Caminhando
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Portugal: “Certamente vai haver uma visita do Papa Leão XIV”
Rui Saraiva – Portugal
No passado dia 21 de abril assinalou-se o primeiro aniversário do falecimento do Papa Francisco. É uma data que convoca a refletir sobre o seu imenso legado humano e espiritual.
A Renascença e a Agência Ecclesia, entrevistaram Maria Amélia Paiva, embaixadora de Portugal junto da Santa Sé. Publicamos aqui parte desta entrevista conduzida pelos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia.
Um ano após a partida de Francisco, que marca principal considera que este Papa deixou na ação do Vaticano e na forma como a Igreja se relaciona com o mundo?
O Papa Francisco deixou-nos, faz agora um ano, a 21 de abril, as marcas são grandes. O legado do Papa Francisco é um legado muito importante, é um legado de um pontificado que foi muito marcante. Muitos consideram tratar-se de um pontificado de uma revolução gentil ou suave. Mas desde uma igreja de maior simplicidade ou uma igreja de saída, como também muitas vezes se descreve, há já aí uma grande diferença, e por exemplo, e logo no início do seu papado, quando optou por viver na Domus Santa Marta, contribuiu talvez dessa forma para humanizar a figura papal, tornando-a mais próxima e acessível. E por outro lado, logo também nesse mesmo sinal, nas suas primeiras intervenções e nas intervenções que marcaram todo o pontificado, há um sinal de grande proximidade com as periferias geográficas e sobretudo com os pobres, com os migrantes, com os refugiados.
Mas o Papa Francisco deixa um legado muito vasto de reforma, por exemplo, da cúria, uma reforma estrutural de transparência, uma nova constituição apostólica que permite, por exemplo, que mulheres assumam e tenham assumido pela primeira vez cargos de liderança no Vaticano. Implementou mudanças estruturais para uma maior transparência financeira, controlos rigorosos contra a corrupção, enfim, uma reforma também aí estrutural e muito relevante. Mas há mais do que isso, há um combate claro à impunidade, adotou a política da tolerância zero em relação aos casos de abuso sexual, que é uma política muito relevante, apesar de muitas acusações de alguns que acham que devia ter feito ainda mais. Certamente fez um caminho muito importante ao sinalizar isto.
Mas há uma outra área, se posso ainda continuar, de muita relevância, que é a da ecologia integral, nomeadamente com as mensagens muito fortes sobre o cuidado a ter com a casa comum como pilar central, criticando de forma muito clara e muito taxativa a destruição da natureza e o sistema económico excludente, e por isso tantas vezes foi chamado do Papa Verde. A ‘Laudato Si’, a encíclica que celebrou em 2025 os seus dez anos, cristaliza esta forma de olhar para a criação e para o cuidado da casa comum, é talvez um dos textos mais relevantes do pontificado do Papa.
Mas o acolhimento e a misericórdia, o diálogo inter-religioso e a geopolítica da paz. A paz foi uma constante nos apelos do Papa Francisco, e eu lembro de facto um livro que saiu no final de 22, início de 2023, quando o Papa escreveu e foi reunido um conjunto de apelos que ele fez para pôr termo à guerra na Ucrânia. Mas o diálogo com as outras religiões. É todo um conjunto de linhas de atuação que mostram de facto um pontificado muito, muito relevante e por isso é tão importante falar dele e tão importante esta vossa iniciativa de recordar o legado do Papa Francisco.
O Papa Francisco, como já referiu, fez vários apelos à paz, aliás falou por diversas vezes da Terceira Guerra Mundial aos pedaços. Por que motivo os apelos que ele fez pareceram tantas vezes incomodar certos centros de poder económico e político? Ainda hoje, com o seu sucessor, por exemplo, está a acontecer o mesmo.
Pois o significado e a importância dessas mensagens são fundamentais e os apelos, infelizmente, nem sempre parecem ser ouvidos, mas no fundo acabam por ser ouvidos e espero que façam o seu caminho e que possamos, de facto, encontrar aqui soluções através do diálogo, através da diplomacia e através da capacidade de nos reconciliarmos uns com os outros. E este diálogo é muito importante, nomeadamente porque quer o Papa Francisco, quer, como disse, o Papa Leão XIV, tem marcado muito também as suas intervenções pela reconciliação e pelo diálogo com os outros. E os outros são todos os outros.
Quando o Papa Francisco usou, muitas vezes, durante a JMJ23 em Lisboa, a expressão todos, todos, todos, ele está mesmo a falar de todos; das outras religiões, dos outros credos religiosos, de todos os outros que muitas vezes não estão na mesa das conversas sobre os temas mais relevantes e, por isso, é importante falar com todos e os todos não são apenas aqueles que têm o poder político, são também todos os outros que podem ter um papel nesta aproximação, neste diálogo, nesta reconciliação que é tão importante fazermos e, sobretudo, optarmos sempre e sempre pela via da diplomacia e não pela via das armas.
A senhora embaixadora falou da JMJ em Lisboa, em 2023, juntamente com as passagens por Fátima, são seguramente marcas que Portugal deixou no pontificado de Francisco. Pergunto também se no contacto com a diplomacia do Vaticano, esses momentos, que foram importantes para nós, também moldam a visão que se tem, em Roma, sobre Portugal e sobre a Igreja por cá?
Isso certamente, dos contactos que tive aqui, não querendo cometer nenhuma inconfidência, porque não o posso e não o devo fazer, claramente a JMJ tem um marco muito importante neste revigorar do relacionamento entre Portugal e a Igreja Portuguesa e a Santa Sé, entre Portugal, a Igreja Portuguesa e a Santa Sé.
Claramente é um marco muito importante. A JMJ foi um grande sucesso, foi um grande sucesso de uma colaboração muito vasta, de muitos que contribuíram para isso e de uma relação muito próxima que houve entre a Igreja Portuguesa e o Vaticano, que permitiu de facto o sucesso e a vários títulos já me foi referido exatamente esse marco tão importante no relacionamento recente, mais recente, entre Portugal e a Santa Sé.
O mundo não parou e a Igreja também não. Desde a eleição do seu sucessor, o Leão XIV, tem encontrado desafios globais, já teve oportunidade de estar com ele e de o ouvir. Que marca própria já se nota na ação do Papa norte-americano?
Acho que a marca está a ser construída, como é natural e como é normal. O Papa tem menos de um ano de pontificado, mas eu acho que há dois ou três temas que são muito recorrentes e de alguma forma são de continuidade entre o Papa Francisco e o Papa Leão XIV.
Antes de mais, eu diria a defesa da paz e da mensagem do Evangelho nesse sentido. E este papel que a Igreja Católica deve ter de continuar a ser uma voz profética de paz e não um agente de poder político. E por isso eu acho que o Papa Leão XIV, de alguma forma, é eleito num contexto que se pode dizer, simplificando certamente, de continuidade e de aprofundamento daquilo que vinham a ser as linhas de força dos pontificados anteriores e sobretudo do pontificado do Papa Francisco.
E claramente o conclave ao escolher o cardeal Robert Prevost, claramente continua nesta linha de um deslocamento do centro de gravidade do catolicismo para o sul global, onde o número de fiéis aumenta, onde há uma expressão cada vez maior também desta atenção às periferias.
A ligação de Portugal à Santa Sé é histórica. Em relação ao Papa Leão XIV, o Estado português já formulou um convite oficial para que visite o nosso país. Nas conversas que tem mantido com o Santo Padre ou com a Secretaria do Estado, essa possibilidade já foi de alguma forma abordada?
É evidente que vários já fomos os interlocutores desse convite, mas também a complexidade da agenda papal não nos permitiu ainda obter uma resposta taxativa à aceitação desse convite. Mas vamos ter de aguardar e vamos ter de esperar mais um pouco.
Mas o Papa já disse que gostava de vir a Portugal, não é?
Sim, o gostar de vir é claríssimo, é claríssimo. Ele é também um Papa muito mariano, como foi o Papa Francisco. Agora, o poder dizê-lo de uma forma já muito conclusiva que irá no ano Y, no mês Y ou Z, isso ainda não temos essa resposta, mas acho que temos que também dosar de alguma calma e de alguma paciência, porque certamente vai haver uma visita do Papa Leão, temos é que aguardar pelo calendário.
Maria Amélia Paiva é embaixadora de Portugal junto da Santa Sé.
Laudetur Iesus Christus
Audiência Geral 29 de abril de 2026 - Papa Leão XIV
LEÃO XIV
AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 29 de abril de 2026
Catequese. Viagem apostólica de sua santidade Leão XIV à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial
Prezados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Hoje desejo falar sobre a Viagem apostólica que realizei de 13 a 23 de abril, visitando quatro países africanos: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Desde o início do meu pontificado pensei numa viagem à África. Dou graças ao Senhor por me ter concedido realizá-la, como Pastor, para encontrar e encorajar o povo de Deus; e também por a ter vivido como mensagem de paz num momento histórico, marcado por guerras e por graves e frequentes violações do direito internacional. E expresso o meu mais sentido “obrigado” aos Bispos e às Autoridades civis que me receberam e a todos aqueles que colaboraram para a organização.
A Providência quis que a primeira etapa fosse precisamente o país onde se encontram os lugares de Santo Agostinho, ou seja, a Argélia. Assim, vi-me, por um lado, a recomeçar pelas raízes da minha identidade espiritual e, por outro, a atravessar e a consolidar pontes muito importantes para o mundo e a Igreja de hoje: a ponte com a época extremamente fecunda dos Padres da Igreja; a ponte com o mundo islâmico; a ponte com o continente africano.
Na Argélia, recebi uma hospitalidade não só respeitosa, mas cordial, e pudemos constatar de perto e mostrar ao mundo que é possível viver juntos como irmãos e irmãs, até de diferentes religiões, quando nos reconhecemos filhos do mesmo Pai misericordioso. Além disso, foi uma ocasião propícia para nos colocarmos na escola de Santo Agostinho: com a sua experiência de vida, os seus escritos e a sua espiritualidade, ele é mestre na busca de Deus e da verdade. Um testemunho hoje mais importante do que nunca para os cristãos e para todas as pessoas.
Nos outros três países que visitei, a população é na sua grande maioria cristã, e por isso mergulhei num clima de festa da fé e de hospitalidade calorosa, favorecido também pelos traços típicos do povo africano. Também eu, como os meus predecessores, experimentei um pouco do que acontecia a Jesus com as multidões da Galileia: Ele via-as sedentas e famintas de justiça, anunciando-lhes: “Bem-aventurados os pobres, bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os pacificadores...” e, reconhecendo a sua fé, dizia: “Vós sois o sal da terra e a luz do mundo” (cf. Mt 5, 1-16).
A visita aos Camarões permitiu-me revigorar o apelo ao compromisso conjunto pela reconciliação e a paz, porque também aquele país, infelizmente, está marcado por tensões e violências. Estou feliz por ter visitado Bamenda, na região anglófona, onde incentivei a trabalhar juntos pela paz. Os Camarões são chamados “África em miniatura”, em referência à variedade e à riqueza da sua natureza e dos seus recursos, mas podemos entender esta expressão também no sentido de que as grandes necessidades de todo o continente se encontram nos Camarões: a necessidade de uma distribuição equitativa das riquezas; de dar espaço aos jovens, superando a corrupção endémica; de promover o desenvolvimento integral e sustentável, opondo às várias formas de neocolonialismo uma cooperação internacional clarividente. Agradeço à Igreja nos Camarões e a todo o povo camaronês, que me recebeu com tanto amor, e rezo a fim de que o espírito de unidade que se manifestou durante a minha visita se mantenha vivo e guie as escolhas e as ações futuras.
A terceira etapa da Viagem foi Angola, grande país a sul do equador, de tradição cristã plurissecular, ligada à colonização portuguesa. Assim como muitos países africanos, após ter alcançado a independência, Angola atravessou um período convulso, que no seu caso foi ensanguentado por uma longa guerra interna. No cadinho desta história, Deus guiou e purificou a Igreja, convertendo-a cada vez mais ao serviço do Evangelho, da promoção humana, da reconciliação e da paz. Igreja livre para um povo livre! No Santuário mariano de Mamã Muxima – que significa “Mãe do coração” – senti pulsar o coração do povo angolano. E nos vários encontros vi com alegria tantas religiosas e religiosos de todas as idades, profecia do Reino dos céus no meio do seu povo; vi catequistas que se dedicam inteiramente ao bem das comunidades; vi rostos de idosos esculpidos por fadigas e sofrimentos, mas transparentes à alegria do Evangelho; vi mulheres e homens que dançavam ao ritmo de cânticos de louvor ao Senhor ressuscitado, fundamento de uma esperança que resiste às desilusões causadas pelas ideologias e pelas promessas vãs dos poderosos.
Esta esperança exige um compromisso concreto, e a Igreja tem a responsabilidade, com o testemunho e o anúncio intrépido da Palavra de Deus, de reconhecer os direitos de todos e de promover o seu respeito efetivo. Com as Autoridades civis angolanas, mas também com aquelas dos outros países, pude assegurar a vontade da Igreja católica de continuar a dar esta contribuição, em particular nos campos da saúde e da educação.
O último país que visitei foi a Guiné Equatorial, 170 anos depois da primeira evangelização. Com a sabedoria da tradição e a luz de Cristo, o povo guineense atravessou as vicissitudes da sua história e, nos últimos dias, na presença do Papa, renovou com grande entusiasmo a sua vontade de caminhar unido rumo a um futuro de esperança.
Não posso esquecer o que ocorreu na prisão de Bata, na Guiné Equatorial: os presos entoaram a plenos pulmões um cântico de ação de graças a Deus e ao Papa, pedindo para rezar “pelos seus pecados e a sua liberdade”. Nunca tinha visto nada de semelhante! E depois recitaram comigo o “Pai-Nosso” debaixo de uma chuva torrencial. Um sinal genuíno do Reino de Deus! E ainda debaixo da chuva teve início o grande encontro com a juventude, no estádio de Bata. Uma festa de júbilo cristão, com testemunhos comoventes de jovens que encontraram no Evangelho a vereda para um crescimento livre e responsável. Esta festa culminou na celebração eucarística do dia seguinte, que coroou dignamente a visita à Guiné Equatorial e também toda a Viagem apostólica.
Caros irmãos e irmãs, para as populações africanas, a visita do Papa é ocasião para fazer ouvir a sua voz, para manifestar a alegria de ser povo de Deus e a esperança num porvir melhor, de dignidade para cada um e para todos. Estou feliz por lhes ter proporcionado esta possibilidade e, ao mesmo tempo, dou graças ao Senhor pelo que eles me ofereceram, uma riqueza inestimável para o meu coração e o meu ministério.
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Saudações:
Uma cordial saudação a todos os peregrinos de língua portuguesa, de modo especial ao grupo do Colégio Laura Vicuña, de Lisboa, e às jovens da Orquestra Chiquinha Gonzaga, do Rio de Janeiro! Na África, encontrei comunidades eclesiais que, cada uma do seu modo, dão testemunho de uma fé viva. Peçamos ao Senhor que reavive a nossa fé onde! Deus vos abençoe!
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Resumo da catequese do Santo Padre:
Na catequese de hoje recordamos a recente Viagem Apostólica a quatro países da África. Quis a Divina Providência que o primeiro país fosse a Argélia, que abriga lugares importantes na vida de Santo Agostinho e onde é possível a convivência fraterna entre diferentes religiões. Nos Camarões foi reforçado o apelo à reconciliação e à paz, especialmente durante a visita à cidade de Bamenda. O terceiro país foi Angola, onde se encontra uma Igreja viva, que anuncia corajosamente o Evangelho: no Santuário de Mamã Muxima, que significa Mãe do Coração, sente-se o pulsar do coração angolano. Por fim, na Guiné Equatorial, foi marcante a visita aos detidos na prisão de Bata, seguida pelo encontro com os jovens, no estádio, ambos sob intensa chuva, o que não diminuiu em nada o fervor dos participantes. Agradeçamos ao Senhor este grande dom.
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terça-feira, 28 de abril de 2026
Hoje é dia de são Pedro Chanel, mártir e padroeiro da Oceania.
São Pedro ChanelPor Redação central
28 de abr de 2026 às 00:30
A Igreja celebra hoje (28), o padre são Pedro Chanel, primeiro mártir e padroeiro da Oceania, onde conseguiu a conversão de muitos nativos.
Pierre-Louis-Marie Chanel nasceu na França em 1803 em uma família de camponeses. Recebeu as ordens sacerdotais aos 24 anos e foi enviado para a paróquia de Crozet, que estava em declínio, mas que com a sua chegada começou a renascer.
Em 1831 ingressou na Sociedade de Maria (Maristas) formada pelo padre Jean Claude Colin na França e que recebeu a aprovação final do papa Gregório XVI em 1836. O papa pediu à nova congregação que enviasse missionários à Polinésia.
Na ilha de Futuna, na Oceania, são Pedro Chanel encontrou um território dividido entre duas tribos. O canibalismo havia sido proibido havia pouco tempo
Apesar das dificuldades, são Pedro Chanel conseguiu converter muitos, aprendendo a língua, ensinando e cuidando dos doentes.
Aos poucos, porém, a intranquilidade de Niuliki, o rei de Alo e principal reino da ilha de Futuna, cresceu, pois ele achava que o cristianismo tiraria suas prerrogativas como líder religioso e rei.
Depois que Meitala, filho do rei de Alo, foi batizado, Niuliki enviou seu genro Musumusu para resolver o problema conforme necessário.
Musumusu enfrentou primeiro seu cunhado Meitala, mas ficou ferido e foi até a residência de são Pedro Chanel fingindo que precisava de atendimento médico
Enquanto era atendido, partidários de Musumusu saquearam a casa do santo e o genro do rei rompeu a cabeça de são Pedro Chanel com um machado matando-o em 28 de abril de 1841.
Depois de uma longa viagem, os restos mortais do mártir chegaram a Lyon, França, no dia 1º de junho de 1850, na sede da Casa Mãe dos Maristas.
São Pedro Chanel foi declarado mártir e beato em 17 de novembro de 1889, e canonizado em 12 de junho de 1954 por Pio XII.