21 de mar de 2026 às 02:00
O postulador da causa da canonização
de Jérôme Lejeune, Aude Dugast, elogiou o caráter heroico das virtudes
do geneticista francês, e seu legado espiritual e intelectual que mudou a
visão do mundo da síndrome de Down.
Nascido em 13 de junho de 1926 em
Montrouge, França, o doutor Lejeune descobriu em 1958 a trissomia do par
de cromossomos 21, responsável pela síndrome de Down.
A descoberta foi publicada na revista Nature
em 1959. Desde então, Lejeune dedicou todos os seus esforços para
defender essas crianças das tentativas de instrumentalizar sua
descoberta para justificar o aborto de crianças com Down.
Essa postura de
Lejeune na defesa do direito à vida de crianças com síndrome de Down
fez com que sua candidatura ao Prêmio Nobel de Medicina de 1970 não
prosperasse, apesar da importância de sua descoberta.
Em uma entrevista ao National Catholic Register,
Dugast disse que a virtude da fé do geneticista francês é óbvia, "ele
nunca duvidou e sua fé cresceu junto com sua inteligência e conhecimento
científico".
“Todo o seu ser estava orientado
para a busca da verdade”, disse. “Como resultado, ele usou sua
inteligência científica e espiritual para descobrir os mistérios do
mundo criado com o grande mérito de poder transmiti-lo ao mundo com
palavras simples e com grande humildade”, acrescentou.
O postulador disse que as
capacidades do servo de Deus se combinavam com "uma caridade heroica
porque tinha um amor incondicional por seus pacientes que demonstrava
quando se falava do aborto de crianças com síndrome de Down”.
“Ele não seguiu o espírito da
época. Sua moral estava a salvo. E isso é heroico porque ele sabia que
teria muitos problemas por fazer isso, ele sabia. Mas disse que ele era o
defensor natural dessas crianças porque não podiam se defender
sozinhas", comentou.
Dugast disse que o
geneticista se manteve "incrivelmente tranquilo e gentil" mesmo quando
as portas se fecharam, e foi graças a isso que foi reconhecido como “o
verdadeiro defensor da vida. Esta é a marca da sua natureza heroica”.
O postulador acrescentou que o
geneticista católico via "no paciente uma pessoa feita à imagem de Deus"
e destacou que este olhar "de amor e esperança transforma o paciente e
os pais".
“Tenho muitos testemunhos de pais
que ficaram maravilhados com a maneira como Lejeune recebeu seu filho e
olhou para ele. Isso os ajudou a olhar para seu filho deficiente com
amor renovado”, acrescentou.
A justiça, disse ele, é a "grande
virtude cardeal de Lejeune", que lutou "pelo reconhecimento dos direitos
de todos os nascituros" e não teve medo de "sacrificar a própria
carreira" por esta causa.
Dugast disse que
essa decisão fez com que o servo de Deus perdesse muitas coisas no
processo, como o Prêmio Nobel, ao qual foi nomeado duas vezes; mas nada
poderia o desviar do que “via como a verdade da inteligência e a verdade
do coração” sobre o valor da vida.
“Em nosso mundo pós-moderno, a
pressão é enorme, e se a pessoa não é livre interiormente, se não está
disposta a perder tudo para seguir a própria consciência, sempre estará
em perigo de se comprometer”, lamentou.
O postulador disse que o legado
científico de Lejeune revolucionou o mundo da genética e a vida das
famílias com crianças com deficiência.
“Não percebemos hoje, mas antes
dessa descoberta em 1958, as famílias que tinham um filho com síndrome
de Down, ou uma criança 'mongolóide' como eram chamadas na época,
estavam perdidas, sem mencionar a forma como a sociedade via os seus
filhos e, portanto, como os via”, acrescentou.
Dugast lamentou que
as famílias com filhos com deficiência naquela época tenham sido
condenadas ao ostracismo e a viver escondidas, onde as outras filhas não
podiam se casar.
“Ao mostrar que se tratava de uma
doença cromossômica, Lejeune revolucionou a visão da sociedade sobre as
famílias e restaurou sua dignidade. Isso as libertou do peso da suspeita
e da fatalidade", disse.
O postulador destacou que o servo
de Deus fez da genética uma disciplina “por direito próprio, criou os
primeiros certificados citogenéticos, foi o primeiro professor da
primeira cátedra acadêmica de genética na França. Ele também foi reitor
da Universidade de Medicina de Paris”.
“Diz-se que ele foi o pai da
genética moderna. Todos os geneticistas da França durante 30 anos foram
seus alunos. Teve um impacto enorme, não só na França, mas também nos
EUA e em todo o mundo”, disse.
Mas o seu impacto
foi também no plano espiritual, onde o servo de Deus conseguiu
demonstrar que “a fé e a ciência andam de mãos dadas, que para ser um
grande cientista não é preciso deixar a fé de lado”, e para ser um homem
venerável, com virtudes heróicas, “não precisa deixar a inteligência de
lado”.
“A inteligência de Jérôme Lejeune está verdadeiramente no centro da sua santidade”, acrescentou.
Dugast também destacou o papel
fundamental de Birthe Lejeune, esposa do geneticista francês, a quem
descreveu como “mais do que uma mão direita. Ela era parte total dele”.
“Jérôme Lejeune não seria o homem
que conhecemos se a senhora Lejeune não estivesse ao seu lado, mesmo que
apenas em um nível muito simples. A senhora Lejeune era uma espécie de
força vital pura, e Jérôme era um cientista, um poeta, que também era
muito concreto, mas não tinha a força vital da senhora Lejeune”,
acrescentou.
(acidigial)