11 de ago de 2026 às 15:57
Um drone armado e zumbindo paira sobre o campo de batalha, seus sensores buscando com fria precisão o próximo alvo. Com o apertar de um botão, um soldado em terra ativa o “modo exterminador”, liberando a máquina implacável para buscar e destruir tudo — e todos — que ela considerar um inimigo.
Isso não é mais ficção científica. Possivelmente aconteceu já há dois anos, num teste de armamento na Ucrânia, matando vários soldados russos.
Acredita-se que o incidente, divulgado em junho pelo diretor-executivo de uma empresa ucraniana de drones, é a primeira baixa totalmente automática em combate. E com superpotências mundiais investindo dezenas de bilhões de dólares em tecnologia de armas autônomas, os robôs assassinos podem estar do uso generalizado.
Em meio a essa pressão, a Igreja emergiu como uma das vozes mais consistentes contra a proliferação de sistemas de armas autônomas letais (LAWS, na sigla em inglês), enfatizando que as decisões de vida e morte na guerra não podem ser confiadas às máquinas.
Mas, quando se trata da questão de saber se a IA tem algum lugar na guerra moderna, a resposta, de uma perspectiva católica, é menos clara. E, à medida que líderes militares dos EUA alegam que a aparente inevitabilidade do uso de armas autônomas por adversários obriga as forças armadas dos EUA a fazerem o mesmo, fica a questão de saber se os soldados terão liberdade de seguir suas consciências e optar por não usar essas armas de forma imoral.
Doutrinas da Igreja sobre 'robôs assassinos'
Embora o Catecismo da Igreja Católica diga que "o mal e as injustiças acompanham todas as guerras", a Igreja diz também que os indivíduos e os países têm o direito à autodefesa contra um agressor injusto e podem usar força letal, se necessário.
A aplicação da doutrina da Igreja aos LAWS, especificamente, baseia-se no fato de que, para que uma decisão de vida ou morte em tempos de guerra seja justa, ela deve ser tomada por uma pessoa humana como último recurso em casos de legítima defesa. Essas decisões não podem ser confiadas só a máquinas.
Em sua encíclica Magnifica humanitas, de maio deste ano, o papa Leão XIV disse categoricamente que "não é permitido confiar decisões letais ou irreversíveis a sistemas artificiais" e expressou preocupação com a possibilidade de a IA tornar a guerra mais "viável".
“A inteligência artificial não elimina a desumanidade intrínseca do conflito; na verdade, ela só pode provocar conflitos mais rapidamente e torná-los mais impessoais, diminuindo o limiar para o recurso à violência, transformando a defesa em previsão de ameaças e, assim, reduzindo as vítimas a meros dados. Desse modo, ela nos acostumará à ideia de que a violência é inevitável e só precisa ser otimizada", escreveu o papa.
Charles Camosy, teólogo moral e professor da Catholic University of America, tem se manifestado frequentemente em defesa da visão da Igreja sobre os LAWS e diz que o momento atual é uma “grande oportunidade” para disseminar a visão católica sobre a dignidade humana na guerra. Em março, ele se uniu a outros teólogos morais e especialistas em ética para apoiar publicamente a decisão da empresa de inteligência artificial Anthropic de rejeitar as exigências do Departamento de Defesa dos EUA sobre sua tecnologia relacionada à vigilância em massa e armas autônomas.
Num depoimento recente sobre armas autônomas para a Comissão de Direitos Humanos Tom Lantos (TLHRC) do Congresso dos EUA, Camosy disse que qualquer uso de IA na guerra deve preservar o julgamento humano — não só no sentido de assumir a responsabilidade por decisões ou erros cometidos por armas de IA, mas, principalmente, preservando a capacidade dos soldados de reconhecer seus adversários como seres humanos feitos à imagem de Deus.
“Todo ser humano, em todos os lados de todos os conflitos, tem direito à dignidade de ser visto e reconhecido como pessoa, e não processado como um dado”, disse Camosy em seu depoimento.
Joseph Capizzi, diretor do Instituto McGrath para a Vida da Igreja na Universidade Notre-Dame e especialista em teoria da guerra justa, expressou uma opinião semelhante, dizendo que nenhum sistema jamais poderá substituir completamente o julgamento humano.
“Independentemente do nível de sofisticação, um programa não consegue compreender a humanidade de uma potencial vítima da mesma forma que outro ser humano”, disse ele ao jornal National Catholic Register, da EWTN. “Essa potencial vítima só pode ser um mero dado num cálculo… As decisões que a IA toma não são julgamentos; elas não envolvem os modos plenamente humanos de informar e engajar a consciência para a ação”.
As armas de inteligência artificial são inevitáveis?
A posição da Igreja contra os LAWS não está em desacordo com o sentimento público: organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas pediram explicitamente a proibição desses chamados robôs assassinos, e pelo menos três quartos dos americanos (75%) concordam que as decisões que envolvem o uso de força letal na guerra “não devem ser deixadas inteiramente a cargo de sistemas de inteligência artificial”, segundo pesquisas de opinião recentes.
(acidigital)
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