Caminhando
sábado, 10 de outubro de 2026
Saúde Mental, Ir. Smerilli: jovens e vítimas de crises humanitárias são prioridades pastorais
Daniele Piccini – Vatican News
Diante do problema das doenças mentais, a Igreja não pode se limitar a dar "respostas ocasionais ou reativas", mas desenvolver um "ministério estável, competente, compassivo e preventivo", que não cuide apenas da pessoa em sua totalidade, mas o faça com competência, utilizando "agentes pastorais preparados", "colaboração com profissionais de saúde", com "atenção à prevenção do suicídio" e apoio às famílias”. Eis o tema central da Mensagem, assinada pela Irmã Alessandra Smerilli (FMA), Prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental, que se celebra neste sábado, 10 de outubro.
Coração da missão da Igreja
Segundo a Mensagem, o Dicastério convida-nos a um "compromisso significativo" mediante o cuidado dos que sofrem de problemas de saúde mental e a colaboração com a Igreja e outras instituições "para definir políticas, serviços e resoluções". Seguindo a intenção de Oração de Leão XIV, para o mês de outubro, — divulgada pela Rede Mundial de Oração do Papa — o Pontífice referiu-se, de modo particular, à saúde mental. Com efeito, a Irmã Alessandra Smerilli ressalta que a preocupação com os que sofrem de problemas de saúde mental "não é uma questão marginal, mas parte integrante do coração da missão da Igreja".
Categorias de alto risco
A Mensagem da Irmã Alessandra Smerilli pelo Dia Mundial da Saúde Mental identifica duas situações particularmente vulneráveis para o surgimento de problemas de saúde mental. A primeira, - lê-se no texto, - diz respeito às pessoas que vivem crises humanitárias — guerras, migração forçada, instabilidade política, desastres ambientais e pobreza estrutural — que deixam traumas profundos em indivíduos e comunidades. Depois, há os jovens, cujo sofrimento pode decorrer de pressão social, incerteza económica e isolamento. Contextos muito diferentes compartilham o mesmo ambiente emocional, do qual emerge a fragilidade, caracterizada pela falta de "segurança, relacionamentos, significado e esperança".
Durante sua Visita apostólica à Espanha, na vigília de oração no Estádio Olímpico Lluís Companys, em Barcelona — citada na Mensagem —, o Papa Leão XIV dirigiu-se aos jovens, dizendo: “Precisamente as sociedades, que se consideram avançadas, representam uma ameaça à saúde mental, visto que, evidentemente, há algo profundamente errado com certa ideia de crescimento. Uma visão limitada de progresso tornou as pessoas alheias e até indiferentes, ao bem-estar mental dos outros”.
Desafio pastoral urgente
“As feridas interiores, emocionais e relacionais representam uma das dimensões mais profundas do sofrimento humano”, afirma em sua mensagem a Irmã Smerilli, a ponto de não poder mais ser consideradas um fenômeno ocasional ou periférico, que a Igreja possa ignorar: “Paróquias, escolas, comunidades religiosas e pequenas comunidades eclesiais são, quase sempre, lugares onde as pessoas trazem seus sofrimentos e buscam ouvidos atentos, acompanhamento e apoio em momentos de vulnerabilidade psicológica. Em consequência, em muitas Igrejas locais, a saúde mental está se tornando um dos desafios pastorais mais urgentes.” E a Mensagem conclui: “Este aspecto do bem-estar pessoal faz parte do desenvolvimento humano integral, que deve levar em conta não apenas as necessidades materiais, mas também as exigências da vida intelectual, moral, espiritual e religiosa”.
Leão XIV: o poder não pode ocupar o lugar do serviço
Thulio Fonseca - Vatican News
“Vocês são sementes de comunhão em terras marcadas pela violência.” Foi com essa imagem que o Papa Leão XIV encorajou, neste sábado, 10 de outubro, os membros do Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-Melquita de Antioquia, recebidos em audiência no Vaticano.
Ao recordar que foi em Antioquia que os seguidores de Jesus Cristo foram chamados pela primeira vez de “cristãos”, o Santo Padre destacou que a fé não pode permanecer apenas na mente, mas deve penetrar o coração e transformar-se em caridade concreta: partilhar o alimento com quem tem fome, oferecer educação e assistência à saúde, acompanhar os que sofrem e fazer da Igreja “um farol - a luz de Cristo - especialmente neste período tão conturbado”.
Próximo dos cristãos que sofrem
Logo no início do seu discurso, Leão XIV voltou o olhar, de modo particular, para as comunidades greco-melquitas presentes em regiões atingidas por conflitos:
“Em muitas das terras tradicionalmente ligadas à sua Igreja, os fiéis são afligidos pela guerra, pela instabilidade, pelo extremismo religioso e pelas dificuldades econômicas. Por meio de vocês, gostaria de dizer à sua amada Igreja: estou próximo de vocês. Toda a Igreja Católica está com vocês.”
O Pontífice recordou também as feridas que levam muitos cristãos a deixar sua terra em busca de trabalho, segurança e proteção diante dos perigos e, em alguns casos, da perseguição. Nesse contexto, ressaltou a vocação da Igreja Greco-Melquita de ser “testemunha de reconciliação e de paz em terras devastadas pelos conflitos” e “semente de comunhão” onde a violência deixou suas marcas.
Trabalhar e rezar pela unidade
Ao falar do próprio Sínodo como “guardião da comunhão”, o Papa insistiu na responsabilidade dos bispos de cultivar a colegialidade episcopal e de não permitir que interesses pessoais prevaleçam sobre o serviço à Igreja:
“Devemos estar sempre vigilantes para não cair na tentação de nos colocarmos acima dos outros, buscando o poder em vez do serviço, o lucro em vez da transparência e da honestidade, e o sucesso pessoal em vez do cuidado pastoral. O Espírito Santo nos impele a trabalhar e a rezar pela unidade que ajudará todos a reconhecer que Cristo está em nosso meio. Além disso, a expressão mais eloquente da nossa fé e a comunicação mais clara da Boa-Nova àqueles que não conhecem Cristo acontecem quando tomamos a nossa cruz e escolhemos manifestar o amor nos momentos em que sentimos medo, raiva ou sofrimento.”
Apoiar a presença cristã no Oriente Médio
Leão XIV destacou ainda o compromisso da Sé Apostólica com os cristãos da região. Graças à generosidade de muitos, explicou, estão sendo disponibilizadas bolsas de estudo para fiéis da Síria, do Líbano e do Iraque, com o objetivo de favorecer o acesso à educação católica e oferecer ajuda às novas gerações:
“Nosso objetivo é apoiar os jovens, para que as famílias cristãs tenham a ajuda necessária para permanecer no Oriente Médio e manter viva a presença cristã.”
Em um comunicado, o Dicastério para as Igrejas Orientais explicou que as bolsas fazem parte de “um projeto pastoral destinado a famílias cristãs particularmente necessitadas”. Por determinação do Pontífice, a iniciativa cobre “o custo anual das mensalidades escolares e universitárias” de crianças, adolescentes e jovens. Trata-se, segundo o Dicastério, de um “sinal de solicitude paterna” com o qual Leão XIV deseja manifestar sua proximidade e a de toda a Igreja Católica aos fiéis duramente provados pelos conflitos e pela instabilidade que há muito tempo atingem esses países.
Ao concluir, o Papa agradeceu aos bispos por seu serviço e assegurou sua proximidade espiritual. Confiando o Sínodo à intercessão da Theotokos, a Mãe de Deus, pediu que o Espírito Santo ilumine e guie as decisões dos bispos e invocou a bênção do Senhor sobre todos os fiéis da Igreja Melquita.
Encontro sobre Amoris laetitia debate por que muitos jovens não querem se casar
Por Victoria Cardiel
9 de out de 2026 às 14:50
No encontro internacional sobre a família, que se realiza até 14 de outubro no Vaticano, a portas fechadas e com a participação dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo e convidados do papa, participantes buscam responder à questão: por que diminui o número de jovens que se casam na Igreja e como é que a sociedade atual compreende a relação entre sexualidade, procriação e o vínculo sacramental do matrimônio.
O presidente da Conferência Episcopal Australiana, bispo Timothy Costelloe, disse ontem (8), na sessão da tarde, que em seu país, e provavelmente em muitos outros, “o conceito de uma ligação necessária entre atividade sexual e procriação, assim como a importância dessa ligação no casamento cristão, não é mais amplamente compreendido ou aceito”.
Para ilustrar essa realidade, ele citou o depoimento de um diretor de Educação Religiosa na Austrália Ocidental, um pai casado, que disse que muitos jovens “herdaram pressupostos culturais sobre sexualidade que diferem substancialmente dos da Igreja”.
Para Costelloe, essa situação destaca “a tensão entre a visão da Igreja e algumas correntes dominantes da sociedade contemporânea (...) que muitas vezes apresentam uma visão das relações humanas que privilegia a realização pessoal, a autonomia e a felicidade imediata em detrimento da permanência, do sacrifício e da aliança”.
Falhas morais dos líderes eclesiásticos
Muitos jovens também enfrentam experiências dolorosas, “como a ruptura conjugal em suas próprias famílias, violência doméstica, desigualdades entre mulheres e homens e as falhas morais de líderes religiosos, cuja credibilidade e testemunho foram comprometidos”.
“Estamos competindo com muitas outras propostas sobre o significado do casamento”, disse ele.
Apesar dessas dificuldades, o bispo disse que muitos jovens continuam buscando relacionamentos que façam aflorar o "melhor neles", que sejam "duradouros" e que lhes proporcionem uma base sólida sobre a qual construir um futuro significativo.
Ele defendeu a necessidade de apoiar essas aspirações e acompanhar jovens no processo de construção de relacionamentos estáveis.
Costelloe disse que o elevado número de casamentos que "terminam em divórcio" faz com que muitos jovens duvidem que "um compromisso para a vida toda seja possível ou mesmo desejável".
O bispo destacou o valor do testemunho que as "famílias estáveis" podem oferecer.
O desafio de compreender a rejeição do casamento entre os jovens
No encontro, o cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, alertou para o declínio do número de casamentos em todo o mundo, tanto no âmbito civil quanto no religioso. “Vamos tentar interpretar esse fenômeno, levando em consideração se as suas causas são as mesmas em todos os lugares”, disse ele a sobre o encontro, que ocorre para marcar o décimo aniversário da exortação apostólica Amoris laetitia, publicada pelo papa Francisco depois de dois sínodos marcados por intensos debates sobre a pastoral familiar.
O prefeito disse que os padres não são os únicos preocupados com os jovens que não querem se casar. Muitos pais cristãos também estão preocupados porque seus filhos "sofrem de solidão, hesitam em assumir um compromisso duradouro ou rejeitam categoricamente o caminho que eles próprios trilharam com alegria".
Entre os fatores que ajudam a explicar essa tendência, ele citou o elevado número de divórcios, a diversidade de arranjos de coabitação e a influência das tendências culturais predominantes.
Nesse sentido, o prefeito disse: “Num nível mais profundo, poderíamos nos perguntar se talvez Deus tenha parado de falar ao coração dos jovens e de despertar neles o desejo de se casar”.
Assim, ele disse que, nesses dias de encontro, participantes tentarão identificar sinais de esperança e refletir sobre espaços, iniciativas, pessoas e eventos que podem abrir novos caminhos rumo ao casamento.
“Também refletiremos sobre até que ponto nossas comunidades estão atentas ao testemunho daqueles que, apesar de tudo, escolhem o matrimônio – seja numa fase inicial da vida ou mais tarde – e como a experiência deles pode nos ajudar a compreender e apresentar a vocação ao matrimônio de modo mais eficaz”, disse o prefeito.
O que os jovens procuram quando falam de amor?
O bispo-auxiliar de Mumbai, Índia, Stephen Eustace Victor Fernandes, disse que o principal desafio para a Igreja não é tanto perguntar por que jovens não aceitam o casamento, mas sim entender o que eles buscam quando falam “de amor, liberdade, dignidade e futuro”.
Fernandes disse que os jovens vivem relacionamentos num contexto cultural muito diferente das gerações anteriores, onde “a cultura da imediatidade e da escolha contínua pode influenciar sua experiência de intimidade, enquanto o casamento exige paciência, presença, perdão e perseverança”.
Ele disse também que muitos jovens têm dificuldade em imaginar uma vida pessoal, relacional e familiar estável devido ao contexto de "insegurança econômica" decorrente de dificuldades no emprego, custos de moradia, migração ou instabilidade social.
Segundo ele, para muitos, adiar o casamento não é simplesmente uma rejeição ao casamento em si, mas pode refletir "uma crise de confiança na possibilidade de construir uma vida estável e duradoura com outra pessoa".
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Santa Sé: ódio on-line e intolerância religiosa, formas de racismo contra a unidade
Vatican News
A dignidade comum a todo ser humano, "concedida por Deus" e "fundamental para a construção de uma verdadeira comunidade internacional", é hoje ameaçada por formas de discriminação que se espalham por esferas cada vez mais amplas, desde o ambiente on-line até os espaços religiosos, passando pela indiferença para com migrantes e refugiados. O observador permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, dom Christophe Zakhia El-Kassis, alertou contra "ideologias materialistas e nacionalistas", que ameaçam a unidade da família humana, em sua declaração na Terceira Comissão da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Proferida na quinta-feira, 8 de outubro, a mensagem referia-se ao item 68 da agenda: "Eliminação do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e de outras formas de intolerância".
Proteger a igualdade
Reiterando o ensinamento da Igreja de que a dignidade de todo ser humano é igual e inviolável, o arcebispo condenou o racismo, a discriminação, a xenofobia e todas as outras formas de intolerância que são uma afronta à "unidade da família humana". Esse conceito foi reiterado pelo Papa Leão XIV durante sua recente viagem apostólica à França, quando, em Metz, ele exortou a proteger a igualdade "sem distinção de raça, cor, classe ou profissão".
Rejeitar ideologias racistas
"Uma Comunidade internacional autêntica não pode, de fato, mostrar-se complacente com 'ideologias materialistas e nacionalistas' que prejudicam a harmonia da família humana", reiterou El-Kassis. De fato, o mal do racismo persiste em várias formas, "apesar do aparente progresso", e continua a se manifestar com base na "convicção errônea de que uma pessoa, reduzida a uma mera característica, seja superior a outra". A seguir, o representante vaticano se concentrou em algumas áreas em que as práticas discriminatórias persistem: em particular, migrantes, refugiados e requerentes de asilo continuam sendo vítimas. Em vez de encontrarem segurança e uma vida melhor, como enfatizou o Papa durante a última Missa Jubilar dedicada a eles, muitas vezes se deparam com "a frieza da indiferença ou o estigma da discriminação".
Ódio on-line e religioso
Dos migrantes aos ambientes digitais, onde novas formas de exclusão e preconceito estão surgindo, amplificando o ódio e a polarização. "Na era digital", observou El-Kassis, "a justiça social exige que os dados e a tecnologia sejam usados para promover a dignidade da pessoa e o bem comum". Por fim, o prelado destacou a intolerância religiosa: "Quer ela se manifeste na forma de antissemitismo, cristianofobia, islamofobia ou outras formas de hostilidade baseadas em preconceito antirreligioso", disse ele, deve ser "firmemente rejeitada". Ele concluiu suas observações com a esperança de intensificar os esforços "para cultivar e promover o respeito pela dignidade inalienável de cada pessoa humana e para fomentar uma cultura de encontro e abertura ao outro, no respeito recíproco".
Representante da Santa Sé fala na ONU sobre desenvolvimento, pobreza e mulheres
8 de out de 2026 às 09:41
O arcebispo Christophe-Zakhia El-Kassis, núncio apostólico da Santa Sé na Organização das Nações Unidas (ONU), defendeu a “verdadeira igualdade” para as mulheres e que os avanços econômicos e tecnológicos globais priorizem a pessoa humana e o bem comum, em discurso proferido na sessão da última terça-feira (6) da 81ª Assembleia Geral.
El-Kassis, nomeado pelo papa Leão XIV para o cargo em julho, discursou na terceira comissão da ONU, de questões sociais, humanitárias e culturais, e na segunda comissão, para questões econômicas e financeiras.
Baseando-se na declaração do papa Leão XIV de que “o desenvolvimento é verdadeiramente humano quando coloca as pessoas no centro, em vez da acumulação de riquezas”, El-Kassis disse que a erradicação da pobreza deve vir acompanhada do desenvolvimento de um sistema que não trate os pobres “meramente como receptores passivos de assistência”.
“Eles devem ser participantes ativos e protagonistas nas medidas e programas concebidos para ajudá-los em suas próprias vidas”, disse ele. “Para alcançar os objetivos de erradicação da pobreza, pleno emprego e trabalho decente, e integração social, conforme estabelecido em Copenhague e reafirmado em Doha, será necessária cooperação contínua, criatividade e um compromisso renovado com uma visão política, econômica, ética e espiritual para o desenvolvimento social baseado na dignidade humana”. Copenhague, na Dinamarca, em 1995, e Doha, no Qatar, em 2025, sediaram as duas reuniões da Cúpula para o Desenvolvimento Social da ONU.
Em outra sessão sobre desenvolvimento sustentável e mudanças econômicas globais, El-Kassis defendeu que a economia mundial adote uma “arquitetura financeira internacional mais justa e inclusiva”.
“As circunstâncias do nascimento de uma pessoa não devem determinar o respeito pela sua dignidade inerente, dada por Deus, nem as oportunidades a que um indivíduo pode ter acesso”, disse. “Do mesmo modo, as circunstâncias econômicas de um país não devem limitar a sua capacidade de participar de modo significativo nas decisões que moldam o seu desenvolvimento”.
El-Kassis citou a encíclica Magnifica humanitas de Leão XIV ao falar sobre as mulheres e disse que “a igualdade para as mulheres não pode ser alcançada enquanto a violência contra as mulheres permanecer generalizada”. O representante da Santa Sé na ONU também condenou o tráfico de pessoas e disse que outros avanços tecnológicos e médicos possibilitaram modos de exploração, inclusive a barriga de aluguel.
A Santa Sé reafirmou sua oposição à barriga de aluguel, que trata a gestação como "um serviço negociável" que viola a dignidade tanto da criança como da mãe.
Papa nomeia freira que falou de ordenação de mulheres presidente das Obras Missionárias
Por Victoria Cardiel
8 de out de 2026 às 13:31
O papa Leão XIV nomeou a freira Mary Teresa Barron secretária-adjunta do Dicastério para a Evangelização, na Seção para a Primeira Evangelização e as Novas Igrejas Particulares, confiando-lhe também o cargo de presidente das Pontifícias Obras Missionárias.
Segundo comunicado divulgado hoje (8) pela Sala de Imprensa da Santa Sé, a freira irlandesa assumirá suas novas responsabilidades em 4 de janeiro do ano que vem.
A freira Barron, superiora-geral das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos, assume uma das posições mais importantes na esfera missionária da Igreja. Como presidente das Pontifícias Obras Missionárias, ela será responsável por coordenar e promover a cooperação missionária entre as Igrejas locais em várias partes do mundo, especialmente em territórios onde a Igreja continua crescendo e enfrenta maiores desafios pastorais.
Em 2024, numa conferência de imprensa depois dos debates da assembleia do Sínodo da Sinodalidade, a freira Barron, então presidente da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), organização que representa cerca de 600 mil religiosas em 80 países, abordou a questão das mulheres que vivem “um chamado ao sacerdócio”.
Naquela ocasião, a freira disse que, embora haja uma tendência para enquadrar o debate sobre as diaconisas a partir da perspectiva de "as mulheres podem ou não ser ordenadas na Igreja hoje em dia?", ela acredita que a questão também deve ser formulada sob outra perspectiva.
“Acho que temos que analisar a questão de uma perspectiva muito espiritual. O Espírito está chamando as mulheres? Porque algumas mulheres sentem um chamado para o sacerdócio ou o diaconato”, disse ela em 7 de outubro de 2024.
A freira Barron disse também que, “mesmo que neste momento não estejamos considerando um ministério ordenado” para mulheres, é necessário manter o diálogo aberto sobre esse assunto.
Ela defendeu a manutenção da reflexão aberta dentro da Igreja: "Esses apelos ainda existem? Podemos continuar a discussão? Acho que é isso que devemos nos perguntar neste momento: se podemos continuar dialogando sobre essa questão”.
Para Barron, a questão deve ser analisada não só sob as perspectivas teológicas ou canônicas atuais, mas também sob a perspectiva das necessidades evangelizadoras da Igreja. “Acho que temos que olhar além do que podemos ou não fazer de um ponto de vista puramente teológico ou canônico, mas em termos do espírito que nos chama ao ministério hoje e em termos das… necessidades da missão hoje”, disse.
A ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, tentou entrar em contato com a freira Barron para esclarecer sua posição, mas até o momento não recebeu resposta.
Missionária na África
Nascida em Donegal, Irlanda, em 7 de novembro de 1968, ela tem uma sólida formação acadêmica em administração pública e desenvolvimento internacional. É mestre em Administração de Saúde Pública pelo Instituto de Administração Pública de Dublin e mestre em Desenvolvimento Internacional pelo Instituto Kimmage, também em Dublin.
Desde 2018, ela é superiora-geral das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Apóstolos, congregação dedicada à evangelização e ao serviço missionário, especialmente em vários países africanos.
Sua carreira tem também responsabilidades significativas em organizações internacionais ligadas à vida consagrada e à missão. Entre 2022 e 2025, foi presidente do Serviço de Documentação e Estudo sobre a Missão Global (SEDOS), organização dedicada ao estudo e à reflexão sobre a missão evangelizadora da Igreja. Do mesmo modo, entre 2023 e 2025, presidiu a UISG, organização que reúne superioras de congregações religiosas femininas de todo o mundo.
Crescente presença de mulheres em cargos governamentais na Santa Sé
A freira irlandesa tornou-se uma das mulheres mais importantes da Cúria Romana e a primeira a chefiar as Pontifícias Obras Missionárias, que atuam em cerca de 120 países. Essa decisão faz parte de uma série de nomeações feitas por Leão XIV que consolidaram a tendência de inclusão de mulheres em posições de liderança na Santa Sé.
A primeira grande nomeação de uma mulher pelo papa ocorreu em 22 de maio do ano passado, quando ele nomeou a freira Tiziana Merletti secretária do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. A presença de mulheres em posições de liderança continuou a crescer em 1º de abril de 2026, quando Paola Fanelli foi nomeada Diretora de Recursos Humanos da Santa Sé. Outra nomeação significativa ocorreu em 2 de junho de 2026, quando Leão XIV nomeou María Montserrat Alvarado, atualmente presidente e diretora de Operações (COO) da EWTN News, prefeita do Dicastério para a Comunicação. A jornalista e acadêmica mexicano-americana se tornará, em 1º de novembro, a primeira leiga latino-americana a chefiar o órgão responsável pela coordenação do sistema de comunicação da Santa Sé, inclusive o Vatican News, a Rádio Vaticano, o jornal L'Osservatore Romano e as plataformas digitais da Santa Sé.
Em 30 de junho, o papa nomeou a freira salesiana italiana Alessandra Smerilli, de 51 anos, prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. A freira Smerilli, professora de Economia Política, era secretária da agência desde 2021 e, na época, foi a primeira mulher a alcançar um cargo tão elevado na hierarquia da Santa Sé.
Na última segunda-feira (5), o papa Leão XIV recebeu representantes de leigos e da associação Donne in Vaticano (Mulheres no Vaticano) em audiência no Vaticano, dizendo que “a presença das mulheres constitui uma riqueza que deve ser cada vez mais reconhecida e valorizada”. Ele disse também que as mulheres trazem para as instituições “uma sensibilidade particular para com as pessoas e as relações”.