiça, a paz, a tolerância e a reconciliação. Ao mesmo tempo, com milhões de homens e mulheres de boa vontade que constituem a principal riqueza deste país, pretendo também invocar a conversão dos que, escolhendo caminhos opostos, impedem o seu desenvolvimento harmonioso e fraterno.
Caríssimos, referia-me às riquezas materiais nas quais, inclusivamente no vosso país, interesses prepotentes põem as mãos. Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível. O santo Papa Paulo VI, interpretando de forma penetrante as inquietudes do mundo juvenil, denunciava já há sessenta anos «o aspeto senil – totalmente anacrónico – de uma civilização comercial, hedonista, materialista, que ainda tenta passar por portadora do futuro». E observava: «Contra esta ilusão, a reação instintiva de numerosos jovens, apesar dos seus excessos, expressa um valor real. Esta geração aguarda outra coisa» (Exort. ap. Gaudete in Domino, VI). Graças a sabedorias muito antigas que alimentam o vosso pensar e o vosso sentir, vós sois testemunhas de que a criação é harmonia na riqueza da diversidade. Sempre que essa harmonia foi violada pela prepotência de alguns, o vosso povo sofreu. Ele traz as cicatrizes tanto da exploração material como da pretensão de impor uma ideia sobre outras. A África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão. Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Ele não exclui a divergência, que contudo pode tornar-se conflito.
O meu venerado predecessor, Papa Francisco, ofereceu-nos uma interpretação inolvidável: «Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9)» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 227). Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, vós, que detendes autoridade no país, acreditardes na multiformidade da sua riqueza. Não temais as divergências, nem extingais as visões dos jovens e os sonhos dos idosos. Sabei, sim, gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo. Então, a história dar-vos-á razão, mesmo que, no imediato, alguns vos sejam hostis.
Referi-me à alegria e à esperança como características da vossa jovem sociedade. Normalmente, consideram-se sentimentos pessoais, privados. No entanto, elas são uma força intensa e expansiva, que contraria toda a resignação e a tentação de se fechar. Os déspotas e os tiranos do corpo e do espírito pretendem tornar as almas passivas e os ânimos tristes, propensos à inércia, dóceis e subjugados ao poder. Na tristeza, com efeito, ficamos à mercê dos nossos medos e fantasmas, refugiamo-nos no fanatismo, na submissão, no ruído mediático, na miragem do ouro, no mito identitário. O descontentamento, o sentimento de impotência e de desenraizamento separam-nos, em vez de nos colocarem em relação, difundindo um clima de estraneidade em relação aos assuntos públicos, desprezo perante a desgraça alheia e a negação de todo o tipo de fraternidade. Tal incongruência desagrega as relações fundamentais que cada um mantém consigo mesmo, com os outros e com a realidade. Como também observou o Papa Francisco: «A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar» (Carta enc. Fratelli tutti, 15).
Desta alienação, liberta-nos a verdadeira alegria, que não por acaso a fé reconhece ser um dom do Espírito Santo. Como escreveu São Paulo, «onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2 Cor 3, 17). A alegria é, efetivamente, o que intensifica a vida e impulsiona para o campo aberto da socialidade: cada um se alegra fazendo frutificar as suas capacidades relacionais, percebendo que contribui para o bem comum e vendo-se reconhecido como pessoa única e digna, numa comunidade de encontros que se multiplicam e ampliam o espírito. A alegria sabe traçar trajetórias mesmo nas regiões mais sombrias de estagnação e angústia. Caríssimos, examinemos, pois, o nosso coração, porque sem alegria não há renovação; sem interioridade não há libertação; sem encontro não há política; sem o outro não há justiça.
Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperança. A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias. Só juntos poderemos multiplicar os talentos deste povo maravilhoso, mesmo nas periferias urbanas e nas regiões rurais mais remotas, onde pulsa a sua vida e se prepara o seu futuro. Eliminemos os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu. Foi assim, na verdade, que surgiu a nossa esperança: «A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular» (Sl 118, 22), Jesus Cristo, plenitude do homem e da história.
Que Deus abençoe Angola!
Obrigado.
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