Caminhando
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Papa sobre formação cristã: cuidar da prevenção a abusos dentro das comunidades
Andressa Collet - Vatican News
"Bom dia e bem-vindos a todos! Este é o último ato da plenária ou vocês ainda têm trabalho a fazer? Ainda? Muito bem, muito bem! Então, é um bom momento para fazer uma pausa, e estou muito feliz em recebê-los nesta manhã", disse o Papa Leão XIV no início do discurso desta sexta-feira (06/02), na Sala Clementina, no Vaticano, dirigido ao grupo de 60 pessoas que participam da III Assembleia Plenária do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Nos três dias de encontro, os trabalhos são focados nos temas da formação cristã e dos Encontros Mundiais, "realidades importantes para toda a Igreja", comentou o Pontífice.
Os Encontros Mundiais, disse Leão XIV, exigem um trabalho complexo de organização, mas o Papa preferiu se deter particularmente sobre a formação cristã, a partir das palavras de São Paulo dirigidas aos Gálatas: “Até que Cristo seja formado em vós” (Gal 4,19), que dá tema ao encontro e é um argumento presente em várias passagens do Apóstolo. Por exemplo, quando fala da importância dos "pedagogos em Cristo", mas sobretudo dos "pais" (1 Cor 4,15):
"É verdade que, na Igreja, às vezes, a figura do formador como 'pedagogo', empenhado em transmitir instruções e competências religiosas, prevaleceu sobre aquela do 'pai' capaz de gerar a fé. A nossa missão, porém, é muito mais elevada, por isso não podemos nos limitar a transmitir uma doutrina, uma observância, uma ética, mas somos chamados a compartilhar o que vivemos, com generosidade, amor sincero pelas almas, disponibilidade para sofrer pelos outros, dedicação sem reservas, como pais que se sacrificam pelo bem dos filhos."
A dimensão comunitária da formação
O Papa, então, tratou de outro aspecto da formação: a dimensão comunitária. Assim "como a vida humana é transmitida graças ao amor de um homem e de uma mulher, também a vida cristã é veiculada pelo amor de uma comunidade". Os pais dão vida aos filhos para "compartilhar a superabundância de amor e alegria que os habita", assim como deve acontecer na Igreja:
"Não é o sacerdote sozinho, ou um catequista ou um líder carismático, que gera a fé, mas a Igreja, a Igreja unida, viva, feita de famílias, de jovens, de solteiros, de consagrados, animada pela caridade e, portanto, desejosa de ser fecunda, de transmitir a todos, e sobretudo às novas gerações, a alegria e a plenitude de sentido que vive e experimenta."
O cuidado com a prevenção a abusos nas comunidades
"A missão do formador, continuou o Papa, devem seguir alguns elementos fundamentais, como "a necessidade de favorecer percursos de vida constantes, envolventes e pessoais, que conduzam ao Batismo e aos Sacramentos, ou à sua redescoberta". Outro aspecto é "ajudar quem empreende um caminho de fé a amadurecer e a custodir um novo modo de viver, que abranja todos os âmbitos da existência, privados e públicos, como o trabalho, as relações e a conduta cotidiana". E o Papa enalteceu:
“É indispensável cuidar nas nossas comunidades dos aspectos formativos voltados para o respeito à vida humana em todas as suas fases, em particular, aqueles que contribuem para prevenir qualquer forma de abuso contra menores e pessoas vulneráveis, bem como para acompanhar e apoiar as vítimas.”
"Como podemos ver, a arte de formar não é fácil e não se improvisa: requer paciência, escuta, acompanhamento e verificação, tanto em nível pessoal como comunitário, e não pode prescindir da experiência e da convivência com aqueles que a viveram, para aprender e seguir o exemplo."
No final do discurso, o encorajamento do Papa Leão XIV à missão, mesmo diante dos desafios e seguindo modelos de fé, como aquele de Santo Agostinho:
"Os desafios que enfrentam, às vezes, podem parecer superiores às suas forças e recursos. Mas vocês não devem desanimar. Comecem pelo pequeno, seguindo, na fé, a lógica evangélica do 'grão de mostarda' (cf. Mt 13, 31-32), confiantes de que o Senhor nunca os deixará, no momento oportuno, as energias, as pessoas e as graças necessárias."
O Papa: tráfico humano, mulheres e crianças são as mais afetadas por este comércio hediondo
Mariangela Jaguraba - Vatican News
Foi divulgada, nesta sexta-feira (06/02), a mensagem do Papa Leão XIV para o 12º Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas que será celebrado no domingo 8 de fevereiro.
"A paz começa com a dignidade: um apelo global para acabar com o tráfico de pessoas" é o título da mensagem do Papa Leão XIV. O Pontífice renova "com firmeza o apelo urgente da Igreja para enfrentar e pôr fim a este grave crime contra a humanidade".
Uma humanidade renovada
"Este ano, em particular, desejo recordar a saudação do Senhor Ressuscitado: «A paz esteja convosco». Estas palavras são mais do que uma saudação; elas oferecem um caminho para uma humanidade renovada", escreve o Papa, acrescentando:
“A verdadeira paz começa com o reconhecimento e a proteção da dignidade dada por Deus a cada pessoa. No entanto, numa época marcada pela escalada da violência, muitos são tentados a buscar a paz «através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio».”
Lógica de domínio alimenta o flagelo do tráfico humano
"Além disso, em situações de conflito, a perda de vidas humanas é muitas vezes descartada pelos instigadores da guerra como “dano colateral”, sacrificada em nome de interesses políticos ou econômicos", frisa Leão XIV.
“Infelizmente, a mesma lógica de domínio e desrespeito pela vida humana também alimenta o flagelo do tráfico de seres humanos. A instabilidade geopolítica e os conflitos armados criam um terreno fértil para os traficantes explorarem os mais vulneráveis, especialmente as pessoas deslocadas, os migrantes e os refugiados. Dentro deste paradigma falido, as mulheres e as crianças são as mais afetadas por este comércio hediondo. Além disso, o crescente abismo entre ricos e pobres força muitos a viver em circunstâncias precárias, deixando-os suscetíveis às promessas enganosas dos recrutadores.”
“Escravidão cibernética”
De acordo com o Papa, "este fenômeno é particularmente perturbador no aumento da chamada “escravidão cibernética”, na qual os indivíduos são atraídos para esquemas fraudulentos e atividades criminosas, como fraude on-line e contrabando de drogas. Nesses casos, a vítima é coagida a assumir o papel de perpetrador, exacerbando as suas feridas espirituais. Estas formas de violência não são incidentes isolados, mas sintomas de uma cultura que se esqueceu de amar como Cristo ama".
"Perante estes graves desafios", ressalta ainda Leão XIV, "recorremos à oração e à reflexão. A oração é a “pequena chama” que devemos proteger no meio da tempestade, pois dá-nos força para resistir à indiferença perante a injustiça".
“A reflexão sobre o tema permite-nos identificar os mecanismos ocultos de exploração nos nossos bairros e nos espaços digitais. Em última análise, a violência do tráfico de seres humanos só pode ser superada através de uma visão renovada que considere cada indivíduo como um filho amado de Deus.”
Josefina Bakhita, testemunho de esperança no Senhor
O Papa agradece "a todos aqueles que servem como se fossem as mãos de Cristo, indo ao encontro das vítimas do tráfico, incluindo as redes e organizações internacionais". "Gostaria também de agradecer aos sobreviventes que se tornaram advogados em defesa de outras vítimas. Que o Senhor os abençoe pela sua coragem, fidelidade e compromisso incansável", sublinha.
“Com estes sentimentos, confio quantos comemoram este dia à intercessão de Santa Josefina Bakhita, cuja vida é um poderoso testemunho de esperança no Senhor que a amou até ao fim.”
"Juntemo-nos todos na caminhada rumo a um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerra, mas seja “desarmada e desarmante”, enraizada no pleno respeito pela dignidade de todos", conclui o Papa.
Leão XIV recebe ministério de castidade de pessoas com atração pelo mesmo sexo
Por Daniel Payne
6 de fev de 2026 às 15:58
O papa Leão XIV se reuniu hoje (6) com membros da Courage International, que desde 1980 presta assistência a fiéis que lutam contra a atração por pessoas do mesmo sexo.
O ministério com sede em Connecticut, EUA, disse que o encontro no Vaticano foi “histórico” e “momentoso” em um comunicado à imprensa. Líderes associados ao grupo, como o bispo de Bridgeport, Connecticut, Frank Caggiano, e o diretor executivo do grupo, padre Brian Gannon, se reuniram com o papa numa audiência privada.
“A oportunidade de compartilhar com o Santo Padre as obras do apostolado, de oferecer acompanhamento pastoral a pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo, mas que se esforçam para viver vidas castas, ou de acompanhar familiares que têm um ente querido que se identifica como LGBTQ, foi um momento marcante”, disse o grupo.
Fundada oficialmente em 1980, a Courage International completou 45 anos no ano passado ajudando pessoas com dificuldades relacionadas à sexualidade a "viver uma vida casta" em obediência à doutrina da Igreja. Fundada na ilha de Manhattan, Nova York, a sede do grupo fica em Bridgeport.
Gannon, que assumiu a liderança da organização em 2024, disse hoje à EWTN News que o encontro — o primeiro do grupo com um papa — foi um “presente extraordinário”.
“O papa foi muito gentil, um ótimo ouvinte”, disse ele. “Conversamos sobre a importância da castidade, como ela cura, fortalece e restaura a pessoa. O papa foi obviamente muito encorajador”.
Leão XIV “falou sobre liberdade, sobre o que é a verdadeira liberdade — não a liberdade desenfreada que o mundo oferece, mas sim o domínio de nossas paixões e a completa entrega à vontade de Deus”.
Gannon disse que o encontro com o papa é um "grande impulso moral" para o grupo, que tem filiais em cerca de uma dúzia de países e tem cerca de 200 capelães.
“Todos os membros da Courage em todo o mundo verão que o papa concedeu uma audiência, ouviu atentamente e apoia muito tudo o que a Courage está fazendo”, disse Gannon, chamando o encontro de “uma grande bênção”.
O padre disse à EWTN News no ano passado que a organização é um "ministério necessário" que "ajuda as pessoas a encontrar a paz".
Os membros do grupo “se reúnem, leem os objetivos, discutem suas experiências e desafios na semana e rezam”, disse ele. “A oração é absolutamente essencial”.
Hoje, Gannon disse que o papa falou ao grupo sobre "as feridas das pessoas" e como "Jesus Cristo está sempre com vocês e vocês nunca estão sozinhos".
Gannon falou sobre a missão do grupo como ajudar as pessoas a desenvolver autocontrole a serviço de Cristo. Ele deu o exemplo de alguém que cai na água e fica se debatendo, sem conseguir nadar.
“Quem aprende a nadar é verdadeiramente livre, não quem fica se debatendo”, disse ele.
(acidigital)
Leão XIV pede trégua olímpica e fala sobre valor educativo do esporte
6 de fev de 2026 às 15:43
O papa Leão XIV publicou uma carta sobre o valor do esporte intitulada A vida em abundância, por ocasião da Olimpíada de Inverno 2026, aberta oficialmente hoje em Milão e Cortina d'Ampezzo, Itália.
No início da carta, o papa fala sobre o esporte como uma atividade comum, aberta a todos, "saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano".
Ele exorta por uma trégua na próxima olimpíada de inverno
O papa fala sobre o esporte como um meio de alcançar a paz e evoca a trégua olímpica da Grécia antiga, “acordo destinado a suspender as hostilidades antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos”.
Ao contrário dos valores promovidos pelo esporte, como a coesão comunitária e o bem comum, o papa Leão XIV diz que a guerra “nasce de uma radicalização do desacordo e da recusa em cooperar uns com os outros”.
“O adversário é então considerado um inimigo mortal, a ser isolado e, se possível, eliminado”, diz o papa.
Assim, ele propõe uma trégua olímpica na próxima olimpíada e paralimpíada de inverno, exortando todos os países a redescobrir e respeitar "esse instrumento de esperança".
União entre corpo e espírito
O papa fala sobre o valor formativo do esporte, dizendo que a pessoa “deve sempre permanecer no centro”. Ele também fala sobre a história, destacando a tradição paulina, por meio da qual muitos autores cristãos usaram imagens esportivas como metáforas para descrever a dinâmica da vida espiritual.
“Isso, até hoje, faz-nos refletir sobre a profunda unidade entre as diferentes dimensões do ser humano”, diz o papa. Leão XIV fala sobre o desenvolvimento de uma cultura em que o corpo, unido ao espírito, está plenamente envolvido em práticas religiosas, como peregrinações e procissões.
O valor educativo do esporte também é destacado, graças às contribuições de figuras como Hugo de São Vítor e São Tomás de Aquino.
A consciência da Igreja sobre a importância do esporte
Falando sobre o esporte como uma “escola de vida”, o papa cita grandes educadores como são Filipe Néri e são João Bosco, e a encíclica Rerum novarum publicada por Leão XIII em 1891, “que estimulou o surgimento de inúmeras associações esportivas católicas, respondendo assim, no plano pastoral, às novas exigências da vida moderna”.
Leão XIV diz que que a primeira olimpíada, em 1896, “propôs uma visão do esporte centrada na dignidade da pessoa humana, no seu desenvolvimento integral, na educação e na relação com os outros, destacando o seu valor universal como instrumento de promoção de valores como a fraternidade, a solidariedade e a paz”.
O Concílio Vaticano II, diz ele, “colocou a sua avaliação positiva do esporte no âmbito mais amplo da cultura”. Ele também cita os Jubileus do Esporte promovidos pelo papa são João Paulo II.
“Graças à leitura dos sinais dos tempos, cresceu, portanto, a consciência eclesial da importância da prática esportiva”, diz o papa.
O papa Leão XIV, ávido jogador de tênis, cita o esporte em sua carta. Ele diz que o tênis consiste “numa troca prolongada”, na qual cada jogador “leva o outro ao limite do seu nível de habilidade”.
“A experiência é emocionante e os dois jogadores incentivam-se mutuamente a melhorar”, diz Leão XIV.
(acidigital)
Hoje é celebrado o beato Pio IX, o papa que se declarou prisioneiro
Por Redação central
7 de fev de 2026 às 00:01
Hoje (7), a Igreja Católica celebra o beato Pio IX, 255º papa da Igreja Católica. Seu pontificado, de 16 de junho de 1846 a 7 de fevereiro de 1878, é considerado o segundo mais longo da história com um total de 31 anos, 7 meses e 22 dias. O papa são João Paulo II o beatificou junto com o papa são João XXIII em 3 de setembro de 2000.
Início de um itinerário
Giovanni Maria Battista Pellegrino Isidoro Mastai Ferretti, papa Pio IX, nasceu em Senigallia, Itália, em 13 de maio de 1792. Seus pais eram Gerolamo e Caterina Solazzi, que o batizaram no mesmo dia em que nasceu.
Em 1809 viajou para Roma a fim de continuar os estudos que iniciara em sua cidade natal. Mesmo sem ter uma orientação clara para o sacerdócio, vivia de forma exemplar, como o demonstram alguns propósitos feitos em 1810 após um retiro espiritual: lutar contra o pecado, evitar qualquer ocasião perigosa, estudar "não por ambição de conhecimento", mas para o bem dos outros, o abandono de si nas mãos de Deus.
Ele interrompeu seus estudos em 1812 devido a uma doença e foi exonerado do serviço militar. Em 1815, tentou ingressar na Guarda Pontifícia, mas também teve que desistir devido a problemas de saúde. Giovanni Maria sofria de epilepsia desde muito jovem, doença que foi diminuindo com o passar dos anos até desaparecer completamente, acredita-se, graças à intercessão de Nossa Senhora de Loreto.
A serviço de Deus, a serviço da Igreja
Ele recebeu as ordens menores em 1817, o subdiaconato em 1818 e o diaconato em 1819. Nesse mesmo ano foi ordenado sacerdote. Celebrou sua primeira missa na Igreja de Santa Ana dos Carpinteiros, do Instituto Tata Giovanni, do qual foi nomeado reitor, cargo que ocupou até 1823.
O padre Giovanni Maria já dava claros indícios da sua personalidade: um homem de oração constante, consagrado ao ministério da Palavra e do sacramento da Reconciliação; sempre perto dos mais humildes e necessitados.
Ele soube conciliar a vida ativa com a contemplativa de maneira admirável. Muito dedicado ao trabalho pastoral e social, mostrava-se também muito recolhido, dada a sua intensa devoção eucarística e a sua piedade à Virgem.
Em 1820 deixou o Instituto Tata Giovanni e empreendeu uma viagem ao Chile, acompanhando o núncio apostólico, dom Giovanni Muzzi. Ficou nesse país até 1825.
Voltando à Itália, em 1825, foi eleito diretor do Asilo São Miguel, importante obra eclesial a serviço da comunidade, que foi reformada por ele de forma eficaz. Aos 36 anos, foi nomeado bispo e enviado à arquidiocese de Spoleto. Esta foi uma fase muito difícil da sua vida dada a sua juventude e a imensa responsabilidade que foi colocada sobre os seus ombros.
Em 1832, dom Giovanni Maria foi transferido para outra diocese, desta vez para Imola, onde continuou o seu estilo de pregador fecundo e persuasivo, pronto para a caridade com todos, pai zeloso dos seus sacerdotes diocesanos, clérigos e seminaristas, promotor de iniciativas em favor da educação dos jovens. Em 1840, com apenas 48 anos, dom Giovanni Maria foi criado cardeal.
Pontificado sob o sinal da Cruz
Na tarde de 16 de junho de 1846, o cardeal Giovanni Maria foi eleito papa e assumiu a Sé de São Pedro com o nome de Pio IX.
Durante o seu pontificado, devido às circunstâncias políticas derivadas da unificação da Itália e da perda dos Estados Pontifícios, a sua tarefa tornou-se extremamente difícil. Foram tempos muito difíceis que o papa teve de enfrentar com sabedoria e prudência.
Por isso, o papa Pio IX é reconhecido como um dos maiores pontífices; "Vigário de Cristo" e ao mesmo tempo cumprindo um papel político, assumido para o bem da Igreja de Cristo.
A sua obra doutrinal implicava uma visão programática destinada a enfrentar os principais problemas e ameaças tanto para a Igreja como para a civilização cristã: condenava as sociedades secretas, a maçonaria, o comunismo e o liberalismo.
Dentre as ações ou medidas mais marcantes do papado de Pio IX, pode-se destacar: a restauração da hierarquia católica na Inglaterra, Holanda e Escócia; a definição solene, em 8 de dezembro de 1854, do dogma da Imaculada Conceição; o envio de missionários para as zonas do norte da América e da Europa , para a Índia, Birmânia, China e Japão; a promulgação do Syllabus errorum, na qual alertava para os erros do chamado modernismo; a celebração, com particular solenidade, do XVIII centenário do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo; a celebração do Concílio Ecumênico Vaticano I, iniciado em 1869 e concluído (por suspensão) em 18 de julho de 1870. Durante esse concílio, foi estabelecida a chamada doutrina da infalibilidade do papa.
De volta para casa
Após a queda de Roma em 20 de setembro de 1870 e o fim do poder temporal do papa, Pio IX trancou-se no Vaticano, declarando-se “prisioneiro”. Sua posição se tornou um exemplo de dignidade e desapego da ordem temporal por ser um exercício de liberdade religiosa, firme diante do poder secular.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Guterres: o mundo se desestabiliza quando o poder substitui a lei
Paolo Mastrolilli - Nova York
"Quando a lei do poder substitui o poder da lei, as consequências são profundamente desestabilizadoras." Um alerta vai ao cerne da ameaça que abala toda a comunidade global, e emitido pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, nesta entrevista exclusiva à Repubblica, durante sua visita à Itália para a abertura dos Jogos Olímpicos.
Historicamente, os Jogos têm sido uma oportunidade para o diálogo, a inclusão e a paz, mas em seu recente discurso à Assembleia Geral da ONU sobre as prioridades para 2026, o senhor afirmou: "Vivemos em um mundo repleto de conflitos, impunidade, desigualdade e imprevisibilidade. Um mundo marcado por divisões geopolíticas autodestrutivas, violações flagrantes do direito internacional e cortes drásticos no desenvolvimento e na ajuda humanitária. Essas e outras forças estão abalando os alicerces da cooperação global e testando a resiliência do próprio multilateralismo. Este é o paradoxo da nossa época: em um momento em que mais precisamos da cooperação internacional, parecemos ser os menos inclinados a usá-la e investir nela." Quais são as causas profundas dessa tendência e quais poderiam ser as soluções?
Antes de tudo, os Jogos Olímpicos são um excelente momento para simbolizar a paz e o respeito pelo direito internacional e pela cooperação. Quero expressar minha profunda gratidão à Itália por sua liderança na revitalização da antiga Trégua Olímpica como um poderoso símbolo de paz. Graças à iniciativa italiana, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução convocando as nações a observarem a Trégua Olímpica durante a preparação e ao longo dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Esta é uma poderosa recordação de que, mesmo em tempos de divisão, a humanidade pode se unir em torno de valores compartilhados. O esporte tem uma capacidade única de superar divisões e inspirar a cooperação, e eu elogio a Itália por abraçar esse espírito durante os Jogos de 2026. Os desafios que destaquei estão profundamente enraizados em múltiplos fatores interconectados. Na geopolítica atual, ações imprudentes provocam reações perigosas. A impunidade alimenta a escalada, as desigualdades abalam as sociedades e as mudanças climáticas desencadeiam tempestades, incêndios florestais e a elevação do nível do mar. A tecnologia sem proteção multiplica a instabilidade. Ao mesmo tempo, violações flagrantes do direito e das normas internacionais enfraquecem a credibilidade das instituições globais, enviando um sinal perigoso de que atores poderosos podem agir impunemente. A redução do investimento em desenvolvimento e ajuda humanitária agrava ainda mais essas crises, deixando populações vulneráveis à fome, ao deslocamento e aos conflitos. O efeito cumulativo é o enfraquecimento do multilateralismo justamente quando a cooperação global é mais necessária: para prevenir conflitos, responder a crises, enfrentar as mudanças climáticas e defender os princípios de paz, justiça e direitos humanos que fundamentam as Nações Unidas. Os Jogos Olímpicos também oferecem uma plataforma única para conscientizar sobre a crise climática. As mudanças climáticas ameaçam diretamente o futuro dos esportes de inverno: sem ações urgentes, o número de locais capazes de sediar eventos de inverno de forma confiável poderá cair dos atuais mais de 90 para apenas 30 na década de 2080. Salvaguardar o futuro do esporte — e do nosso planeta — exige uma ação decisiva e coletiva de todos os governos para limitar o impacto do aquecimento global, em consonância com o Acordo de Paris, a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Os Jogos podem mobilizar governos, atletas e cidadãos, demonstrando que a cooperação global pode gerar resultados concretos, tanto para a paz quanto para o clima. Acredito que as Olimpíadas são excelentes momentos para simbolizar a paz, o respeito ao direito internacional e a cooperação internacional. (…)
Recentemente o senhor afirmou: "Há aqueles que acreditam que o poder da lei ("Estado de Direito") deve ser substituído pela lei do poder. De fato, ao observar a atual política dos EUA, fica evidente a crença de que soluções multilaterais são irrelevantes e que o que importa é o exercício do poder e da influência dos EUA." Quais são as consequências e os perigos desse comportamento para a paz e a estabilidade globais?
Se queremos um mundo estável — um mundo onde a paz possa ser sustentada, o desenvolvimento compartilhado possa florescer e nossos valores comuns possam prevalecer — devemos defender a multipolaridade baseada na cooperação, não no confronto. Quando a lei do poder substitui o poder da lei, as consequências são profundamente desestabilizadoras. A impunidade alimenta conflitos, escaladas e aprofunda a desconfiança, permitindo que spoilers se aproveitem das tensões e ajam sem responsabidade. A cooperação multilateral é enfraquecida e as instituições internacionais têm dificuldades para responder eficazmente às crises. Quando Estados poderosos priorizam a influência em detrimento da adesão ao direito internacional, isso mina a credibilidade do sistema internacional baseado em regras, enviando uma mensagem perigosa de que regras e normas podem ser ignoradas e descartadas. Isso mina a confiança entre os países, incentiva ações unilaterais e aumenta o risco de confrontos, instabilidade e sofrimento humano. Em última análise, a paz e a estabilidade globais não podem ser alcançadas sem o respeito ao direito internacional, comportamento previsível e cooperação coletiva. Instituições multilaterais fortes e inclusivas, fundamentadas na responsabilidade e em valores compartilhados, são essenciais para a gestão de conflitos, o combate às desigualdades, a resposta a crises humanitárias, o enfrentamento das mudanças climáticas e a defesa dos princípios da Carta das Nações Unidas.
Em seu discurso sobre as prioridades para 2026, o senhor afirmou que acolhe com satisfação o início da Fase Dois do cessar-fogo em Gaza. No entanto, muitos analistas veem o Conselho de Paz como um desafio direto às Nações Unidas. O próprio presidente Trump afirmou que ele poderia substituir a ONU. O senhor considera isso um risco?
O Conselho de Segurança adotou a Resolução 2803, que trata especificamente de Gaza. Essa resolução define uma série de funções e responsabilidades, incluindo as do Conselho de Paz e de outros atores, e é essencial que seja plenamente implementada. Encorajo todas as partes a respeitá-la. Todos os esforços devem ser guiados pelas resoluções relevantes da ONU e pelo direito internacional. Temos necessidade de que o cessar-fogo em Gaza se mantenha e que se avance decisivamente para a Fase Dois. Isso significa a retirada completa das forças israelenses, o desmantelamento dos grupos armados e a criação das condições para um horizonte político crível, incluindo uma solução de dois Estados. Ao mesmo tempo, é importante sermos claros quanto aos mandatos. A responsabilidade pela paz e segurança internacionais cabe às Nações Unidas e, dentro delas, ao Conselho de Segurança. Somente o Conselho tem a autoridade, conferido pela Carta, para agir em nome de todos os Estados-Membros, adotar decisões vinculativas e autorizar o uso da força de acordo com o direito internacional. Nenhum outro órgão ou iniciativa pode substituir esse papel. É precisamente por isso que o fortalecimento e a reforma do Conselho são essenciais. A segurança continua sendo crucial. Em Gaza, observamos um aumento significativo na assistência humanitária desde o cessar-fogo. Mas ainda está longe de ser suficiente. Além de alimentos, há enormes necessidades de saúde, abrigo, água e saneamento. As Nações Unidas permanecem totalmente comprometidas e empenhadas em superar os obstáculos para que a assistência vital chegue aos mais necessitados.
Recentemente, o senhor enviou uma carta aos embaixadores alertando-os de que a ONU corre o risco de um "colapso financeiro iminente". Por que isso está acontecendo e o que os Estados-membros devem fazer para evitar essa situação?
Enfatizei que este não é um desafio comum de fluxo de caixa. Deixei claro aos Estados-membros que, embora a ONU tenha administrado períodos difíceis de contribuições não pagas no passado, a situação atual é categoricamente diferente. Decisões de não honrar contribuições que financiam uma parte significativa do orçamento regular aprovado foram agora formalmente anunciadas. Isso cria uma crise estrutural. De acordo com as regras financeiras vigentes, se os fundos não forem recebidos, a Organização é legalmente obrigada a devolver os valores "não gastos", mesmo quando os mandatos não podem ser totalmente implementados. O resultado é um ciclo insustentável de incerteza, atrasos nas operações, congelamento de contratações e implementação reduzida dos mandatos aprovados pelos próprios Estados-membros. A trajetória atual é insustentável. Isso expõe a ONU a riscos financeiros estruturais e força uma escolha drástica: os Estados-membros devem concordar em reformar as regras financeiras da ONU ou aceitar a perspectiva muito real de seu colapso financeiro. Abu Dhabi acolheu as primeiras negociações trilaterais entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos, mas a condição para as garantias de segurança é que a Ucrânia concorde em ceder território. Considera esta uma solução aceitável para uma paz justa e duradoura?
Saúdo todos os esforços para alcançar uma paz justa e inclusiva, e as Nações Unidas estão prontas para apoiar esses esforços. No entanto, no que diz respeito à Ucrânia, é crucial não esquecer os princípios fundamentais. Primeiro, foi a Rússia que invadiu a Ucrânia, e não o contrário. Segundo, qualquer possível solução para este ou qualquer outro conflito deve basear-se no direito internacional e nos princípios da Carta das Nações Unidas. As violações destas regras são extremamente perigosas, pois transmitem a mensagem de que o direito internacional já não importa e que os Estados podem agir sem consequências. Qualquer paz na Ucrânia deve garantir a soberania, a independência e a integridade territorial do país dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional. A ONU está pronta para apoiar um processo de paz se as partes concordarem e nos pedirem para o fazer, mas essas decisões não dependem de nós, dependem das partes. Em menos de um mês, completaremos quatro anos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Federação Russa — uma guerra que trouxe morte e destruição, causou um número inimaginável de vítimas em ambos os países e representa uma grave ameaça não só à paz e à segurança na Europa, mas também aos fundamentos e princípios fundamentais das Nações Unidas. Nos últimos meses, com as temperaturas caindo bem abaixo de zero, testemunhamos ataques sistemáticos e intensificados à infraestrutura energética ucraniana, com consequências humanitárias devastadoras. Esses ataques mataram e feriram dezenas de civis e deixaram milhões de ucranianos sem eletricidade, aquecimento e água. Onde quer que ocorram, os ataques contra civis e infraestrutura civil são inaceitáveis, injustificáveis e devem cessar imediatamente. Esta guerra, que nunca deveria ter começado, deve terminar.
Papa: Deus fala através da Bíblia, devemos interpretá-la sem fundamentalismos
Thulio Fonseca – Vatican News
“A Constituição Conciliar Dei Verbum, sobre a qual temos refletido nas últimas semanas, aponta na Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, para um espaço privilegiado de encontro no qual Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos, para que, ao ouvi-Lo, possam conhecê-Lo e amá-Lo”, afirmou o Papa Leão XIV no início da catequese, ao dar continuidade ao ciclo de reflexões sobre o Concílio Vaticano II, na Audiência Geral desta quarta-feira, 4 de fevereiro, realizada na Sala Paulo VI, com a presença de milhares de fiéis.
Leão XIV recordou que os textos bíblicos não foram escritos em uma linguagem celestial ou sobre-humana, mas em línguas humanas, marcadas pela história e pela cultura dos seus autores. Assim, Deus escolheu comunicar-se assumindo a linguagem dos homens, como já havia feito ao encarnar-se em Jesus Cristo.
A colaboração entre Deus e os autores humanos
O Papa explicou que, ao longo da história da Igreja, refletiu-se amplamente sobre a relação entre o Autor divino e os autores humanos da Escritura. Se durante séculos se insistiu quase exclusivamente na inspiração divina, hoje a Igreja reconhece também o verdadeiro papel dos hagiógrafos. Deus é o principal autor da Escritura, mas os escritores sagrados são, ao mesmo tempo, “verdadeiros autores” dos livros bíblicos, e completou:
“Deus nunca menospreza o ser humano e as suas potencialidades!”
Evitar leituras fundamentalistas
Segundo o Santo Padre, uma interpretação correta dos textos sagrados não pode ignorar o contexto histórico em que se desenvolveram e as formas literárias:
“Abandonar o estudo das palavras humanas usadas por Deus corre o risco de resultar em leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura que traem o seu significado. Este princípio também se aplica ao anúncio da Palavra de Deus: se perde o contato com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos da humanidade, se utiliza uma linguagem incompreensível, incomunicativa ou anacrônica, é ineficaz. Em cada época, a Igreja é chamada a reapresentar a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de chegar aos corações.”
A Escritura como Palavra viva para hoje
Por outro lado, o Pontífice advertiu contra o risco oposto: considerar a Escritura apenas como um texto do passado ou como objeto de estudo técnico. Especialmente quando proclamada na liturgia, a Palavra de Deus é destinada a falar à vida dos fiéis hoje, iluminando escolhas e decisões.
Isso só é possível quando os textos são lidos sob a ação do mesmo Espírito que os inspirou. Nesse sentido, Leão XIV citou Santo Agostinho: “Quem crê, compreendeu as Sagradas Escrituras [...]; se, por meio dessa compreensão, não for capaz de edificar a dupla caridade, para com Deus e para com o próximo, ainda não as compreendeu”.
A Palavra que conduz à vida plena
O Papa concluiu destacando que o Evangelho não pode ser reduzido a uma mensagem meramente filantrópica ou social, pois é o anúncio da vida plena e eterna oferecida por Deus em Jesus Cristo.
“Queridos irmãos e irmãs, demos graças ao Senhor porque, em sua bondade, não permite que nossas vidas fiquem sem o alimento essencial da sua Palavra”, exortou o Pontífice, pedindo também que as palavras e a vida dos cristãos não obscureçam o amor de Deus que nela se manifesta.