Caminhando
terça-feira, 9 de junho de 2026
Barcelona pronta para dar “Benvingut” ao Papa Leão
Antonella Palermo – enviada em Barcelona
Dinamismo cultural, turismo frenético, destino privilegiado para intercâmbios estudantis. Barcelona é arrebatadora: aberta, com uma luz suave e joias arquitetônicas em diálogo com um tecido urbano vibrante, ao mesmo tempo arcaico e futurista. Benvingut [bem-vindo] é a saudação em catalão impressa em panos da cor do céu pendurados nos postes de luz ao longo das principais avenidas da cidade. Pau [paz] é a palavra em destaque que acompanha a inscrição; junto com muitas outras, ela desenha, naquele pedaço de céu, a silhueta de uma pomba com um ramo de oliveira. Esperança, humanidade, diversidade, respeito, dignidade, convivência, hospitalidade, solidariedade…: um concentrado de desejos e compromissos depositados naqueles lençóis que tremulam ao vento.
Hub mediterrâneo
O Primavera Sound de Barcelona — um dos festivais musicais mais importantes da Europa, com sons indie, eletrônicos, pop e rock — acaba de chegar ao fim. A Rambla, a avenida mais famosa da cidade, está repleta a cada dez passos de operários trabalhando na reforma do pavimento. É o reflexo de uma efervescência que percorre as artérias de uma metrópole onde a gentrificação, por vezes, entra em conflito com as fortificações identitárias de um vento autonomista arquivado, segundo a maioria dos observadores, mas talvez ainda latente. Motor econômico incontestável da Península Ibérica desde o século XIX, é palpável em Barcelona a consolidação de uma classe burguesa que estimulou uma profunda transformação da paisagem.
A chegada do Papa após o Corpus Christi
Chegar a este verdadeiro hub do Mediterrâneo na véspera da visita do Papa significa, por uma coincidência feliz, respirar também o clima da solenidade do Corpus Christi, considerada aqui como “a festa das festas”, mesmo para muitos não praticantes, a ponto de ter sido reconhecida no ano passado como festa de interesse nacional na Catalunha. Em cena, no último domingo, em frente à catedral de Santa Cruz e Santa Eulália, sede da arquidiocese onde Leão XIV inaugura hoje, 9 de junho, a etapa catalã de sua viagem apostólica pela Espanha, estiveram as tradições populares medievais com as estátuas dançantes de papel machê com mais de três metros de altura – os gigantes (cabezudos) –, representando homens e mulheres do povo em trajes medievais, animais com fogo na boca, cavalos e a águia, também majestosa com flores no bico, símbolo de Cristo na Eucaristia. Mito e fé, duas expressões antropológicas e espirituais perpetuamente entrelaçadas nesta região.
Devoção popular e agnosticismo
No claustro destaca-se o característico ovo dançante: um ovo vazio em equilíbrio sobre o jato de água de uma fonte, que o faz saltar sem deixá-lo cair. A fonte está ricamente decorada com flores e cerejas: um símbolo da Paixão de Cristo e da hóstia consagrada, mas também uma alusão à fecundidade e ao renascimento. Uma instalação que também o Papa poderá ver, juntamente com um esplêndido arranjo de flores na entrada da basílica da Sagrada Família, ícone indiscutível da cidade. Tudo remete a uma natureza que não é apenas ornamento, mas elemento estrutural dos edifícios, como nas obras de Gaudí, onde ela é um dos principais motivos de inspiração. Olhar para cima, portanto, como diz o lema da viagem do Pontífice, mas também olhar para o horizonte: surgem os navios de cruzeiro, levanta-se o vento libertador e fresco. Encruzilhada de povos, destino de empresários e artistas, porta para o mare nostrum: um recurso, o mar, ou um abismo em potencial? A pergunta resume a encruzilhada deste tempo, suspenso entre zarpar em busca de uma vida boa e bela e cair nela, sucumbir.
Entre mito identitário e impulsos cosmopolitas
Ao perguntar sobre a chegada do Papa, a impressão inicial é a de um tom mais moderado em comparação com Madri, mais contido. Afinal, estamos na região onde o secularismo é mais sensível. “Infelizmente, a Igreja foi vista aqui como uma aliada do franchismo, um dos motivos de caráter ideológico que, embora de forma muito mais atenuada do que no passado, continua, no entanto, a manter uma parte considerável dos habitantes afastada de um envolvimento pessoal e comunitário na vida eclesial”, afirma padre Giampaolo Ghisleni, natural de Bergamo, pároco dos católicos de língua italiana em Barcelona. “Aqui vive-se uma experiência quase medieval de abordagem à fé e, nestes dias em que foi concluída a torre mais alta da Sagrada Família, eu me senti como um cidadão da Florença do século XIV ao ver a cúpula de Brunelleschi ser concluída e talvez dizer consigo mesmo: ‘só nós temos uma igreja assim’”.
A fé, um despertar?
No entanto, um renascimento do sentido religioso está surgindo aqui, a ponto de cada vez mais pessoas se aproximarem da iniciação cristã na idade adulta, destaca o decano do Capítulo da catedral, Santiago Bueno Salinas. É um despertar que se manifesta com acentos ora mais evidentes, ora como se fosse um movimento karstico, com uma resposta variada, a ser toda decifrada e “ligada essencialmente à presença de movimentos eclesiais muito enraizados, desde o Opus Dei até o Caminho Neocatecumenal e o Caminho de Emaús, que atraem muitos jovens”, explica ainda o pároco que, na quarta-feira, 10 de junho, concelebrará na Sagrada Família junto com o Papa. “O desafio – ressalta ele – é como integrar esses movimentos à vivência das paróquias, que parece mais antiquada”, e também como fazer com que o sopro do Espírito penetre nas camadas sociais. Enquanto isso, fica gravada na mente a imagem de tantas pessoas — famílias, religiosas, até mesmo idosos frágeis — ajoelhadas em oração na praça diante da extraordinária fachada da antiga catedral gótica dedicada à padroeira da cidade. Ajoelhadas, com a mirada voltada para Jesus.
Madrid: Leão XIV se reúne na Nunciatura com algumas vítimas de abuso
Vatican News
Na tarde desta segunda-feira, 8 de junho, - informou a Sala de Imprensa da Santa Sé, através do canal Telegram - na Nunciatura Apostólica em Madri, o Papa Leão XIV se reuniu com seis vítimas de abuso por parte de membros do clero e da Igreja na Espanha, acompanhadas por pessoal eclesiástico empenhado no trabalho de acompanhamento às vítimas.
Durante a conversa, que durou quase uma hora, a partir de suas dolorosas experiências pessoais, cada um dos presentes apresentou ao Papa algumas propostas para tornar mais eficaz a resposta da Igreja a casos tão dramáticos.
O Papa ouviu com carinho e atenção, assegurou sua proximidade e a de toda a comunidade eclesial, bem como seu compromisso para que as propostas recebidas sirvam de base para esforços adicionais e para que a Igreja possa ser realmente um lugar seguro e espiritualmente saudável, onde as feridas encontrem consolo e cura.
Proximidade
As vítimas sentiram que o Papa se solidarizou com a dor delas. O grupo, que chegou por volta das 16h (hora local) à Nunciatura, pertence ao Projeto Repara, uma iniciativa da Arquidiocese de Madri criada para oferecer apoio integral às vítimas de abuso e para prevenir tais comportamentos dentro da Igreja e da sociedade. Sua sigla representa quatro pilares essenciais: Reconhecimento, Prevenção, Apoio e Reparação.
Os encontros anteriores com as vítimas
É a primeira vez que o Papa Leão se encontra com vítimas de abuso durante uma viagem ao exterior, mas não é seu primeiro encontro com homens e mulheres que sofreram violência sexual dentro da Igreja Católica. Em outubro do ano passado, ele recebeu no Vaticano seis membros do conselho diretor da ECA Global (Ending Clergy Abuse), uma associação internacional de direitos humanos que luta por maior apoio e indenizações para quem sofreu abusos. Em novembro, passou cerca de três horas com 15 sobreviventes de abusos sexuais cometidos por clérigos na Bélgica, acompanhados pela Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores. Por fim, em fevereiro, o Papa recebeu o irlandês David Ryan, vítima de violência quando criança no Blackrock College, em Dublin, juntamente com seu irmão Mark, falecido em 2023. “O Papa Leão sentiu minha dor”, disse Ryan ao sair daquele encontro.
O problema dos abusos na Espanha
Agora, portanto, esse importante diálogo privado, inserido na agenda da viagem à Espanha, onde o problema dos abusos está há anos no centro das atenções, também em consequência de uma investigação apresentada pelo Defensor do Povo ao Congresso dos Deputados, que reúne 487 depoimentos de vítimas de abusos na Igreja Católica na Espanha. Seguiram-se investigações jornalísticas e também iniciativas que colocaram a Igreja espanhola na linha de frente. A mais recente, em março, com o acordo assinado pela Conferência Episcopal, pela Conferência dos Religiosos, pelo próprio Defensor do Povo e pelo Ministério da Presidência para definir a organização e o funcionamento do sistema de reconhecimento e reparação para as vítimas.
Leão na Espanha: a resposta incontida de Madrid
Massimiliano Menichetti
A primeira imagem da visita de Leão à Espanha é a de uma Madri percorrida por milhares de pessoas: famílias, jovens, idosos, religiosos, curiosos, todos unidos. Dias em que as praças, as ruas, o palácio dos esportes e o estádio se coloriram com bandeiras papais e espanholas, mensagens de paz, unidade e concórdia, além da demonstração de afeto pelo Sucessor de Pedro, que veio para confirmar os fiéis na fé. Multidões ordeiras e participativas: em oração, emocionadas, explodindo em longos aplausos, como os inesquecíveis sete minutos de aplausos no Parlamento após ouvirem as palavras do Papa.
Diante das instituições do Estado, o Pontífice reiterou que uma convivência autenticamente democrática não pode prescindir da defesa de toda vida humana, do apoio aos mais frágeis, da garantia da liberdade de consciência e de religião, bem como da rejeição de toda guerra e violência. Porque uma sociedade justa se mede pela forma como protege aqueles que correm o risco de ser esquecidos.
A imagem que emerge desta primeira etapa espanhola não é apenas a do entusiasmo de abraçar um pontífice após tantos anos, mas uma verdadeira resposta, o respiro de uma consciência viva que se ergue para afirmar a beleza. Este país, atravessado por impulsos separatistas, tensões políticas, polarizações e ventos de secularismo, demonstrou possuir uma raiz forte: a fé. Segundo muitos observadores, respondeu de maneira inesperada e renovou o seu “sim” a Cristo. Em cada evento, encontro ou momento de oração, as pessoas voltaram a se reconhecer umas nas outras, fortalecendo uma linguagem comum, uma memória compartilhada e um horizonte de eternidade.
O Papa abraçou os sofrimentos daqueles que foram feridos pelo horror dos abusos e convidou a Igreja local a ser exemplo de unidade na diversidade. Não falou a uma Espanha idealizada ou nostálgica; exortou-a a redescobrir a alegria do Evangelho, o amor e a radicalidade de seguir Cristo no presente, para construir um mundo diferente: fraterno, inclusivo, solidário, acolhedor, humano e em paz.
Papa Leão dirigiu-se a uma nação dinâmica, mas não em sentido econômico. Um dinamismo do olhar — que se eleva para o alto, como recorda o lema da viagem, “Alzad la mirada” — capaz de renovar na Verdade o país, a Europa e o mundo. Nesse sentido, lançou um verdadeiro desafio, semeando uma amizade em Cristo que transforma a história de cada pessoa que O acolhe. É assim que se formam redes capazes de salvar do egoísmo, da exploração, do mal e do ódio, ativando, ao contrário, uma força de amor criativa e geradora que permeia todas as dimensões da existência humana.
O Vigário de Cristo em Madri inverteu a lógica do mundo, porque não apresentou respostas cuja força se apoia na vitória de uma parte sobre a outra. Pelo contrário, abriu mais uma vez a porta para a pergunta sobre o sentido da vida que habita cada coração humano, indicando o caminho que torna possível viver em plenitude.
(vaticannews)
segunda-feira, 8 de junho de 2026
VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV A ESPANHA, ORAÇÃO E HOMENAGEM À VIRGEM DE ALMUDENA
VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV
A ESPANHA
(6-12 DE JUNHO DE 2026)
ORAÇÃO E HOMENAGEM À VIRGEM DE ALMUDENA
SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE
Catedral de Santa Maria a Real de Almudena (Madrid)
Segunda-feira, 8 de junho de 2026
Agradeço a Sua Eminência, o Arcebispo de Madrid, pelas palavras que me dirigiu. Saúdo com afeto todos vós, irmãos e irmãs, que vos unis hoje, com alegria e fervor, à homenagem a Nossa Senhora da Almudena, Mãe e Protetora desta Arquidiocese, durante a qual colocarei aos seus pés a rosa de ouro, símbolo do amor filial do Papa à Virgem Maria.
São numerosas as gerações de madrilenos que, ao longo dos séculos, veneraram esta imagem de Santa Maria que leva o seu Filho divino nos braços e no-lo apresenta. Conta a tradição que, em tempos difíceis para a comunidade cristã, para proteger a imagem da Virgem, a esconderam num recanto da muralha da Cidadela, onde permaneceu oculta durante muito tempo, até que, após o milagroso desabamento de uma parte das muralhas, foi encontrada intacta.
Esta devoção mariana milenar, tão sentida por vós todos, é um sinal das raízes cristãs que vos caracterizam e vos dão vida, mas também da grande esperança que continua a animar-vos a seguir em frente. Foi graças a uma muralha derrubada que se concretizou o reencontro da Mãe com o seu povo. E isto é providencial, porque indica o caminho que Jesus, através da sua Santíssima Mãe, nos convida a percorrer. Num primeiro momento, uma muralha que cai provoca ruído, caos, desordem; mas também abre espaços, restaura possibilidades e impulsiona recomeços. Nas nossas sociedades atuais ainda continuam a existir muitas muralhas que não protegem, mas dividem, afastam e isolam. E, por vezes, ao pensar que derrubá-las implica ter de enfrentar aquilo de que não gostamos, preferimos o conforto de apenas as reforçar e, mais frequentemente, de as ignorar.
No entanto, Nossa Senhora da Almudena, com a sua presença e a segurança da sua proteção, diz-nos outra coisa: para construir algo novo, belo e duradouro, é preciso estar disposto a destruir os muros, porque, para retomar o caminho, são necessários espaços que nos permitam vislumbrar o horizonte.
Convencidos de que o Senhor caminha com o seu Povo santo, escuta os seus receios e acolhe com solicitude todos os seus esforços pelo bem, exorto-vos a não desfalecer no vosso testemunho: de fé, para contemplardes o desígnio de amor do Pai; de caridade, para vos unirdes como uma única família de irmãos e irmãs; e de esperança, para vos sustentardes na vossa ação no mundo. E que, com o exemplo e a intercessão de Santa Maria a Real da Almudena – a Virgem do Magnificat que continua a proclamar a grandeza do Senhor e a exultar em Deus, seu Salvador –, Ele guarde e fortaleça o vosso amor a Jesus e à Igreja, para que possais ser construtores de laços que restaurem a linguagem universal da comunhão, do amor fraterno e da concórdia.
Fazendo minhas algumas palavras do hino a ela dedicado, confio-vos ao poderoso auxílio do seu amor maternal:
Santa Maria da Almudena,
Virgem e Mãe do Redentor,
Rainha do Céu, Mãe de Amor,
sob o vosso manto, Virgem humilde,
buscam os vossos filhos proteção,
Mãe amorosa, Templo de Deus,
protegei-nos, Senhora, e ajudai-nos a ser
construtores de paz e reconciliação.
Ámen.
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