Caminhando
terça-feira, 14 de abril de 2026
Papa visita as ruínas de Hipona
Por Marco Mancini
14 de abr de 2026 às 08:46
O papa Leão XIV visitou hoje (14), em seu segundo dia na Argélia, o sítio arqueológico de Hipona, onde santo Agostinho foi bispo.
Apesar do vento e da chuva torrencial, o papa percorreu as escavações e, chegando ao fim do caminho, depositou uma coroa de flores, enquanto o coro do Instituto de Música de Annaba cantava hinos — em latim, berbere e árabe — baseados em textos de santo Agostinho dedicados à paz e à fraternidade. Ao fim da apresentação musical, Leão XIV dedicou um momento à oração silenciosa antes de deixar o sítio arqueológico.
As ruínas romanas de Hipona, na atual Annaba, têm um fórum pavimentado rodeado por pórticos com colunas. O teatro, o mercado, as termas, as cisternas e os mosaicos figurativos continuam visíveis até hoje. Existem também estruturas da era cristã, como a basílica de Paz, onde santo Agostinho exerceu seu ministério episcopal, e o batistério adjacente.
Papa na Grande Mesquita de Argel: podemos aprender a nos respeitar mutuamente
Andressa Collet – Vatican News
No primeiro compromisso da tarde desta segunda-feira (13/04) na capital da Argélia, neste início de viagem apostólica na África, o Papa Leão XIV, após tirar os sapatos, visitou a Grande Mesquita de Argel, a terceira maior do mundo depois da de Meca e de Medina na Arábia Saudita, mas a maior do continente africano. O Pontífice foi acolhido pelo reitor, Mohamed Mamoun Al Qasimi, com quem teve um encontro privado. Estavam presentes também os cardeais George Jacob Koovakak, prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, e Jean Paulo Vesco, arcebispo local.
Leão XIV permanece por pouco tempo na mesquita de recente inauguração, em 2024, mas o suficiente para fazer uma reflexão silenciosa. O espaço acomoda 120 mil fiéis - que podem frequentar o complexo durante as 24h do dia -, pouso de helicóptero e o mais alto minarete do mundo, de 267 metros. Os diversos edifícios que compõem o complexo abrigam múltiplas atividades, além das puramente religiosas, entre as quais, uma biblioteca com 1 milhão de livros, jardins e terraços panorâmicos, um centro de pesquisa, escritórios, museus, restaurantes e estacionamentos.
O diálogo com o reitor
O momento de diálogo com o reitor foi marcado pela gratidão de estar em um “lugar que representa o espaço que pertence a Deus”, no âmbito de uma viagem à Argélia, “terra também do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que quis ensinar tanto ao mundo, sobretudo com a busca da verdade, a busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz”. E o Pontífice continuou: “buscar a Deus é também reconhecer a imagem de Deus em cada criatura, filho de Deus, em cada homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus”. Por isso, é importante “aprender a viver juntos com respeito pela dignidade de cada pessoa humana”.
A importância da “busca pela verdade”
O Papa também elogiou o fato de ter sido criado um centro de estudos dentro da mesquita, pois “é importante que o ser humano desenvolva a capacidade intelectual que Deus deu ao homem, para que possamos descobrir a grandeza da criação”. O incentivo foi, portanto, “com a busca pela verdade”, “por meio do estudo” e “com a capacidade de reconhecer a dignidade de cada ser humano”, “aprender a nos respeitarmos mutuamente, a viver em harmonia e construir um mundo de paz”.
Enfim, Leão XIV assegurou orações “pelo povo da Argélia” e “por todos os povos da terra” para que “a paz e a justiça do Reino de Deus se façam presentes também entre nós e que todos nós estejamos, cada vez mais convencidos, da necessidade de sermos promotores de paz, de reconciliação, de perdão e daquilo que é verdadeiramente a mente de Deus para toda a sua criação”.
No protocolo realizado naquele que é considerado um dos maiores locais de culto islâmico do mundo, ainda teve momento para a foto oficial e assinatura do Papa Leão XIV no Livro de Honra. A mensagem foi escrita em francês: “Que a misericórdia do Altíssimo guarde em paz e liberdade o nobre povo argelino e toda a família humana. Que a misericórdia do Altíssimo preserve o nobre povo argelino e toda a família humana em paz e liberdade”.
O caminho do diálogo inter-religioso
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, já havia antecipado em entrevista ao Vatican News, que "a visita à Grande Mesquita de Argel insere-se plenamente como uma continuação natural do caminho de diálogo inter-religioso já iniciado na Turquia e no Líbano; um diálogo que o Santo Padre pretende prosseguir com paciência e determinação". Assim, depois da Turquia, um país muçulmano, e do Líbano, outro país com uma grande maioria muçulmana, o Papa Leão visita a Argélia onde 99% professam o islamismo e apenas 1% são de batizados católicos. "Isso diz algo sobre o pontificado de Leão XIV", adiantou o arcebisp de Argel, o cardeal Jean-Paul Vesco antes da viagem apostólica: "mostra que, nesse aspecto, ele está realmente seguindo os passos do seu antecessor, Francisco, e de fato de todos os seus antecessores. Acho que isso diz algo belo sobre a Igreja. O mesmo aconteceu com o Papa Bento XVI e com João Paulo II".
Logo em seguida à visita à Grande Mesquita, o compromisso de Leão XIV é com às religiosas do Centro de Acolhimento e de Amizade das Irmãs agostinianas Missionárias em Bab El Oued.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
"O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz": Papa visita Monumento dos Mártires em Argel
Vatican News
Ao desembarcar no Aeroporto internacional Houari Boumédiène, o Papa foi acolhido pelo Núncio Apostólico, Dom Javier Herrera Corona, e pelo Chefe de Protocolo da Argélia, que subiram a bordo para saudar o Santo Padre. Em terra, ao pé da escada dianteira do avião, o aguardava o Presidente da República, Abdelmadjid Tebboune, enquanto ressoavam 21 salvas de canhão. Uma menina em trajes típicos ofereceu flores e o Santo Padre foi acompanhado ao Salão de Honra para um breve encontro privado com o Presidente argelino. De lá, Leão XIV percorreu cerca de 18 km para o primeiro evento oficial no Memorial dos Mártires (Maqam Echahid), monumento icônico de concreto, inaugurado em fevereiro de 1982 pelo presidente Chadli Bendjedid, por ocasião do 20º aniversário da independência. Com mais de 90 metros de altura, representa três folhas de palmeira estilizadas, em homenagem aos que perderam a vida na luta contra o colonialismo francês.
O Pontífice foi recebido ao pé da escadaria do Monumento por um ministro. Em seguida, subiu as escadas, acompanhado por dois oficiais superiores da Guarda argelina, que transportaram uma coroa de flores, e passou em revista a Guarda de Honra. No topo, houve a deposição da coroa de flores. Após a execução do hino, seguiu-se um momento de silêncio para prestar homenagem aos mártires. Em seguida, o Papa e o Ministro dirigem-se para o lado esquerdo do terraço, para uma vista do porto de Argel e a foto oficial. Deslocam-se então para o lado oposto, onde uma multidão de cerca de 5.000 pessoas aguardava a saudação do Papa.
As-salamu alaykom! (A paz esteja convosco!)
Com a saudação da paz em árabe, o Papa Leão iniciou seu primeiro discurso em terras argelinas. "É sobretudo um irmão que se apresenta diante de vocês", disse o Santo Padre, enaltecendo a hospitalidade e fraternidade do povo "forte e jovem", como teve a oportunidade de experimentar enquanto religioso. No coração argelino, afirmou, "a amizade, a confiança e a solidariedade não são meras palavras, mas valores que contam e tornam calorosa e sólida a vida em comum".
Leão XIV discorreu brevemente sobre a longa história rica em tradições, que remonta aos tempos de Santo Agostinho e muito antes ainda. Uma história também dolorosa, marcada por períodos de violência, que o povo soube superar graças "à nobreza de espírito". Visitar este Monumento, portanto, "é uma homenagem a esta história, e à alma de um povo que lutou pela independência, dignidade e soberania desta nação".
A verdadeira luta pela libertação, acrescentou, só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações: "Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração".
“O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra.”
Leão XIV falou de outro aspecto central que pertence ao patrimônio argelino, que é a fé em Deus. "Um povo que ama a Deus possui a riqueza mais verdadeira e o povo argelino conserva esta joia no seu tesouro. O nosso mundo precisa de fiéis assim, de homens e mulheres de fé, sedentos de justiça e unidade."
Foi este o testemunho que deram os mortos que se honram neste Monumento. Eles perderam a vida, mas num outro sentido, entregaram-na por amor ao seu povo. "A sua história sustente o povo argelino e todos nós no nosso caminho, pois a verdadeira liberdade não se herda simplesmente, mas escolhe-se todos os dias." Leão XIV concluiu seu discurso repetindo as palavras de Jesus aos discípulos, no chamado Sermão da Montanha:
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3-10).
Papa já se encontra na Argélia, primeira etapa de sua 3ª viagem apostólica
Vatican News
O avião com a comitiva papal a bordo partiu do aeroporto internacional de Fiumicino às 9h07 locais, dando início à primeira visita de Leão XIV ao continente africano. Serão 10 dias, de 13 a 23 de abril, em quatro países: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Quanto à primeira etapa, Argélia, o próprio Pontífice já havia antecipado essa visita no voo de regresso de Beirute, quando — em resposta a perguntas de jornalistas sobre futuras viagens — revelou seu destino, acrescentando seu desejo de "visitar os lugares de Santo Agostinho", mas também de continuar "o diálogo, a construção de pontes entre os mundos cristão e muçulmano", para o qual o Bispo de Hipona é uma figura respeitada.
Na Argélia, Santo Agostinho será, portanto, o fio condutor de uma visita que coloca no centro o tema do encontro e da fraternidade, em um país onde a presença cristã se reduz a poucos milhares de pessoas em uma população de cerca de 48 milhões de muçulmanos.
O arcebispo de Argel, o cardeal Jean-Paul Vesco, declarou ter convidado o Pontífice no mesmo dia de sua eleição, em 8 de maio passado, data em que se celebra a memória litúrgica dos 19 mártires beatos da Argélia. Antes de subir à Cátedra de Pedro, Robert Francis Prevost visitou o país duas vezes, na qualidadede Prior-geral da Ordem de Santo Agostinho: entre 20 e 26 de setembro de 2004, e entre 15 e 18 de abril de 2009.
Após quase duas horas de voo e 1.029 quilômetros percorridos, o avião pousou no Aeroporto Internacional da capital Argel às 9h50 locais.