Papa na França: proteger a vida e promover a paz, que não é equilíbrio de forças
Andressa Collet - Vatican News
O Papa Leão XIV pronunciou o primeiro discurso da viagem apostólica à França na manhã desta sexta-feira (25/09), primeiro dos quatro dias no país, que além de Paris, ainda terá etapas em Lourdes e Metz. No Palácio do Eliseu, sede da Presidência da República, o Pontífice encontrou autoridades políticas e religiosas, representantes da sociedade civil, da cultura e do corpo diplomático. Leão se pronunciou logo após o presidente do país, Emmanuel Macron, na Salle des fêtes.
A França e os brilhos da Cidade-Luz
Logo no início do discurso, o Papa agradeceu o convite feito pelo presidente Macron para visitar o país, feito em audiência no Vaticano, quando foi recebido em 10 de abril deste ano. Junto às saudações oficiais, também recordou o povo francês, formado por uma "diversidade de origens" que ajuda a "enriquecer a convivência e a vida democrática" em um país que é "patrimônio cultural e religioso". Um povo que também faz parte das origens familiares do Papa, bem recordadas por Leão, ao citar as raízes nas regiões francesas da Normandia e de Béarn.
Ao se direcionar à sua quinta viagem apostólica, o Papa salientou que parte da própria capital da França, Paris, "frequentemente designada como a Cidade-Luz" de um país que "brilha como um farol cultural, artístico e espiritual, não só na Europa, mas em todo o mundo". O país "contribuiu para formar a inteligência dos povos, muito além das suas fronteiras", para "o bem da humanidade, desde que estejam orientadas para a busca do belo, do bem e do verdadeiro, para que o mundo tenha vida". O savoir-faire, disse o Papa, o "saber fazer", é sinônimo de excelência em muitas áreas, como aconteceu com a grande obra de restauro da Catedral de Notre-Dame de Paris. A recente reabertura "não é apenas o coroamento de uma proeza técnica", mas testemunho "de unidade alcançada por meio do esforço comum", que serve de inspiração, disse o Papa, para agentes da vida política, social e religiosa do país.
O respeito à dignidade humana, aos direitos e liberdades
A França é também uma terra com ricas raízes cristãs, continuou o Papa em discurso, do humanismo, dos pensadores do Renascimento e do Iluminismo que, a partir do país, proporcionaram ao mundo várias conquistas como "o reconhecimento dos direitos humanos inscritos na natureza da própria pessoa, em particular a liberdade religiosa. Esta atenção permanente à dignidade inerente a toda a pessoa humana encontra eco no vosso lema nacional: liberdade, igualdade e fraternidade". Em Paris, por exemplo, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos do Homem para "criar uma consciência geral da dignidade inalienável da pessoa humana".
A questão do respeito da dignidade humana e dos direitos e liberdades fundamentais "deve acompanhar a evolução da sociedade e o progresso técnico". O Papa justificou assim a razão pela qual tratou da Inteligênia Artificial na sua primeira Carta Encíclica, a Magnifica humanitas, já que o progresso, sem responsabilidade e "quando não orientado para o bem é capaz de causar danos":
"Para não perdermos a nossa humanidade no meio do 'paraíso das máquinas', que invade e condiciona o nosso quotidiano, é urgente formar os espíritos para um discernimento ético, capaz de distinguir o que é moralmente bom. Esta exigência é fundamental para reconhecer o verdadeiro bem que faz o homem crescer de acordo com a sua vocação primordial, no respeito incondicional pela sua liberdade interior e pela sua dignidade sagrada."
Diálogo urgente na França para proteger a diversidade
Uma sociedade livre, continuou o Papa, "não impõe a uniformidade, mas protege a diversidade de consciências". Esse diálogo "é ainda mais urgente no contexto da França de hoje, onde pessoas de diferentes origens culturais e religiosas são chamadas a viver juntas e a dar o seu contributo para a construção da sociedade". Pela atenção à riqueza do tecido social e à solidariedade, a própria Igreja no país "nunca deixou de agir em prol dos mais desfavorecidos, tornando-se o rosto vivo da ternura e da compaixão de Deus. São testemunhos de "uma autêntica escola de humanidade sobre a grandeza do cuidado e um apelo comovente para o valor único e insubstituível de cada ser humano":
"São também um convite a uma fraternidade renovada, pois exige que aprendamos a acolher a vida incondicionalmente, a amparar a fragilidade com ternura, a acompanhar com respeito e confiança mútua cada etapa da existência e a defender com coragem e compaixão aqueles que não têm voz ou que não se sentem suficientemente apoiados. É por isso que reafirmo «com veemência que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos»"
A proteção à vida é responsabilidade de todos
O Papa insistiu sobre a proteção à vida no discurso às autoridades, alertando sobre "a tentação de esperar da ciência solução e conforto para todos os nossos sofrimentos". As soluções imediatas são um risco enorme para se desviar do bem, afirmou Leão XIV, ao acrescentar:
A laicidade não é ameaça
O discurso do Pontífice, então, também seguiu para a importância de se respeitar também a laicidade, que "não exclui a dimensão religiosa, mas, pelo contrário, sabe valorizá-la como um recurso educativo". Leão XIV citou o exemplo das escolas católicas presentes na França, que ajudam a dialogar e a respeitar dentro da sociedade:
"Uma correta laicidade não consiste, portanto, em excluir a religião do espaço público ou do ensino, mas em trabalhar em prol do diálogo entre o Estado e as instituições religiosas, para que unam forças ao serviço do bem comum, para que o mundo tenha vida."
Uma paz desarmada e desarmante também pela França
O Papa, ao citar o lema da viagem ao país, "Para que o mundo tenha vida", insistiu sobre o respeito ao próximo e a serví-lo com dignidade, "independentemente da sua origem", constitui um contributo valioso para o diálogo entre os povos, para a defesa dos direitos das pessoas, bem como ao serviço da paz. E mesmo à distância, já que Leão citou diferentes colaborações a partir da França e da sua Igreja que prestam apoio às populações mais vulneráveis do Oriente Médio. Ao falar daquela região de conflitos, o Pontífice lembrou dos "atormentados pelo flagelo da guerra":
"Não podemos permanecer indiferentes perante tais sofrimentos, que ferem a dignidade humana e clamam justiça a Deus. A gravidade destas situações deve interpelar-nos, convidando cada um, onde quer que se encontre, a uma verdadeira conversão do coração e a uma mudança de atitude. É reconhecendo humildemente a necessidade que temos uns dos outros que juntos poderemos empenhar-nos ainda mais na construção da civilização do amor no meio do mundo, que se tornou tão complexo e interdependente."
Ao citar o pensamento do seu predecessor João XXIII, Leão XIV exortou novamente que "se pare com essa corrida ao poderio militar", que "sejam banidas as armas atômicas; e, finalmente, que se chegue a um acordo para a gradual diminuição dos armamentos, na base de garantias mútuas e eficazes". A posse de armas nucleares, observou o Pontífice, não é garantia de segurança: "na verdade, a paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça". Não é para se resignar à perspectiva de uma guerra, considerando-a “inevitável”, disse o Papa, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia: