O papa Leão XIV vai amanhã (23) a Acerra, Itália — um dos três vértices do chamado "triângulo da morte", epicentro de uma crise sanitária e ambiental causada pelo descarte ilegal de resíduos tóxicos pela máfia local.

Para marcar o aniversário da  Laudato si', encíclica do papa Francisco sobre o cuidado com a criação, Leão XIV se reune amanhã com a comunidade de Acerra e arredores, incluindo pessoas que perderam parentes por causa da poluição.

“A visita do papa é certamente um momento de grande coragem e força para uma população que muitas vezes se sente sozinha diante de um problema de enormes proporções”, disse a advogada local Valentina Centonze à EWTN News.

Centonze, que monitora o cumprimento de ordens judiciais de descontaminação da área, disse: “Ninguém consegue imaginar resolver esta situação sozinho. A solidariedade do Santo Padre à nossa terra é, assim, uma fonte de conforto e apoio, mas também um alerta às autoridades, instando-as a compreender plenamente o sofrimento deste povo e a empregar todos os meios necessários para abordar seriamente a questão”.

A Terra dos Fogos

Acerra e a área circundante de cerca de 1.036 km² — apelidada de Terra dos Fogos (Terra dei Fuochi em italiano) — ficam a nordeste da cidade de Nápoles, cerca de 225 km ao sul de Roma.

O território tem incidência acima da média de tumores cancerígenos e malformações congênitas, que estudos associaram ao despejo de milhões de toneladas de resíduos tóxicos provenientes de fábricas do norte da Itália — pelas mãos de grupos do crime organizado, como os clãs da Camorra, a facção criminosa organizada de Nápoles — e as queimadas de lixo que liberam dioxinas e bifenilas policloradas (PCBs) altamente tóxicos no ar e na cadeia alimentar da região predominantemente agrícola.

“Estamos no sul da Itália, uma região historicamente assolada por problemas sociais, desemprego, criminalidade e uma economia frágil”, disse o bispo de Acerra, Antonio Di Donna, à EWTN News. “A isso se soma o desastre ambiental, que causou doenças e mortes”.

“O maior desafio é lidar com uma situação precária, especialmente do ponto de vista da saúde”, disse ele. “Estamos lidando com famílias marcadas pelo luto, com jovens e crianças que adoecem e morrem. Isso é um fardo adicional numa situação já difícil”.

Em sua visita de cerca de três horas a Acerra, o papa Leão XIV visitará a catedral, onde discursará para bispos, padres, religiosos, e famílias que perderam entes queridos ou que atualmente sofrem de doenças relacionadas à crise ambiental.

“Estávamos profundamente empenhados em garantir que ele pudesse oferecer-lhes uma palavra de conforto”, disse o bispo.

Em seguida, o papa vai à praça principal da cidade, onde discursará para prefeitos e moradores do território antes de voltar a Roma de helicóptero.

“Espero que a visita do papa dê um novo impulso para manter o assunto em evidência e fortalecer nosso compromisso”, disse Di Donna.

Uma terra envenenada

Angelo Venturato, cuja filha Maria Venturato morreu em 2016 aos 25 anos devido a um raro tumor na perna, estará entre a multidão na catedral amanhã.

“Depois da morte de Maria, eu também fiquei doente: tive um tumor, felizmente benigno”, disse Venturato à EWTN News. “Mas sem a fé, eu não estaria aqui hoje. A fé me ajudou a não me isolar na minha dor. Ela me deu forças para continuar levando alegria aos outros”.

“O lado positivo hoje é que as pessoas tomaram consciência do que aconteceu em Acerra”, disse ele. “Existem associações, grupos de voluntários, mães e cidadãos que trabalham diariamente para defender a região. Sabemos que esta terra foi envenenada, mas não vamos desistir”.

Depois da morte da filha, Venturato criou uma associação para ajudar outras pessoas que estivessem passando pela mesma situação que ele e sua família.

O nome, Se Allunghi la Mano Troverai la Mia (Se você estender a mão, encontrará a minha), foi inspirado por Maria, que o encorajou com essa frase antes de morrer.

“Hoje, oferecemos transporte gratuito para ajudar pessoas doentes a chegar a hospitais e centros de tratamento, especialmente pacientes com câncer e crianças”, disse Venturato. “Nunca deixamos ninguém sozinho: acompanhamos, esperamos com eles nos tratamentos e os levamos para casa”.