quinta-feira, 16 de abril de 2026
Papa: a paz deve prevalecer sobre os "senhores da guerra" que usam o nome de Deus
Andressa Collet - Vatican News
Um dos eventos de maior expectativa para a povo de Camarões, que recebeu o Papa Leão XIV para um Encontro pela Paz em Bamenda, região anglófona que há uma década vive uma crise marcada por tensões separatistas, violência e deslocamentos, foi promovido nesta quinta-feira (16/04). De fato, fala-se de 500 mil os refugiados e requerentes de asilo em países vizinhos como Sudão e República Democrática do Congo. Um lugar de insistente tensão e sofrimento devido à fragmentação política e tribal que viu as facções separatistas locais anunciarem uma trégua baseada na "responsabilidade, moderação e respeito pel dignidade humana" para a realização da agenda do Papa em Bamenda.
A luz do mundo em meio à terra ensanguentada
A Catedral de São José, sede da arquidiocese local, foi o local destinado ao Encontro pela Paz que reuniu chefes tradicionais, representantes da Igreja protestante e também membros islâmicos, além da comunidade católica de consagrados e leigos. Após cantos e testemunhos locais, inclusive de uma consagrada que foi sequestrada e de uma família de deslocados internos, o Papa refletiu sobre as histórias de dor contadas em primeira pessoa que refletem o que é vivido por uma terra "atormetada", "ensanguentada", "ultrajada". Apesar de tantas provações e obstáculos, porém, o Pontífice reconheceu o quanto foi feito para manter "caminhos do bem", demonstrando "a consciência de que Deus nunca nos abandonou! N’Ele, na sua paz, podemos sempre recomeçar!".
Leão XIV disse que, sim, é ele quem está "aqui para anunciar a paz, mas constato de imediato que são vocês que a anunciam a mim e ao mundo inteiro". Basta perceber que "a crise que abalou estes territórios dos Camarões aproximou mais do que nunca as comunidades cristãs e muçulmanas", num Movimento pela Paz para procurar mediar entre as partes adversárias:
"Quanto gostaria que assim acontecesse em tantos lugares do mundo! O seu testemunho, o seu trabalho pela paz podem servir de exemplo para o mundo inteiro. Jesus nos disse: Bem-aventurados os construtores da paz! Porém, ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso. Sim, minhas queridas irmãs e irmãos, vós que tendes fome e sede de justiça, vós, os pobres, os misericordiosos, os mansos e os puros de coração, vós que chorastes, vós sois a luz do mundo! (cf. Mt 5, 3-14)."
Basta um instante para destruir e uma vida inteira para reconstruir
O Papa, então, encorajou Bamenda a continuar sendo "o sal que dá sabor a esta terra", valorizando o que aproximou todos na hora da dor. como fazem "todos aqueles – em particular as mulheres, leigas e religiosas – que cuidam das pessoas traumatizadas pela violência. É um trabalho imenso, invisível, quotidiano e exposto a perigos", como recordou a própria Irmã Carine Tangiri Mangu em testemunho ao Papa, sequestrada por três dias em novembro do ano passsado:
"Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir. Fingem não ver que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer. Quem saqueia os recursos da terra de vocês, geralmente investe grande parte dos lucros em armas, numa espiral de desestabilização e morte sem fim. É um mundo ao contrário, uma subversão da criação de Deus."
Sirvamos juntos a paz!
Leão XIV agradeceu à missão de tantas pessoas que decidiram "estar com os outros e ser para os outros", remetendo às palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, que exortou a "caminhar juntos, cada um na sua vocação", começando pelo trabalho local "para chegar a amar o próximo, seja quem for e onde quer que esteja. É a revolução silenciosa da qual vocês são testemunhas!", disse Leão XIV. "Sigamos em frente sem nos cansarmos, com coragem e, acima de tudo, juntos, sempre juntos!", encorajou o Pontífice, "sirvamos juntos a paz!":
"O mundo é destruído por poucos dominadores e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários! São a descendência de Abraão, incontável como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar. Olhemo-nos nos olhos: somos já este povo imenso! A paz não é algo a inventar: é algo a acolher, acolhendo o próximo como nosso irmão e como nossa irmã. Ninguém escolhe os seus irmãos e irmãs: devemos apenas acolher-nos uns aos outros! Somos uma única família e habitamos a mesma casa, este maravilhoso planeta de que as culturas antigas cuidaram durante milênios."
Que a paz de Deus reine nesta terra
Ao final do Encontro pela Paz, o Papa se dirigiu para a frente da Catedral de São José. Com uma pomba branca em mãos, assim como faziam outras sete pessoas representantes da comunidade local, Leão XIV falou algumas palavras improvisadas antes de soltá-la:
“Meus queridos irmãos e irmãs, hoje o Senhor escolheu todos nós para sermos os trabalhadores que trazem a paz a esta terra. Rezemos todos juntos ao Senhor. Que a paz reine verdadeiramente entre nós. Que, ao soltarmos estas pombas brancas, símbolo da paz, a paz de Deus esteja sobre todos nós, sobre esta terra, e nos mantenha todos unidos em Sua paz. Louvado seja o Senhor.”
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Leão XIV exorta autoridades de Camarões a investir na juventude contra a insegurança
Por Silas Isenjia
15 de abr de 2026 às 16:18
O papa Leão XIV fez hoje (15) um apelo às autoridades de Camarões para que invistam na educação e formação dos jovens, visando uma paz duradoura no início de sua visita de três dias ao país.
Em seu encontro com autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático no palácio presidencial, no primeiro dia de sua visita, hoje, o papa Leão XIV disse que os jovens são o maior patrimônio de Camarões e a chave para o futuro do país.
“Os jovens representam a esperança do país e da Igreja”, disse o papa. “A sua energia e criatividade são riquezas inestimáveis. Naturalmente, quando o desemprego e a exclusão persistem, a frustração pode gerar violência”.
“Investir na instrução, na formação e no empreendedorismo dos jovens é, portanto, uma escolha estratégica para a paz”, disse Leão XIV.
Segundo o papa, investir nos jovens é a única maneira de conter a fuga de talentos para outras partes do mundo.
É também a única maneira de combater “os flagelos da droga, da prostituição e da apatia, que devastam demasiadas vidas jovens, de modo cada vez mais dramático”, disse ele.
“Graças a Deus, não falta aos jovens camaronenses uma profunda espiritualidade, que ainda resiste à homogeneização do mercado”, disse Leão XIV. “Trata-se de uma energia que torna preciosos os seus sonhos, enraizados nas profecias que alimentam a sua oração e os seus corações”.
O papa disse que, quando os jovens não são corrompidos pelo que ele descreveu como “o veneno do fundamentalismo” que “distorce as tradições religiosas”, eles se tornam profetas da paz, da justiça, do perdão e da solidariedade.
Leão XIV falou também sobre a força espiritual da juventude camaronesa, dizendo que, apesar dos desafios, muitos permanecem profundamente enraizados na fé.
Ele expressou particular preocupação com os jovens, instando-os a serem capacitados para ter um papel ativo na construção da sociedade. “É meu grande desejo chegar ao coração de todos, em particular dos jovens, chamados a dar forma, também política, a um mundo mais equitativo”, disse o papa.
Em seu discurso, o papa Leão XIV também elogiou a riqueza da terra, das culturas, das línguas e das tradições do país, dizendo que tais recursos não devem ser vistos como fraqueza, mas como um tesouro a ser valorizado.
“Agradeço sinceramente o caloroso acolhimento que me dedicaram e as palavras de boas-vindas que me foram dirigidas”, disse ele. “É com profunda alegria que me encontro nos Camarões, frequentemente chamado África em miniatura, em virtude da riqueza dos seus territórios, culturas, línguas e tradições. Esta variedade não é uma fragilidade: é um tesouro”.
Os Papas e as guerras na era contemporânea
Andrea Tornielli
Enquanto se volta a falar de “guerra justa”, vale a pena recordar o magistério de paz dos Pontífices que se sucederam na Cátedra de Pedro nos últimos cem anos. Um magistério que foi-se enriquecendo e aprofundando gradualmente, chegando a definir como cada vez mais difícil a possibilidade de que exista uma “guerra justa”. As reflexões sobre a teologia dos séculos passados e sobre as possíveis justificativas para a guerra não levam em conta o fato de que, quando os teólogos do passado escreviam sobre esses temas, as guerras eram travadas com espadas e bastões, e não com bombas e drones controlados por máquinas — um fato que abre questões morais de intensidade dramática. De fato, amadureceu cada vez mais a consciência de que a guerra não é um caminho a seguir.
Desde a carta de Bento XV aos beligerantes, de 1917, que define a Primeira Guerra Mundial como um “massacre inútil”, até às tentativas de Pio XII de evitar o início da Segunda Guerra Mundial; das palavras de João XXIII na “Pacem in terris”, que já em 1963 escrevia que “é quase impossível pensar que, na era atômica, a guerra possa ser utilizada como instrumento de justiça”, ao grito de Paulo VI na ONU “nunca mais a guerra”, até às tentativas ignoradas de João Paulo II de evitar os desastrosos conflitos no Oriente Médio; os Sucessores de Pedro não deixaram de levantar a sua voz, marcada pela profecia e pelo realismo, infelizmente, na maioria das vezes, sem serem ouvidos.
O texto de referência é, antes de tudo, o Catecismo da Igreja Católica, que contempla o direito à legítima defesa, mas impõe “condições restritas” também à guerra defensiva: “É necessário, contemporaneamente: que o dano causado pelo agressor à nação ou à comunidade das nações seja duradouro, grave e certo; que todos os outros meios de eliminá-lo se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; que haja condições fundamentadas de sucesso; que o recurso às armas não provoque males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. Na avaliação dessa condição, a potência dos meios modernos de destruição tem um peso enorme”. Quem pode negar que a humanidade se encontra hoje à beira do abismo justamente por causa da escalada do conflito e da potência dos “meios modernos de destruição”?
O “não” à guerra foi reiterado com cada vez mais força também durante o pontificado do Papa Francisco, que na Encíclica “Fratelli tutti” escreveu: “É fácil optar pela guerra, invocando todo tipo de desculpas aparentemente humanitárias, defensivas ou preventivas, recorrendo inclusive à manipulação da informação. De fato, nas últimas décadas, todas as guerras alegaram ter uma ‘justificativa’ (...). A questão é que, a partir do desenvolvimento de armas nucleares, químicas e biológicas, e das enormes e crescentes possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias, foi conferido à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes. Na verdade, “nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma e nada garante que o utilizará bem”. Portanto, não podemos mais pensar na guerra como solução, já que os riscos provavelmente serão sempre superiores à hipotética utilidade que se lhe atribui. Diante dessa realidade, hoje é muito difícil defender os critérios racionais desenvolvidos em outros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!”
Seu sucessor, Leão XIV, fez da paz um dos temas centrais de seu pontificado: diante da loucura da escalada bélica e dos gastos desmedidos com o rearmamento, ele trilha com igual realismo e profecia o caminho já aberto por seus antecessores, clamando por paz, diálogo e negociação. Os massacres de civis perpetrados nos últimos anos abalam as consciências de bilhões de pessoas em todo o mundo, que voltam os olhos para o Bispo de Roma. O Papa Leão, como fez Jesus no Getsêmani, convida com veemência a colocar a espada na bainha: “Por toda parte, se ouvem ameaças em vez de apelos à escuta e ao encontro”, disse ele durante a Vigília de oração no sábado, 11 de abril, explicando que “quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida”.
Papa visita orfanato: onde há sofrimento e injustiça, Deus está presente
Thulio Fonseca – Vatican News
O terceiro compromisso do Papa Leão XIV em Camarões foi a visita ao Orfanato Ngul Zamba, instituição que acolhe crianças e jovens de 18 meses a 20 anos. Mantido exclusivamente por doações, o orfanato enfrenta dificuldades econômicas, sobretudo no acesso a alimentos e bens essenciais. Recebido pela Superiora Geral da Congregação das Filhas de Maria, o Santo Padre foi conduzido ao salão principal, onde crianças e colaboradores o acolheram com cantos, testemunhos e palavras de boas-vindas.
Jesus está presente
Em um ambiente simples, mas cheio de vida, o Papa dirigiu-se aos presentes com palavras de proximidade e consolo: “Estou muito feliz por entrar neste orfanato, que se tornou a casa de vocês”. Em seguida, recordou que, antes de tudo, “é o Pai do Céu que os acolhe com amor, como seus filhos”. O Pontífice sublinhou o valor da fraternidade vivida no local e destacou que, apesar de histórias marcadas pela dor, ali se constrói uma verdadeira família:
"Vocês formam uma verdadeira família e aqui encontram irmãos e irmãs que partilham com vocês uma história dolorosa. E, nesta família, o seu Irmão mais velho é Jesus! Esta fraternidade, reunida em torno d’Ele, os torna fortes, os ajuda a carregar juntos os fardos da vida e os faz experimentar a verdadeira alegria.“
Ninguém é esquecido”
Em sua breve saudação, o Papa chamou a atenção para o sofrimento vivido por muitas daquelas crianças e reforçou uma mensagem de esperança:
“Queridas crianças, sei que muitos de vocês passaram por difíceis provações. Alguns conheceram a dor da ausência por meio da perda dos pais ou de entes queridos. Outros experimentaram o medo, a rejeição, o abandono, a privação e a incerteza. Vocês são chamados a um futuro maior do que as suas feridas. São portadores de uma promessa. Pois, onde quer que haja miséria, sofrimento ou injustiça, Deus está presente, conhece os seus rostos e está muito próximo de vocês. O Evangelho nos recorda que Jesus tinha uma bondade especial para com crianças como vocês e as colocava no centro. Saibam que, hoje, Ele olha para cada um de vocês com o mesmo carinho.”
Manifestar a ternura de Deus
Dirigindo palavras de reconhecimento aos responsáveis, educadores e voluntários do orfanato, o Papa ressaltou o testemunho concreto de amor vivido no cotidiano. “Através de vocês manifesta-se a ternura de Deus [...] vocês oferecem a estas crianças uma presença, uma escuta, uma família, um futuro”, afirmou.
Ao concluir o encontro, o Pontífice confiou todos à proteção de Maria e encorajou os presentes a perseverarem na missão: “Agradeço por tudo o que fazem e os convido a perseverar com coragem nesta bonita obra”.
Papa deixa a Argélia para seguir a Camarões, segunda etapa da viagem à África
Vatican News
O avião da ITA Airways, com o Papa Leão XIV a bordo, decolou do Aeroporto Internacional Houari Boumédiène, em Argel, às 10h16 (hora local). O voo desta quarta-feira, 15 de abril, com destino a Camarões — segunda etapa das quatro nações visitadas pelo Pontífice na sua viagem apostólica à África —, terá duração de cerca de 5 horas.
A visita à creche Notre Dame d’Afrique
Antes da partida e após a despedida da Nunciatura Apostólica, o Pontífice visitou brevemente a creche Notre Dame d’Afrique, administrada pelas Irmãs Missionárias da Caridade. A Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou a notícia em seu canal do Telegram, especificando que “as crianças apresentaram um breve espetáculo para o Papa, que depois se despediu delas e das irmãs antes de seguir para o aeroporto”.
Forte apelo à unidade
“Que tous soient un”, “May they all be one”, “In Illo uno unum”. Três idiomas, três apelos à unidade: nos dois primeiros casos, trata-se de uma passagem do Evangelho de João; no último, porém, do lema de Leão XIV, extraído de um sermão de Santo Agostinho, que expressa a ideia de que “embora nós, cristãos, sejamos muitos, no único Cristo somos um”. É esse o eixo temático em que se insere a presença do Pontífice no país, que se estende quase até o Equador. Ele ficará em Yaoundé, a capital, mas também visitará Douala, centro econômico de Camarões, e Bamenda, no noroeste: uma região assolada, desde 2013, por um conflito sangrento e quase esquecido, que causou milhares de mortos e quase 500 mil deslocados internos.
A programação do dia
Na chegada ao Aeroporto Internacional de Yaoundé-Nsimalen, o Papa será recebido pelo primeiro-ministro Joseph Dion Ngute e pelo núncio apostólico José Avelino Bettencourt. Após a execução dos hinos nacionais e a apresentação das delegações, o Pontífice seguirá para o Palácio da Unidade, residência oficial do presidente Paul Biya, que o receberá juntamente com a esposa Chantal. Após a visita de cortesia, com um encontro privado e a troca de presentes, Leão XIV se reunirá com representantes das autoridades, da sociedade civil e do corpo diplomático, sempre no Palácio Presidencial. Lá, ele irá proferir um discurso, precedido por uma intervenção do presidente Biya.
A próxima etapa deste terceiro dia da viagem apostólica será a visita ao Orfanato Ngul Zamba, instituição mantida exclusivamente por doações, que acolhe jovens de 18 meses a 20 anos. Lá, cantos e testemunhos darão as boas-vindas ao Pontífice, que, após saudar a comunidade, seguirá para a sede da Conferência Episcopal do Camarões para um encontro privado com os bispos locais. O dia será encerrado na Nunciatura Apostólica no Camarões, onde o Papa jantará em ambiente privado.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Papa visita as ruínas de Hipona
Por Marco Mancini
14 de abr de 2026 às 08:46
O papa Leão XIV visitou hoje (14), em seu segundo dia na Argélia, o sítio arqueológico de Hipona, onde santo Agostinho foi bispo.
Apesar do vento e da chuva torrencial, o papa percorreu as escavações e, chegando ao fim do caminho, depositou uma coroa de flores, enquanto o coro do Instituto de Música de Annaba cantava hinos — em latim, berbere e árabe — baseados em textos de santo Agostinho dedicados à paz e à fraternidade. Ao fim da apresentação musical, Leão XIV dedicou um momento à oração silenciosa antes de deixar o sítio arqueológico.
As ruínas romanas de Hipona, na atual Annaba, têm um fórum pavimentado rodeado por pórticos com colunas. O teatro, o mercado, as termas, as cisternas e os mosaicos figurativos continuam visíveis até hoje. Existem também estruturas da era cristã, como a basílica de Paz, onde santo Agostinho exerceu seu ministério episcopal, e o batistério adjacente.
Papa na Grande Mesquita de Argel: podemos aprender a nos respeitar mutuamente
Andressa Collet – Vatican News
No primeiro compromisso da tarde desta segunda-feira (13/04) na capital da Argélia, neste início de viagem apostólica na África, o Papa Leão XIV, após tirar os sapatos, visitou a Grande Mesquita de Argel, a terceira maior do mundo depois da de Meca e de Medina na Arábia Saudita, mas a maior do continente africano. O Pontífice foi acolhido pelo reitor, Mohamed Mamoun Al Qasimi, com quem teve um encontro privado. Estavam presentes também os cardeais George Jacob Koovakak, prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, e Jean Paulo Vesco, arcebispo local.
Leão XIV permanece por pouco tempo na mesquita de recente inauguração, em 2024, mas o suficiente para fazer uma reflexão silenciosa. O espaço acomoda 120 mil fiéis - que podem frequentar o complexo durante as 24h do dia -, pouso de helicóptero e o mais alto minarete do mundo, de 267 metros. Os diversos edifícios que compõem o complexo abrigam múltiplas atividades, além das puramente religiosas, entre as quais, uma biblioteca com 1 milhão de livros, jardins e terraços panorâmicos, um centro de pesquisa, escritórios, museus, restaurantes e estacionamentos.
O diálogo com o reitor
O momento de diálogo com o reitor foi marcado pela gratidão de estar em um “lugar que representa o espaço que pertence a Deus”, no âmbito de uma viagem à Argélia, “terra também do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que quis ensinar tanto ao mundo, sobretudo com a busca da verdade, a busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz”. E o Pontífice continuou: “buscar a Deus é também reconhecer a imagem de Deus em cada criatura, filho de Deus, em cada homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus”. Por isso, é importante “aprender a viver juntos com respeito pela dignidade de cada pessoa humana”.
A importância da “busca pela verdade”
O Papa também elogiou o fato de ter sido criado um centro de estudos dentro da mesquita, pois “é importante que o ser humano desenvolva a capacidade intelectual que Deus deu ao homem, para que possamos descobrir a grandeza da criação”. O incentivo foi, portanto, “com a busca pela verdade”, “por meio do estudo” e “com a capacidade de reconhecer a dignidade de cada ser humano”, “aprender a nos respeitarmos mutuamente, a viver em harmonia e construir um mundo de paz”.
Enfim, Leão XIV assegurou orações “pelo povo da Argélia” e “por todos os povos da terra” para que “a paz e a justiça do Reino de Deus se façam presentes também entre nós e que todos nós estejamos, cada vez mais convencidos, da necessidade de sermos promotores de paz, de reconciliação, de perdão e daquilo que é verdadeiramente a mente de Deus para toda a sua criação”.
No protocolo realizado naquele que é considerado um dos maiores locais de culto islâmico do mundo, ainda teve momento para a foto oficial e assinatura do Papa Leão XIV no Livro de Honra. A mensagem foi escrita em francês: “Que a misericórdia do Altíssimo guarde em paz e liberdade o nobre povo argelino e toda a família humana. Que a misericórdia do Altíssimo preserve o nobre povo argelino e toda a família humana em paz e liberdade”.
O caminho do diálogo inter-religioso
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, já havia antecipado em entrevista ao Vatican News, que "a visita à Grande Mesquita de Argel insere-se plenamente como uma continuação natural do caminho de diálogo inter-religioso já iniciado na Turquia e no Líbano; um diálogo que o Santo Padre pretende prosseguir com paciência e determinação". Assim, depois da Turquia, um país muçulmano, e do Líbano, outro país com uma grande maioria muçulmana, o Papa Leão visita a Argélia onde 99% professam o islamismo e apenas 1% são de batizados católicos. "Isso diz algo sobre o pontificado de Leão XIV", adiantou o arcebisp de Argel, o cardeal Jean-Paul Vesco antes da viagem apostólica: "mostra que, nesse aspecto, ele está realmente seguindo os passos do seu antecessor, Francisco, e de fato de todos os seus antecessores. Acho que isso diz algo belo sobre a Igreja. O mesmo aconteceu com o Papa Bento XVI e com João Paulo II".
Logo em seguida à visita à Grande Mesquita, o compromisso de Leão XIV é com às religiosas do Centro de Acolhimento e de Amizade das Irmãs agostinianas Missionárias em Bab El Oued.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
"O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz": Papa visita Monumento dos Mártires em Argel
Vatican News
Ao desembarcar no Aeroporto internacional Houari Boumédiène, o Papa foi acolhido pelo Núncio Apostólico, Dom Javier Herrera Corona, e pelo Chefe de Protocolo da Argélia, que subiram a bordo para saudar o Santo Padre. Em terra, ao pé da escada dianteira do avião, o aguardava o Presidente da República, Abdelmadjid Tebboune, enquanto ressoavam 21 salvas de canhão. Uma menina em trajes típicos ofereceu flores e o Santo Padre foi acompanhado ao Salão de Honra para um breve encontro privado com o Presidente argelino. De lá, Leão XIV percorreu cerca de 18 km para o primeiro evento oficial no Memorial dos Mártires (Maqam Echahid), monumento icônico de concreto, inaugurado em fevereiro de 1982 pelo presidente Chadli Bendjedid, por ocasião do 20º aniversário da independência. Com mais de 90 metros de altura, representa três folhas de palmeira estilizadas, em homenagem aos que perderam a vida na luta contra o colonialismo francês.
O Pontífice foi recebido ao pé da escadaria do Monumento por um ministro. Em seguida, subiu as escadas, acompanhado por dois oficiais superiores da Guarda argelina, que transportaram uma coroa de flores, e passou em revista a Guarda de Honra. No topo, houve a deposição da coroa de flores. Após a execução do hino, seguiu-se um momento de silêncio para prestar homenagem aos mártires. Em seguida, o Papa e o Ministro dirigem-se para o lado esquerdo do terraço, para uma vista do porto de Argel e a foto oficial. Deslocam-se então para o lado oposto, onde uma multidão de cerca de 5.000 pessoas aguardava a saudação do Papa.
As-salamu alaykom! (A paz esteja convosco!)
Com a saudação da paz em árabe, o Papa Leão iniciou seu primeiro discurso em terras argelinas. "É sobretudo um irmão que se apresenta diante de vocês", disse o Santo Padre, enaltecendo a hospitalidade e fraternidade do povo "forte e jovem", como teve a oportunidade de experimentar enquanto religioso. No coração argelino, afirmou, "a amizade, a confiança e a solidariedade não são meras palavras, mas valores que contam e tornam calorosa e sólida a vida em comum".
Leão XIV discorreu brevemente sobre a longa história rica em tradições, que remonta aos tempos de Santo Agostinho e muito antes ainda. Uma história também dolorosa, marcada por períodos de violência, que o povo soube superar graças "à nobreza de espírito". Visitar este Monumento, portanto, "é uma homenagem a esta história, e à alma de um povo que lutou pela independência, dignidade e soberania desta nação".
A verdadeira luta pela libertação, acrescentou, só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações: "Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração".
“O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra.”
Leão XIV falou de outro aspecto central que pertence ao patrimônio argelino, que é a fé em Deus. "Um povo que ama a Deus possui a riqueza mais verdadeira e o povo argelino conserva esta joia no seu tesouro. O nosso mundo precisa de fiéis assim, de homens e mulheres de fé, sedentos de justiça e unidade."
Foi este o testemunho que deram os mortos que se honram neste Monumento. Eles perderam a vida, mas num outro sentido, entregaram-na por amor ao seu povo. "A sua história sustente o povo argelino e todos nós no nosso caminho, pois a verdadeira liberdade não se herda simplesmente, mas escolhe-se todos os dias." Leão XIV concluiu seu discurso repetindo as palavras de Jesus aos discípulos, no chamado Sermão da Montanha:
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu» (Mt 5, 3-10).
Papa já se encontra na Argélia, primeira etapa de sua 3ª viagem apostólica
Vatican News
O avião com a comitiva papal a bordo partiu do aeroporto internacional de Fiumicino às 9h07 locais, dando início à primeira visita de Leão XIV ao continente africano. Serão 10 dias, de 13 a 23 de abril, em quatro países: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Quanto à primeira etapa, Argélia, o próprio Pontífice já havia antecipado essa visita no voo de regresso de Beirute, quando — em resposta a perguntas de jornalistas sobre futuras viagens — revelou seu destino, acrescentando seu desejo de "visitar os lugares de Santo Agostinho", mas também de continuar "o diálogo, a construção de pontes entre os mundos cristão e muçulmano", para o qual o Bispo de Hipona é uma figura respeitada.
Na Argélia, Santo Agostinho será, portanto, o fio condutor de uma visita que coloca no centro o tema do encontro e da fraternidade, em um país onde a presença cristã se reduz a poucos milhares de pessoas em uma população de cerca de 48 milhões de muçulmanos.
O arcebispo de Argel, o cardeal Jean-Paul Vesco, declarou ter convidado o Pontífice no mesmo dia de sua eleição, em 8 de maio passado, data em que se celebra a memória litúrgica dos 19 mártires beatos da Argélia. Antes de subir à Cátedra de Pedro, Robert Francis Prevost visitou o país duas vezes, na qualidadede Prior-geral da Ordem de Santo Agostinho: entre 20 e 26 de setembro de 2004, e entre 15 e 18 de abril de 2009.
Após quase duas horas de voo e 1.029 quilômetros percorridos, o avião pousou no Aeroporto Internacional da capital Argel às 9h50 locais.
domingo, 12 de abril de 2026
Regina Caeli, 12 de abril de 2026 - Papa Leão XIV
PAPA LEÃO XIV
REGINA CAELI
Praça São Pedro
Domingo, 12 de abril de 2026
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Queridos irmãos e irmãs, bom domingo e, mais uma vez, feliz Páscoa!
Hoje, segundo Domingo da Páscoa, dedicado à Divina Misericórdia por São João Paulo II, lemos no Evangelho a aparição de Jesus ressuscitado ao apóstolo Tomé (cf. Jo 20, 19-31). Tal acontecimento ocorre oito dias após a Páscoa, enquanto a comunidade está reunida, e é aí que Tomé encontra o Mestre, que o convida a olhar para os sinais dos pregos, a colocar a mão na ferida do seu lado e a acreditar (cf. v. 27). É uma cena que nos faz refletir sobre o nosso encontro com Jesus ressuscitado. Onde encontrá-lo? Como reconhecê-lo? Como acreditar? São João, que narra o evento, dá-nos indicações precisas: Tomé encontra Jesus no oitavo dia, com a comunidade reunida, e reconhece-o pelos sinais do seu sacrifício. Desta experiência, brota a sua profissão de fé, a mais elevada de todo o quarto Evangelho: «Meu Senhor e meu Deus!» (v. 28).
É claro que nem sempre é fácil acreditar. Não foi fácil para Tomé e também não o é para nós. A fé precisa de ser alimentada e sustentada. Por isso, no “oitavo dia”, isto é, todos os domingos, a Igreja convida-nos a fazer como os primeiros discípulos: a reunirmo-nos e a celebrarmos juntos a Eucaristia. Nela, ouvimos as palavras de Jesus, rezamos, professamos a nossa fé, partilhamos os dons de Deus na caridade, oferecemos a nossa vida em união com o Sacrifício de Cristo, alimentamo-nos do seu Corpo e do seu Sangue, para depois sermos, por nossa vez, testemunhas da sua Ressurreição, como indica o termo “Missa”, isto é, “envio”, “missão” (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1332).
A Eucaristia dominical é indispensável para a vida cristã. Amanhã partirei para a viagem apostólica à África, e foram precisamente alguns mártires da Igreja africana dos primeiros séculos – os mártires de Abitene – que nos deixaram um belíssimo testemunho a este respeito. Diante da oferta de terem a vida poupada, desde que renunciassem à celebração da Eucaristia, responderam que não podiam viver sem celebrar o Dia do Senhor. É ali que a nossa fé se alimenta e cresce. É ali que os nossos esforços, ainda que limitados, por graça de Deus se fundem como ações dos membros de um único corpo – o Corpo de Cristo – na realização de um único grande projeto de salvação que abraça toda a humanidade. É através da Eucaristia que também as nossas mãos se tornam “mãos do Ressuscitado” – testemunhas da sua presença, da sua misericórdia, da sua paz – nos sinais do trabalho, dos sacrifícios, da doença, do passar dos anos, que frequentemente nelas ficam gravados, tal como na ternura de uma carícia, de um aperto de mão, de um gesto de caridade.
Queridos irmãos e irmãs, num mundo que tanto necessita de paz, isto compromete-nos, mais do que nunca, a ser assíduos e fiéis ao nosso encontro eucarístico com o Ressuscitado, para daí partirmos como testemunhas da caridade e portadores da reconciliação. Que nos ajude a fazê-lo a Virgem Maria, bem-aventurada porque foi a primeira que acreditou sem ver (cf. Jo 20, 29).
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Após o Regina Caeli
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, muitas Igrejas orientais celebram a Páscoa segundo o calendário juliano. A todas essas comunidades dirijo os meus mais cordiais votos de paz, em comunhão de fé no Senhor Ressuscitado. Acompanho-os com uma oração ainda mais intensa por todos aqueles que sofrem devido à guerra, em particular pelo querido povo ucraniano. Que a luz de Cristo traga consolo aos corações aflitos e fortaleça a esperança de paz. Nunca falte a atenção da comunidade internacional perante o drama desta guerra!
Estou também, mais do que nunca, próximo do querido povo libanês nestes dias de dor, de medo e de esperança inabalável em Deus. O princípio da humanidade, inscrito na consciência de cada pessoa e reconhecido nas leis internacionais, implica a obrigação moral de proteger a população civil dos efeitos atrozes da guerra. Apelo às partes em conflito para que cessem o fogo e procurem urgentemente uma solução pacífica.
Na próxima quarta-feira, completam-se três anos desde o início do sangrento conflito no Sudão. Quanto sofre o povo sudanês, vítima inocente deste drama desumano! Renovo o meu veemente apelo às partes beligerantes para que silenciem as armas e iniciem, sem condições prévias, um diálogo sincero para pôr fim, o mais rapidamente possível, a esta guerra fratricida.
E agora dou as boas-vindas a todos vós, romanos e peregrinos, em particular aos fiéis que celebraram o Domingo da Divina Misericórdia no Santuário de Santo Spirito in Sassia.
Saúdo a Musikverein Kleinraming, da Diocese de Linz, na Áustria, e os fiéis vindos da Polónia; também os jovens do Collège Saint Jean de Passy, de Paris, e os de diversas nacionalidades do Movimentos dos Focolares. Saúdo a peregrinação da comunidade de San Benedetto Po e os crismandos de Santarcangelo di Romagna e San Vito.
Amanhã partirei para uma viagem apostólica de dez dias a quatro países africanos: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Peço-vos, por favor, que me acompanheis com as vossas orações. Obrigado!
Bom domingo a todos!
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ORAÇAO DO SANTO ROSÁRIO PARA INVOCAR A PAZ , VIGÍLIA DE ORAÇÃO PELA PAZ
ORAÇAO DO SANTO ROSÁRIO PARA INVOCAR A PAZ
VIGÍLIA DE ORAÇÃO PELA PAZ
REFLEXÃO DO PAPA LEÃO XIV
Basílica de São Pedro
Sábado, 11 de abril de 2026
Queridos irmãos e irmãs,
a vossa oração é expressão daquela fé que, segundo a palavra de Jesus, move as montanhas (cf. Mt 17, 20). Obrigado por terdes acolhido este convite, reunindo-vos aqui, junto ao túmulo de São Pedro, e em tantos outros lugares do mundo para invocar a paz. A guerra divide, a esperança une. A prepotência oprime, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina. Caríssimos, basta um pouco de fé, uma migalha de fé, para enfrentarmos juntos, como humanidade e com humanidade, este momento dramático da história. A oração não é, com efeito, um esconderijo para fugir às nossas responsabilidades, nem um anestésico para evitar a dor que tanta injustiça desencadeia. É, pelo contrário, a resposta mais gratuita, universal e revolucionária à morte: somos um povo que já ressurge! Em cada um de nós, em cada ser humano, o Mestre interior ensina a paz, impele ao encontro, inspira a invocação. Elevemos, pois, o olhar! Levantemo-nos das ruínas! Nada nos pode encerrar num destino já escrito, nem mesmo neste mundo em que os sepulcros parecem não ser suficientes, porque se continua, sem direito e sem piedade, a crucificar e a aniquilar a vida.
São João Paulo II, testemunha incansável da paz, afirmou com emoção, no contexto da crise iraquiana de 2003: «Eu pertenço à geração que viveu a segunda guerra mundial e lhe sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos que são mais jovens do que eu, que não tiveram esta experiência: “Nunca mais a guerra”, como disse Paulo VI na sua primeira visita às Nações Unidas. Devemos fazer tudo o que é possível! Sabemos bem que a paz não é possível a qualquer preço. Mas sabemos todos como é grande esta responsabilidade» (Angelus, 16 de março de 2003). Esta tarde, faço meu o seu apelo, que é tão atual.
A oração ensina-nos a agir. Na oração, as limitadas possibilidades humanas unem-se às infinitas possibilidades de Deus. Pensamentos, palavras e obras rompem, assim, a cadeia demoníaca do mal e colocam-se ao serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão. Temos aqui uma barreira contra esse delírio de omnipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta. Os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte. Desaparece, assim, um mundo de irmãos e irmãs com um único Pai nos céus e, como num pesadelo, a realidade enche-se de inimigos. Por toda a parte, em vez de chamados à escuta e ao encontro, sentem-se ameaças. Irmãos e irmãs, quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo (cf. Sl 115, 4-8), ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe.
Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida. São João XXIII, com simplicidade evangélica, escreveu: «as suas vantagens [da paz] se farão sentir a todos: aos indivíduos, às famílias, aos povos e a toda a comunidade humana». E, repetindo as palavras lapidares de Pio XII, acrescentava: «Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra» (Carta Encíclica Pacem in terris, 116).
Unamos, por isso, as forças morais e espirituais de milhões, de milhares de milhões de homens e mulheres, de idosos e de jovens que hoje acreditam na paz, que hoje optam pela paz, que cuidam das feridas e reparam os danos deixados pela loucura da guerra. Recebo muitas cartas de crianças das zonas de conflito: ao lê-las, percebe-se, com a verdade da inocência, todo o horror e a desumanidade das ações que alguns adultos exaltam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!
Queridos irmãos e irmãs, certamente há responsabilidades inalienáveis que incumbem aos governantes das nações. A eles, nós clamamos: parai! É tempo de paz! Sentai-vos às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeia o rearmamento e se deliberam ações de morte! Existe, porém, uma responsabilidade, não menos importante, que recai sobre todos nós, homens e mulheres de tantos países diferentes: uma imensa multidão que repudia a guerra, com obras, e não apenas com palavras. A oração compromete-nos a converter o que resta de violência nos nossos corações e nas nossas mentes: convertamo-nos a um Reino de paz que se edifica dia após dia, nas casas, nas escolas, nos bairros, nas comunidades civis e religiosas, tirando espaço à polémica e à resignação com a amizade e a cultura do encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa política. Formemo-nos e impliquemo-nos em primeira pessoa, cada um respondendo à sua vocação. Cada um tem o seu lugar no mosaico da paz!
O Terço, tal como outras formas de oração muito antigas, uniu-nos esta tarde no seu ritmo regular, marcado pela repetição: assim a paz vai ganhando espaço, palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura, como a tecelagem no tear, que avança movimento após movimento. São os longos tempos da vida, sinal da paciência de Deus. Precisamos de não nos deixar arrastar pela aceleração de um mundo que não sabe o que persegue, para voltarmos a servir o ritmo da vida, a harmonia da criação, curando as suas feridas. Como nos ensinou o Papa Francisco, «há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com inventiva e ousadia, processos de cura e de um novo encontro» (Carta Encíclica Fratelli tutti, 225). Existe, efetivamente, «uma “arquitetura” da paz, na qual intervêm as várias instituições da sociedade, cada uma dentro de sua competência, mas há também um “artesanato” da paz que nos envolve» (ibid., 231).
Queridos irmãos e irmãs, voltemos para casa com este compromisso de rezar sempre, sem desanimar, e de uma profunda conversão do coração. A Igreja é um grande povo ao serviço da reconciliação e da paz, que vai em frente sem titubear, mesmo quando a rejeição da lógica bélica lhe pode custar incompreensão e desprezo. Ela anuncia o Evangelho da paz e educa para obedecer a Deus antes do que aos homens, especialmente quando se trata da infinita dignidade de outros seres humanos, posta em risco pelas contínuas violações do direito internacional. «Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia» (Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2026).
Irmãos e irmãs de todas as línguas, povos e nações: somos uma única família que chora, espera e se levanta. «Nunca mais a guerra, aventura sem retorno; nunca mais a guerra, espiral de lutos e violência» (São João Paulo II, Oração pela paz, 2 de fevereiro de 1991).
Caríssimos, que a paz esteja com todos vós! É a paz de Cristo ressuscitado, fruto do seu sacrifício de amor na cruz. Por isso, dirigimos-lhe a nossa súplica:
Senhor Jesus,
vencestes a morte sem armas nem violência:
derrotastes o seu poder com a força da paz.
Dai-nos a vossa paz,
tal como às mulheres perplexas na manhã da Páscoa,
tal como aos discípulos escondidos e amedrontados.
Enviai o vosso Espírito,
sopro que dá vida, que reconcilia,
que torna irmãos e irmãs os adversários e os inimigos.
Inspirai-nos a confiança de Maria, vossa Mãe,
que, com o coração despedaçado, permaneceu ao pé da vossa cruz,
firme na fé de que teríeis ressuscitado.
Que a loucura da guerra tenha fim
e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda
sabem gerar, guardar, amar a vida.
Ouvi-nos, Senhor da vida!
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Papa aos fiéis antes da Vigília de Oração: nós somos os portadores da paz ao mundo
Andressa Collet - Vatican News
O Papa Leão XIV, antes da Vigília de Oração neste sábado (11/04), encontrou os fiéis presentes na Praça São Pedro, deu as boas-vindas e fez uma saudação "muito fraterna" e calorosa a todos, primeiramente agradecendo pela presença, por terem respondido ao convite para "nos unirmos todos com a nossa voz, com os nossos corações, com a nossa vida, para rezar pela paz":
“Todos nós temos a paz em nossos corações. Que a paz reine verdadeiramente em todo o mundo e que sejamos nós os portadores dessa mensagem. Deus nos escuta, Deus nos acompanha, Jesus nos disse: 'onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, Ele está presente entre nós'. Nestes dias da Oitava da Páscoa, nós acreditamos profundamente na presença de Jesus ressuscitado entre nós.”
Ao final do rápido encontro, Leão XIV concedeu a bênção e renovou o convite para rezar juntos, invocando a paz no mundo, a partir da Basílica Vaticana e pelos telões na Praça São Pedro. A Vigília de Oração, que também recebeu a imagem de Santa Maria Regina Pacis da paróquia romana do bairro de Monteverde dedicada a Nossa Senhora sob o título de "Rainha da Paz", foi transmitida ao vivo para o mundo através dos canais do Vatican News em dez idiomas e também na língua de sinais.
(vaticannews)
sábado, 11 de abril de 2026
Papa: pela paz, basta com a loucura da guerra, da idolatria de si mesmo e do dinheiro
Andressa Collet - Vatican News
O Papa Leão XIV reuniu o mundo em oração neste sábado, 11 de abril, a partir da Basílica Vaticana com 7 mil pessoas e outras 3 mil que acompanharam pelos telões da Praça São Pedro, para invocar a paz com a força que vem da oração - e através do terço, uma das formas mais antigas que une todos através de um ritmo regular, marcado pela repetição: "assim a paz vai ganhando espaço, palavra após palavra, gesto após gesto, como uma pedra que gota a gota se fura", explicou o Pontífice. A reflexão sobre o poder da oração, que não é "esconderijo" e nem "anestésico" para tanta dor e injustiça, veio ao final da Vigília de Oração pela Paz, expressão "daquela fé que, segundo a palavra de Jesus, move as montanhas", que é resposta "gratuita, universal e revolucionária à morte".
“Obrigado por terem acolhido este convite, reunindo-se aqui, junto ao túmulo de São Pedro, e em tantos outros lugares do mundo para invocar a paz. A guerra divide, a esperança une. A prepotência oprime, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina. Caríssimos, basta um pouco de fé, uma migalha de fé, para enfrentarmos juntos, como humanidade e com humanidade, este momento dramático da história.”
A oração de todos rompe a cadeia demoníaca do mal
Assim como fez Cristo, cada ser humano é convidado a "elevar o olhar" para acolher a paz, mesmo diante de um mundo em que "se continua, sem direito e sem piedade, a crucificar e a aniquilar a vida". Leão XIV, então, trouxe junto com a oração, a força das palavras de João Paulo II, "testemunha incansável da paz", que afirmou com emoção, no contexto da crise iraquiana de 2003: «Eu pertenço à geração que viveu a segunda guerra mundial e lhe sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos que são mais jovens do que eu, que não tiveram esta experiência: “Nunca mais a guerra”, como disse Paulo VI na sua primeira visita às Nações Unidas» (Angelus, 16 de março de 2003). Prevost se uniu ao apelo do Papa polonês, "que é tão atual", e disse:
"A oração ensina-nos a agir. Na oração, as limitadas possibilidades humanas unem-se às infinitas possibilidades de Deus. Pensamentos, palavras e obras rompem, assim, a cadeia demoníaca do mal e colocam-se ao serviço do Reino de Deus: um Reino onde não há espadas, nem drones, nem vinganças, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão. Temos aqui uma barreira contra esse delírio de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressivo à nossa volta. Os equilíbrios na família humana estão gravemente desestabilizados. Até mesmo o Santo Nome de Deus, o Deus da vida, é arrastado para os discursos de morte."
E o Papa Leão XIV voltou a enfatizar que "quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo, ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe":
“Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida.”
Leão XIV também usou da "simplicidade evangélica" de São João XXIII para enaltecer as "vantagens da paz" que beneficiam toda a comunidade humana e das "palavras lapidares" de Pio XII que afirmava: «Nada se perde com a paz, mas tudo pode ser perdido com a guerra». Prevost, assim, pediu a união das "forças morais e espirituais de milhões, de milhares de milhões de homens e mulheres, de idosos e de jovens que hoje acreditam na paz, que hoje optam pela paz, que cuidam das feridas e reparam os danos deixados pela loucura da guerra". Como acontece com as crianças inocentes que sofrem nas zonas de conflito com "todo o horror e a desumanidade das ações que alguns adultos exaltam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!", apelou o Pontífice.
Uma responsabilidade "inalienável que incumbe aos governantes das nações", disse o Papa, a quem "clamamos: parem! É tempo de paz! Sentem-se às mesas do diálogo e da mediação, não às mesas onde se planeia o rearmamento e se deliberam ações de morte!". Responsabilidade "não menos importante" também nossa, de "homens e mulheres de tantos países diferentes: uma imensa multidão que repudia a guerra, com obras, e não apenas com palavras". Daí o pedido de Leão XIV para nos comprometermos com a oração para invocar a paz "nas casas, nas escolas, nos bairros, nas comunidades civis e religiosas, tirando espaço à polêmica e à resignação com a amizade e a cultura do encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa política". Na "paciência de Deus", acrescentou o Pontífice, rezar e curar as feridas como os "artesãos de paz" citatos pelo Papa Francisco na Fratelli tutti.
Nunca mais a guerra, mas casas de paz
Antes de Leão XIV suplicar ao Senhor "que a loucura da guerra tenha fim e que a Terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem gerar, guardar, amar a vida", ele pediu que todos voltem "para casa com este compromisso de rezar sempre, sem desanimar, e de uma profunda conversão do coração. A Igreja é um grande povo ao serviço da reconciliação e da paz, que vai em frente sem titubear, mesmo quando a rejeição da lógica bélica lhe pode custar incompreensão e desprezo". Diante das "contínuas violações do direito internacional" que colocam em risco a dignidade das pessoas, «é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia»:
“Irmãos e irmãs de todas as línguas, povos e nações: somos uma única família que chora, espera e se levanta. «Nunca mais a guerra, aventura sem retorno; nunca mais a guerra, espiral de lutos e violência» (São João Paulo II, Oração pela paz, 2 de fevereiro de 1991).”