Andressa Collet - Vatican News
Um dos eventos de maior expectativa para a povo de Camarões, que recebeu o Papa Leão XIV para um Encontro pela Paz em Bamenda, região anglófona que há uma década vive uma crise marcada por tensões separatistas, violência e deslocamentos, foi promovido nesta quinta-feira (16/04). De fato, fala-se de 500 mil os refugiados e requerentes de asilo em países vizinhos como Sudão e República Democrática do Congo. Um lugar de insistente tensão e sofrimento devido à fragmentação política e tribal que viu as facções separatistas locais anunciarem uma trégua baseada na "responsabilidade, moderação e respeito pel dignidade humana" para a realização da agenda do Papa em Bamenda.
A luz do mundo em meio à terra ensanguentada
A Catedral de São José, sede da arquidiocese local, foi o local destinado ao Encontro pela Paz que reuniu chefes tradicionais, representantes da Igreja protestante e também membros islâmicos, além da comunidade católica de consagrados e leigos. Após cantos e testemunhos locais, inclusive de uma consagrada que foi sequestrada e de uma família de deslocados internos, o Papa refletiu sobre as histórias de dor contadas em primeira pessoa que refletem o que é vivido por uma terra "atormetada", "ensanguentada", "ultrajada". Apesar de tantas provações e obstáculos, porém, o Pontífice reconheceu o quanto foi feito para manter "caminhos do bem", demonstrando "a consciência de que Deus nunca nos abandonou! N’Ele, na sua paz, podemos sempre recomeçar!".
Leão XIV disse que, sim, é ele quem está "aqui para anunciar a paz, mas constato de imediato que são vocês que a anunciam a mim e ao mundo inteiro". Basta perceber que "a crise que abalou estes territórios dos Camarões aproximou mais do que nunca as comunidades cristãs e muçulmanas", num Movimento pela Paz para procurar mediar entre as partes adversárias:
"Quanto gostaria que assim acontecesse em tantos lugares do mundo! O seu testemunho, o seu trabalho pela paz podem servir de exemplo para o mundo inteiro. Jesus nos disse: Bem-aventurados os construtores da paz! Porém, ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso. Sim, minhas queridas irmãs e irmãos, vós que tendes fome e sede de justiça, vós, os pobres, os misericordiosos, os mansos e os puros de coração, vós que chorastes, vós sois a luz do mundo! (cf. Mt 5, 3-14)."
Basta um instante para destruir e uma vida inteira para reconstruir
O Papa, então, encorajou Bamenda a continuar sendo "o sal que dá sabor a esta terra", valorizando o que aproximou todos na hora da dor. como fazem "todos aqueles – em particular as mulheres, leigas e religiosas – que cuidam das pessoas traumatizadas pela violência. É um trabalho imenso, invisível, quotidiano e exposto a perigos", como recordou a própria Irmã Carine Tangiri Mangu em testemunho ao Papa, sequestrada por três dias em novembro do ano passsado:
"Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir. Fingem não ver que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer. Quem saqueia os recursos da terra de vocês, geralmente investe grande parte dos lucros em armas, numa espiral de desestabilização e morte sem fim. É um mundo ao contrário, uma subversão da criação de Deus."
Sirvamos juntos a paz!
Leão XIV agradeceu à missão de tantas pessoas que decidiram "estar com os outros e ser para os outros", remetendo às palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, que exortou a "caminhar juntos, cada um na sua vocação", começando pelo trabalho local "para chegar a amar o próximo, seja quem for e onde quer que esteja. É a revolução silenciosa da qual vocês são testemunhas!", disse Leão XIV. "Sigamos em frente sem nos cansarmos, com coragem e, acima de tudo, juntos, sempre juntos!", encorajou o Pontífice, "sirvamos juntos a paz!":
"O mundo é destruído por poucos dominadores e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários! São a descendência de Abraão, incontável como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar. Olhemo-nos nos olhos: somos já este povo imenso! A paz não é algo a inventar: é algo a acolher, acolhendo o próximo como nosso irmão e como nossa irmã. Ninguém escolhe os seus irmãos e irmãs: devemos apenas acolher-nos uns aos outros! Somos uma única família e habitamos a mesma casa, este maravilhoso planeta de que as culturas antigas cuidaram durante milênios."
Que a paz de Deus reine nesta terra
Ao final do Encontro pela Paz, o Papa se dirigiu para a frente da Catedral de São José. Com uma pomba branca em mãos, assim como faziam outras sete pessoas representantes da comunidade local, Leão XIV falou algumas palavras improvisadas antes de soltá-la:
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