O papa Leão XIV exortou hoje (8) os cardeais a viver o consistório extraordinário como um tempo de discernimento espiritual em unidade e alertou contra a tentação de colocar interesses particulares acima do bem comum.

“Não estamos aqui para promover ‘agendas’ – pessoais ou de grupo –, mas para confiar os nossos projetos e inspirações ao juízo de um discernimento que nos ultrapassa ‘tanto quanto os céus estão acima da terra’ (Is 55, 9) e que só pode vir do Senhor”, disse o papa na homilia da missa que celebrou hoje de manhã na basílica de São Pedro, no Vaticano, com os cardeais presentes em Roma para esse importante encontro eclesial de dois dias, convocado para ajudá-lo a tomar decisões sobre o futuro da Igreja.

Leão XIV exortou os cardeais a viver a Eucaristia como o lugar onde esse discernimento é purificado e transformado, pedindo-lhes que coloquem todos os seus “desejos e pensamentos no altar”.

Para realmente ouvir a voz de Deus

“Com efeito, só assim saberemos realmente ouvir a sua voz, acolhendo-a no dom que somos uns para os outros: motivo pelo qual nos reunimos”, disse ele.

O papa relacionou essa visão à espiritualidade da comunhão, dizendo que o amor cristão é “trinitário” e “relacional”, e citou o papa são João Paulo II, que o definiu como “um olhar do coração, sobretudo, voltado para o mistério da Trindade que habita em nós”.

Este consistório extraordinário — diferente dos ordinários, que são mais limitados e frequentes — foi organizado, logo depois do término do Jubileu da Esperança, para "oferecer apoio e aconselhamento ao Santo Padre no exercício de sua elevada e árdua responsabilidade de governar a Igreja", segundo um comunicado da Santa Sé.

São João Paulo II convocou seis consistórios extraordinários em seus 26 anos de pontificado, enquanto o papa Bento XVI optou por reuniões consultivas com os cardeais nas vésperas dos consistórios ordinários. No total, ele fez três dessas reuniões em seu pontificado.

Em seus 12 anos como papa, Francisco só fez um consistório extraordinário, em 20 de fevereiro de 2014, que se concentrou principalmente na família e no matrimônio, antes do Sínodo da Família realizado naquele mesmo ano.

Diferentemente de seu antecessor, que preferia consultar um pequeno conselho, Leão XIV convocou todo o Colégio de Cardeais para ajudá-lo a governar a Igreja universal.

Evangelização e sinodalidade: temas que serão abordados

Espera-se que os cardeais apresentem ao papa suas opiniões sobre dois temas específicos: o Sínodo e a sinodalidade, e a missão de evangelização e o caráter missionário da Igreja à luz da exortação apostólica Evangelii gaudium, escrita pelo papa Francisco. Inicialmente, os encontros teriam discussões sobre temas como a liturgia e a constituição apostólica Praedicate evangelium, mas as restrições de tempo limitaram os assuntos a serem abordados.

O papa falou sobre o próprio significado do consistório, dizendo que a palavra latina consistorium se refere à ideia de “parar”.

“Efetivamente, todos nós paramos para estar aqui: interrompemos por algum tempo as nossas atividades e renunciamos a compromissos importantes, para nos reunirmos e discernirmos o que o Senhor nos pede para o bem do seu Povo”, disse Leão XIV. 

Não uma equipe de especialistas, mas uma comunidade de fé

Em sua homilia, o papa disse aos presentes que o encontro não é uma "equipe de especialistas", mas "uma comunidade de fé, na qual os dons que cada um traz, oferecidos ao Senhor e por Ele restituídos, produzam, segundo a sua Providência, o máximo fruto".

Leão XIV citou as palavras do papa são Leão Magno para enfatizar a dimensão comunitária do serviço eclesial: "Então – dizia ele –, os famintos são alimentados, os nus são vestidos, os doentes são visitados, e ninguém busca os próprios interesses, mas os dos outros» (Sermões, 88, 4)".

Falando sobre os desafios do mundo atual, marcado por profundas desigualdades e uma generalizada "fome de bem e paz", o papa falou sobre o sentimento de inadequação diante da missão, mas encorajou a enfrentá-la juntos, confiando na Providência.