sexta-feira, 6 de março de 2020

Retiro espiritual, Bovati: o pastor vele sempre quem é mais frágil


Na oitava meditação dos Exercícios espirituais da Quaresma em Ariccia, que o Papa Francisco acompanha do Vaticano, o pregador padre Pietro Bovati se deteve, na tarde de quinta-feira (05/03), sobre o tema "A intercessão". Na sua oração, afirmou, o intercessor alcança a misericórdia de Deus e a transmite. Aquele que tem responsabilidade na Igreja é chamado a "defender, promover e edificar os pequenos"

Giada Aquilina, Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano

Quanto mais há pecado, mais se multiplica a misericórdia de Deus. Foi a reflexão do secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, padre Pietro Bovati, na tarde de quinta-feira (05/03), na oitava meditação dos Exercícios espirituais em Ariccia para a Cúria Romana, que o Papa Francisco acompanha da Casa Santa Marta, no Vaticano.
À luz do Livro do Êxodo, do Evangelho de Mateus e da oração dos Salmos, o jesuíta se deteve sobre o tema “A intercessão”, entendida como “aquela intervenção amorosa” que é exercida em favor daquelas pessoas que “precisam de perdão e de reconciliação com Deus”.

O serviço da misericórdia
Trata-se, explicou, do “ministério mais espiritual”, seja por que tem por objeto uma necessidade e uma finalidade que “tocam o coração”, “o secreto da pessoa”, seja porque “mais do que qualquer outra”, pressupõe uma “verdadeira familiaridade com Deus”, dado que se dirige a quem se encontra “espiritualmente em dificuldade porque está no pecado”.
Os sacerdotes, recordou padre Bovati, são chamados ao “ministério da reconciliação”, exercitando-o no Sacramento, que deve ser vivido com “empenho”, “dedicação” e “amor”. O serviço da misericórdia, precisou o religioso, investe também “a existência de uma comunidade inteira”, “de quem quer que seja na Igreja em oração” se torne “disponível ao exercício profético da reconciliação”.
O padre jesuíta convidou a examinar o capítulo 32 do Êxodo, versículos 7-14, reiterando que o pecado “só é conhecido verdadeiramente na oração, no encontro face a face com o Senhor”: é “olhando a face de Deus”, é “ouvindo a sua voz” que se compreende “a gravidade do pecado”, como ato “contra Deus” e contra os “outros”.
O pecador, aliás, “não se dá conta daquilo que fez”, por ignorância, por superficialidade ou “por uma terrível dependência do mal”, quando se é “prisioneiros de vícios compulsivos” que impedem “decisões sensatas”.Description: etiro espiritual: a oração sincera é arma poderosa para o advento do Reino

A oração de intercessão
Quem reza, propriamente intuindo a “periculosidade” do pecado, percebe “olhando e ouvindo Deus a necessidade que Deus mesmo tem de “ser misericordioso”. É olhando o Senhor que se sente “chamados a um amor pelo pecador visto com os olhos” de Deus.
O orante, “justamente porque olha a face” do Senhor, é levado “a identificar-se” com o pecador, acabando por “assumir sobre si o mal dos outros”, a exemplo de Cristo. “A oração que leva a compreender a gravidade do pecado” e o “dever urgente” de socorrer tal pecado “introduz, impele e promove” uma “oração especial ao Senhor”, a oração de “intercessão”.

Oferecer a Deus a nossa miséria
Nos textos bíblicos, explicou o teólogo, “a oração que o intercessor dirige a Deus é um “pedido”, uma “súplica” a fim de que o Senhor perdoe. Olhando bem, acrescentou, todo pedido a Deus se mostra “impróprio”, como se Deus tivesse que fazer “aquilo que o orante pede”, o “impertinente” porque parece “sugerir que o Senhor não se recorde o bem que tem a fazer”.
Porém, observou o pregador, a Escritura ensina que “Deus cumpre antes que o pedido chegue aos lábios. Ele sabe aquilo de que precisamos”. Mesmo assim devemos pedir, exortou, “porque assim nos conscientizamos das nossas necessidades”, “experimentamos a necessidade”, apresentamos a Ele “as nossas feridas”, nossos sofrimentos, de modo que nos é dado sentir  Sua compaixão”, “saborear” o Seu amor “que ouve e realiza”.

Da ira à misericórdia
A intercessão, por conseguinte, “olha a face de Deus” e assiste a uma “mudança”: a passagem “da ira à misericórdia”, à “ternura”, de modo que se opere uma “mudança radical” no próprio coração. A oração de intercessão expressa uma “progressiva docilidade do mediador no acolher a infinita bondade de Deus” e, acolhendo-a em si,  torna-se “testemunha e instrumento daquela misericórdia”, evidenciou padre Bovati.
A intercessão, em suma, vê “o emergir de um desejo de Deus de salvar o homem”, a fim de que no mundo “todos possam ser atraídos pela luz da misericórdia se beneficiando do mesmo perdão”.

Uma transmissão de misericórdia
Na sua oração o intercessor alcança a misericórdia de Deus: daí leva a cabo uma série de “ações”, “modalidades”, “atitudes” e “operações” que são necessárias “para fazer de modo que os pecadores tenham acesso ao dom da divina misericórdia”.
Para ilustrar o processo “concreto” do exercício da divina misericórdia “mediada por seu ministro” e “realizado com o perdão”, o pregador propôs o discurso de Jesus no capítulo 18 do Evangelho de Mateus.
Parte da atenção “ao pequeno”, ou seja, a pessoa vulnerável, frágil, fraca que não deve ser desprezada. “Aquele que tem responsabilidade na Igreja” é chamado a ter uma “atitude paterna”, com atenção a “quem é mais pequenino”.
Nestes dias, em que “a problemática dos abusos contra menores”, contra pessoas “frágeis é mais do que nunca atual”, a solicitude “dos grandes” se faz “mais incisiva e necessária”, chamados que são a “defender, a promover e edificar os pequenos”, refletiu padre Bovati.
Mas também na parábola da ovelha perdida, prosseguiu, Jesus indica “a falha da ativa responsabilidade do pastor, do grande que deveria tomar conta do pequeno”. Faltou “vigilância”, “cuidado pessoal”, “solícita” atenção.
A “fragilidade do pequeno se conjuga com a negligência do pastor”, mas isso “não determina o êxito infeliz da parábola, aliás, é propriamente a ocasião para ativar a iniciativa do pastor que sai para procurar a ovelha perdida”. Isto é, “fazer o pecador retornar”.

Os mediadores
O pregador esclareceu que o procurar a ovelha perdida se explica no mesma passagem evangélica, quando Pedro pergunta ao Senhor quantas vezes deve perdoar o irmão em caso de pecado contra ele.
Jesus, recordou o teólogo, faz emergir a responsabilidade tanto do pecador quanto da pessoa ofendida. “O procurar o irmão que se perdeu se realiza segundo esse texto de Mateus com o exercício do diálogo”, do falar, do iniciar um “processo gradual” que convença o pecador passando do “colóquio pessoal” ao “envolvimento de testemunhas”, de “mediadores que corroborem o desejo de reconciliação e o favoreçam”, até o envolvimento “de toda a comunidade”.
A finalidade alcançada pela missão reconciliadora, ressaltou o religioso jesuíta, se “torna visível” na oração comunitária. O Salvador realiza a sua missão propriamente porque os pastores são “mediadores”, “unem” a comunidade.

Artífices de perdão
Quando o apóstolo Pedro pergunta: “Quantas vezes devo perdoar o meu irmão?”, Jesus encoraja “a não cansar-se”, tornando, portanto, num certo sentido “permanente” o “ministério da reconciliação”.
O número 70 vezes 7 é compreendido como “multiplicação”, quase que a todo limite se deva contrapor uma “superação inimaginável, “quanto mais há pecado, mais a misericórdia se multiplica”.
Na Igreja Pedro é a testemunha desta misericórdia. De fato, se recorda d’ele o pecado da “renegação”, se recorda o seu pranto, o seu arrependimento “de modo que a sua experiência se torne o emblema da Igreja e de todo cristão que perdoado se torna artífice de perdão”.

(vaticannews)
05/03/2020

quinta-feira, 5 de março de 2020

Exercícios Espirituais: na travessia noturna, o socorro está na Palavra de Deus



Na quinta meditação dos Exercícios Espirituais da Quaresma em Ariccia, que o Papa Francisco segue do Vaticano, o pregador Pe. Bovati aprofunda o tema da “travessia noturna” que pode intimidar e suscitar dúvidas sem a âncora de salvação representada pela Palavra de Deus.

Andressa Collet – Cidade do Vaticano

As pessoas hoje “têm medo porque se sentem ser de pó”: o antídoto desse medo não é “uma compensação” calibrada sobre os genéricos “valores humanos”, mas é somente a Palavra de Deus que aparece na história dos homens e os encoraja concretamente, indicando a direção para “a travessia noturna”, sem atalhos ou varinhas mágicas. Sobretudo “no momento em que se experimenta a dificuldade ou mesmo o desastre”.

Meditação desta quarta-feira de manhã

Os textos extraídos do livro do Êxodo (14, 1-31) e do Evangelho de Mateus (14, 22-32), propostos por Pe. Pietro Bovati na manhã desta quarta-feira (4), foram atualizados com profunda vivacidade durante a quinta meditação dos Exercícios Espirituais para a Cúria Romana que estão sendo realizados na cidade de Ariccia.
A intenção deste dia de oração, confidenciou o pregador, “é de acolher o sentido espiritual de alguns relatos” da Escritura, “trazendo indicações que nos ajudem na missão que o Senhor nos confiou com o nosso chamado sacerdotal e com o chamado de responsabilidade na Igreja”. O jesuíta trouxe novamente o exemplo de Moisés, “o servo de Deus”, “pessoa obediente e também corajosa, dócil e ao mesmo tempo instrumento de docilidade aos outros”. Moisés “é oferecido a nós como modelo para ser imitado”.

A travessia noturna

O Pe. Bovati recordou que o encontro recebeu o título de “travessia noturna”, já que através da palavra “noite”, “somos chamados a entrar numa perspectiva de obscuridade que comporta dimensões de inquietação, de desorientação”. E, ao mesmo tempo, “a noite é o lugar do mistério, onde Deus se manifesta”. Mas há inclusive “o aspecto do caminho que, porém, se apresenta como uma travessia, isto é, como uma estrada que faz passar, como no evento pascal, através de um estreitamento e, como tal, ainda desperta medo e até rejeição”.
No final das contas, acrescentou o pregador, “são temáticas que falam do coração humano, do processo daqueles que estão na dúvida, intimidados e, assim, buscam o socorro na Palavra de Deus, do homem que o Senhor suscitou para completar essa passagem”. Na verdade, “as pessoas têm medo porque se sentem ser de pó. É como a erva do campo, um sopro efêmero: é a experiência de cada homem”.

A força e a coragem que vêm da fé em Deus

Um “sentir” que, explicou o pregador, “acontece também para nós, e pela qual a proposta evangélica é vista como uma orientação de perdedores ou de inconscientes; e, quem tenta percorrer a estrada sente medo, desânimo, muitas vezes desilusão, porque não vê as vantagens prometidas”. A missão do homem de Deus, explicou Pe. Bovati, “é dar força a quem está inseguro, incutindo coragem através da fé em Deus, fazendo com que o coração confie no Senhor, na sua presença e na sua intervenção. É essa a palavra de consolação, que não tem nada a ver com uma simples “compensação” no momento em que se experimenta a dificuldade ou até mesmo o desastre”.
O pregador afirmou ainda que “o poder dado a Moisés não é um poder mágico, não é uma varinha mágica que faz aquilo que quer a quem a usa; o poder divino conferido ao profeta realiza eventos prodigiosos para que eles, antes de tudo, sejam mediações de salvação para os outros, para os indefesos; são destinados apenas ao bem dos pobres: então, é um poder de amor, misericordioso”.

Não tenham medo!

Inclusive no capítulo 14, de Mateus, se fala de “uma travessia do mar feita caminhando sobre as águas” e “de um barco ameaçado pela tempestade”. Assim “retoma o tema da travessia, do perigo, da noite, do medo e da intervenção do Salvador: os discípulos estão sozinhos, assustados, e quando veem Jesus que vem ao encontro deles, ao findar da noite, caminhando sobre o mar, isso, ao invés de tranquilizá-los, aumenta a consternação e o medo porque acreditam de viver uma experiência falsa e terrificante, como aquela quando aparece um fantasma, que é sinal de morte”.
Jesus os encoraja: “não tenham medo”. A mesma coisa deve ser feita por quem hoje testemunha o amor de Deus: “entrar nas casas para dizer ‘sou eu que quero o bem de vocês, que levo a consolação do Senhor’, com a consolação com a qual nós mesmos fomos consolados”.
O Pe. Bovati reconheceu que esse é um ministério, antes de tudo, “misericordioso”, porque é o caminho que leva à vida. Mas “é misericordioso também porque ampara quem tem pouca fé, quem vacila, quem tem medo de desistir”. Então, finalizou o pregador, “nós, no relato, vemos a mão do Cristo, figura da mão poderosa de Deus que se estende sobre o homem de pouca fé, salvando-o das ondas e levando a paz a ele e ao inteiro barco, então, que todos possam aceder à confissão de louvor, dizendo: realmente Tu és o Filho de Deus!”.

(vaticannews)
04/03/2020

Papa Francisco renova seu chamado aos jovens: "Fazei-vos ouvir!"



Vaticano, 05 Mar. 20 / 10:30 am (ACI).- O Vaticano divulgou nesta quinta-feira, 5 de março, a mensagem para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2020, que será realizada em nível diocesano no Domingo de Ramos, 5 de abril.
A mensagem, intitulada “Jovem, Eu te digo, levanta-te!", destaca a importância de mobilizar os jovens para alcançar um mundo caracterizado pela misericórdia e renova o pedido do Santo Padre à juventude: “Hagan lìo – fazei-vos ouvir!”.
Em sua mensagem, o Pontífice explicou o motivo pelo qual escolheu Lisboa, capital de Portugal, para celebrar a Jornada Mundial da Juventude de 2022. Francisco explicou que uma das características da juventude é sua predisposição para aceitar desafios, “para começar de novo".
"Gostais de viajar, cruzar-vos com lugares e rostos nunca vistos antes, viver novas experiências", assinalou. É por isso que Lisboa é uma cidade que pode ser identificada com esses ideais da juventude, porque “de lá, nos séculos XV e XVI, inúmeros jovens, incluindo muitos missionários, partiram para terras desconhecidas a fim de partilhar a sua experiência de Jesus com outros povos e nações".
O Papa refletiu sobre o verbo levantar-se, que ocupa um lugar central no lema da Jornada deste ano, mas também no lema da JMJ de Lisboa: "Maria levantou-se e partiu apressadamente", do Evangelho de São Lucas.
Recordou que o lema "Jovem, Eu te digo, levanta-te!" vem do episódio evangélico da ressurreição de um jovem na cidade de Naim, na Galileia.
Jesus teve compaixão da mãe desse jovem quando viu o cortejo fúnebre, explicou o Santo Padre. “O seu olhar gera o encontro, fonte de vida nova. Não há necessidade de muitas palavras”.
Por isso, o Papa convidou os cristãos a perguntar: “Como é o meu olhar? Vejo com olhos atentos ou como faço ao repassar rapidamente as milhares de fotografias no meu telemóvel ou os perfis sociais?”.
Nesse sentido, lamentou que, com muita frequência no mundo de hoje, seja possível encontrar jovens de vinte anos “a arrastar uma vida decadente, não à altura da própria dignidade. Tudo se reduz a um ‘deixar correr’, contentando-se com qualquer gratificação: um pouco de diversão, algumas migalhas de atenção e carinho dos outros".
“Há também um generalizado narcisismo digital, que influencia tanto jovens como adultos. Muitos vivem assim! Alguns deles talvez tenham respirado ao seu redor o materialismo de quem pensa apenas em ganhar dinheiro e estabelecer-se na vida, como se fossem os únicos objetivos da mesma. A longo prazo, irá inevitavelmente aparecer um surdo mal-estar, uma apatia, um tédio de viver, cada vez mais angustiante”.
Depois de testemunhar o cortejo fúnebre do jovem, Jesus sentiu compaixão. “A comoção de Jesus torna-O participante da realidade do outro. Toma sobre Si a miséria do outro. A dor daquela mãe torna-se a sua dor. A morte daquele filho torna-se a sua morte”, destacou Francisco.
O Papa ressaltou a compaixão dos jovens na sociedade atual: “Basta ver como tantos de vós se doam generosamente, quando as circunstâncias o exigem. Não há desastre, terremoto, inundação que não veja grupos de jovens voluntários mostrarem-se disponíveis para socorrer. Também a grande mobilização de jovens que querem defender a criação dá testemunho da vossa capacidade de ouvir o clamor da terra”.
Além disso, pediu aos jovens que "não deixeis que vos roubem esta sensibilidade". "Se souberdes chorar com quem chora, sereis verdadeiramente felizes".
Jesus interrompeu o cortejo fúnebre, aproximou-se e tocou o jovem, infundindo "o Espírito Santo no corpo morto do jovem e reacende as suas funções vitais".
“Aquele toque penetra numa realidade de desolação e desespero. É o toque do Divino, que passa também através do amor humano autêntico e abre espaços inimagináveis de liberdade, dignidade, esperança, vida nova e plena. A eficácia deste gesto de Jesus é incalculável: lembra-nos que um sinal de proximidade, mesmo simples mas concreto, pode suscitar forças de ressurreição”.
O Pontífice recordou aos jovens: “também vós, jovens, podeis aproximar-vos das realidades de sofrimento e morte que encontrais, podeis tocá-las e gerar vida como Jesus. Isso é possível, graças ao Espírito Santo, se primeiro fordes tocados vós pelo seu amor, se o vosso coração se deixar enternecer pela experiência da sua bondade para convosco”.
O Papa também fez uma interessante reflexão sobre o que o jovem faz assim que volta à vida pelas mãos de Jesus: Começou a falar.
“A primeira reação de uma pessoa que foi tocada e restituída à vida por Cristo é expressar-se, manifestar sem medo nem complexos o que tem dentro: a sua personalidade, os seus desejos, as suas necessidades, os seus sonhos”.
Explicou que “falar significa também entrar em relação com os outros. Quando se está ‘morto’, o indivíduo fecha-se em si mesmo: interrompem-se as relações ou tornam-se superficiais, falsas, hipócritas. Quando Jesus nos devolve a vida, ‘restitui-nos’ aos outros”.
O Papa Francisco finalizou sua mensagem convidando os jovens a responderem uma pergunta: “Queridos jovens, quais são as vossas paixões e os vossos sonhos? Fazei-os sobressair e, através deles, proponde ao mundo, à Igreja, a outros jovens, algo de belo no campo espiritual, artístico e social. Deixai que vo-lo repita na minha língua materna: ‘hagan lìo – fazei-vos ouvir!’”.

Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Nathália Queiroz.

(acidigital)

Quaresma: fazer o bem como se nossas mãos fossem mãos de Deus


Na tarde de quarta-feira (04) o pregador dos Exercícios Espirituais à Cúria Romana, Padre Bovati, fez a sua sexta meditação. No centro da reflexão o caminho de Israel no deserto, lugar de provações mas também da manifestação da bondade de Deus para com o seu povo

Adriana Masotti – Cidade do Vaticano

Na narração do Êxodo, o deserto é o lugar da providência. O lugar onde o Senhor “se revela como o Deus da aliança com Israel, o Deus bom e fiel, e ao mesmo tempo, como o soberano onipotente ao qual estão submetidas todas as forças cósmicas”. Padre Pietro Bovati prossegue a sua reflexão quaresmal, que chega na sua sexta etapa, citando uma passagem bíblica que por um lado mostra o Senhor “como artífice da história da salvação”, e de outro “não sublinha suficientemente um outro aspecto importante, ou seja, a livre expressão dos homens, seu consenso ou a sua rebeldia para com Deus. Porém, sem a atividade humana – observa o teólogo jesuíta – a história assume uma imagem deformada “na qual Deus atua, sim, admiravelmente”, mas o homem corre o risco de ser reduzido “a puro objeto passivo”. “Portanto, paradoxalmente, para exaltar Deus na sua obra, chega-se a dizimar o próprio ápice da criação, formado pelo homem livre e artífice do seu destino, porque foi criado a imagem e semelhança de Deus”.
Os textos bíblicos são complexos e muitas vezes complementares, afirma padre Bovati, e muitos deles mostram que o Senhor no seu agir considera as resistências dos homens e deseja sempre suscitar uma resposta, não se impõe e deseja uma relação com a criatura “mesmo de cooperação, de corajosa colaboração”, a ponto que do homem, em um certo sentido, depende a realização da ação salvífica de Deus nos acontecimentos humanos.

O deserto “figura da vida”
Os 40 anos passados no deserto significam toda uma existência, o deserto é representação da nossa terra, onde o homem sofre, mas onde Deus se revela e o faz “na própria ação dos seus servos”. Padre Bovati reitera um ponto fundamental: “É preciso assumir com responsável obediência a tarefa de fazer o bem como se as nossas mãos fossem as mãos de Deus”. E isso se realiza quando o servo de Deus vive a dupla virtude da escuta: a escuta da voz de Deus e a escuta do grito do povo que lhe foi confiado.
O deserto, repete o pregador, “é figura da vida”. É um tempo que pode se tornar tentação, “é o nosso tempo, o tempo do homem”. Deus coloca o seu povo à prova para que amadureça na fé e ao mesmo tempo estimula os homens capazes de ajudar os que estão sob prova, como no caso de Moisés. Ele escuta o grito dos sofredores, mesmo se manifestado debilmente e se os pedidos da sua gente o colocam em dificuldade porque ele mesmo não sabe como responder. Mas escuta porque Deus faz assim. “Mesmo as nossas orações, são sempre muito imperfeitas e principalmente, o grito do povo sofredor, muitas vezes é turbulento”. Então Moisés invoca com fé o Senhor na oração que vence a tentação e recebe resposta.

Ao amar, ensina-se amar
O pregador introduz um novo conceito: na narração bíblica se diz que “naquele lugar o Senhor impôs ao povo uma lei e uma ordem”. “Isso significa – explica o pregador – que no próprio ato do socorro, deve ser inculcada a relação obediente com o Senhor”. Portanto, ao amar ensina-se amar, “na obra de misericórdia corporal se faz também a obra de misericórdia espiritual, alcança-se o coração das pessoas, colocando-os na condição de crer em Deus e de agir como Deus quer, ou seja no amor”.
Por fim padre Bovati fala sobre a passagem evangélica do juízo final. Todo o juízo está centralizado em uma só coisa: na ajuda ou na falta de ajuda para com os mais necessitados. Portanto há uma concretitude do fazer, que exige a dedicação a um corpo que sofre, mas também do coração do sofredor. Nos mais necessitados, diz o Evangelho, há Jesus mas, pergunta-se o pregador, “como é possível ver que nós socorremos Deus quando nos dedicamos aos mais necessitados? Como os nossos olhos de carne podem realmente ver que é assim?”. Então conclui: “É sem ver que nós amamos, sem glória, sem honra, no doar-se até morrer, há a plenitude do bem, há a bênção do Pai na vida”.

(vaticannews)

quarta-feira, 4 de março de 2020

Matrimônio na ausência de fé é válido? Documento da Comissão Teológica explica


O texto examina a reciprocidade entre fé e sacramentos, que hoje se encontra em crise na prática pastoral, analisando em particular as consequências dessa situação no casamento sacramental. Entrevista com o teólogo jesuíta Gabino Uríbarri Bilbao

Cidade do Vaticano

Entrevista sobre o documento "Reciprocidade entre fé e Sacramentos na economia sacramental" ao padre jesuíta Gabino Uríbarri Bilbao, da Pontifícia Universidade Comillas de Madri, membro da Comissão Teológica Internacional (Roma):

1) O senhor poderia explicar a gênese e resumir o conteúdo do documento?
Na primeira Sessão Plenária da Comissão Teológica Internacional, iniciado seu nono quinquênio, em dezembro de 2014, foi aprovado por votação que o tópico relacionado ao relatório "Fé e Sacramentos" também fosse estudado.  Custou-nos muito identificar uma metodologia e encontrar uma direção para o tópico a ser tratado, pela amplitude das questões envolvidas: teologia sacramental geral, fundamento bíblico, impacto pastoral, diversos sacramentos a serem estudados, variedade de situações continentais. Foram necessários 11 esboços antes de se chegar ao documento final.
O documento, em cinco capítulos, quer salientar o fato de que a reciprocidade entre fé e sacramentos se encontra hoje em crise na prática pastoral. O coração do documento, o capítulo 2, consiste em um argumento teológico em que ele percebe a reciprocidade entre fé e sacramentos. Articulam-se em três teses fundamentais: 1) A revelação de Deus e a história da salvação possuem um teor sacramental, pela importância máxima devida à encarnação; 2) tal revelação sacramental é ordenada à comunicação da graça divina à pessoa humana: é dialógica; 3) por isso, a fé cristã, como resposta a uma revelação sacramental, é de caráter sacramental. Sobre tal base, no terceiro capítulo, são levados em consideração os três sacramentos da iniciação cristã, e no quarto capítulo, o matrimônio. O texto termina com um capítulo de síntese, mais breve, no qual a reciprocidade essencial entre fé e sacramentos é recuperada de acordo com a perspectiva católica.

2) A reciprocidade entre fé e sacramentos é um tema discutido há anos, especialmente em relação ao matrimônio. Quer Bento XVI como Francisco apresentaram questionamentos sobre a validade de muitos casamentos celebrados na igreja por hábito ou tradição, mas sem uma verdadeira fé. Os dois Pontífices indicaram esta como uma possível maneira para rever alguns critérios relativos aos processos de nulidade. O que o documento esclarece a este respeito?
Não somente os Papas Bento e Francisco. As Assembleias sinodais sobre a Família (1980, 2014, 2015) e sobre a Eucaristia (2005) pediram, com uma percentagem próxima aos 100% dos votos, um esclarecimento a propósito de uma situação pastoral não resolvida: a celebração de um sacramento, o matrimônio, sem fé.
Procuramos iluminar esse problema complexo do ponto de vista da Teologia Dogmática, que é o primeiro passo. A regulamentação canônica da celebração e da validade do sacramento do matrimônio se deduz da verdade dogmática do mesmo. Se a doutrina que propomos for aceita, caberá aos canonistas estruturar sua tradução jurídica nos processos de nulidade. Não obstante isso, gostaria de enfatizar que nosso documento quis ter presente a sabedoria que o direito canônico engloba, como uma ciência sagrada. Nesse contexto, quero destacar que a jurisprudência do Tribunal da Rota Romana já proferiu sentenças na linha de nosso documento. Ou seja, considerando o fato de que a falta de fé pode prejudicar a intenção de celebrar um casamento natural (por exemplo: a sentença coram Stankiewicz, 19 de abril de 1991).

3) O senhor poderia explicar por que a falta de fé coloca em dúvida a validade do matrimônio sacramental?
A doutrina católica sustenta que o matrimônio é uma realidade natural, que pertence à ordem da criação (cf. Gn 2,24). Jesus Cristo elevou essa realidade natural a sacramento. Em função disso, para que exista um matrimônio sacramental, também deve existir um matrimônio natural. Para a Igreja, o matrimônio natural inclui as mesmas características do matrimônio sacramental. Os bens do matrimônio natural, que fazem com que seja um verdadeiro matrimônio, são os mesmos que os bens do matrimônio sacramental. E são: a indissolubilidade, a fidelidade e a procriação.
Seguindo Bento XVI, partimos do fato de que a fé determina as concepções antropológicas em cada âmbito da vida, compreendido o que se refere ao matrimônio. A pergunta que nos colocamos é se a ausência consistente de fé, própria daqueles que podem ser chamados de "batizados não-crentes", prejudica sua compreensão do matrimônio. Sobretudo tendo presente que em muitos lugares a compreensão socialmente compartilhada sobre o matrimônio, incluída aquela legalmente estabelecida, não se baseia na indissolubilidade (para sempre), na fidelidade (a exclusividade e o bem do cônjuge) e a procriação (aberta à descendência). Em outras palavras, argumentamos que no caso de "batizados não-crentes", a intenção de contrair um verdadeiro matrimônio natural não é garantida. Sem o matrimônio natural, não existe realidade que possa ser elevada a matrimônio sacramental: não há matrimônio sacramental.

4) O texto da Comissão rejeita tanto o automatismo segundo o qual todo matrimônio entre os batizados é um sacramento, como o "ceticismo elitista", segundo o qual qualquer grau de ausência de fé viciaria a macularia e invalidaria o sacramento. Qual é então o caminho correto a ser percorrido e como aplicar essas indicações à realidade concreta das situações dos casais?
Damos um passo para esclarecer uma questão que necessita maiores aprofundamentos. No ritual do matrimônio é dito: "Os pastores, guiados pelo amor de Cristo, acolhem os noivos e, em primeiro lugar, despertam e alimentam a própria fé: o sacramento do matrimônio, de fato, pressupõe e requer a fé" (Praenotanda § 16). No Catecismo da Igreja Católica, o matrimônio é definido como:  «O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre os batizados foi elevado por Cristo Senhor à dignidade de sacramento» (§ 1601). Há uma tensão não resolvida entre as duas afirmações: na primeira, a fé é mencionada como um requisito (supõe e requer); na outra, não.
O que está por vir é uma missão delicada para os pastores e para todos os agentes envolvidos no cuidado pastoral matrimonial, no ajudar os futuros cônjuges a crescer na própria fé em relação ao significado do matrimônio. Pode-se rezar pelos cônjuges, mas nem sempre será apropriado celebrar o rito. Em seu documento intitulado ‘A Doutrina Católica sobre o Sacramento do Matrimônio’ (1977), a Comissão Teológica Internacional já havia afirmado que a falta de fé, entendida como uma disposição para crer, compromete a validade do sacramento, especialmente se não houver o desejo de graça e da salvação (§ 2.3). São João Paulo II, por sua vez, após uma longa e gradual dissertação, declarou: «Quando, pelo contrário, não obstante todas as tentativas feitas, os nubentes mostram recusar de modo explícito e formal o que a Igreja quer fazer ao celebrar o matrimónio dos batizados, o pastor não os pode admitir à celebração.» (Familiaris consortio, 68). Portanto, nos referimos, por assim dizer, a casos extremos: total falta de fé, rejeição do que o sacramento significa.
É tarefa dos pastores conduzir o discernimento em cada caso concreto. Nós procuramos evitar qualquer tipo de casuística. Caso  não se perceba, por falta de fé, a intenção de contrair um matrimônio natural, não se deve celebrar o rito sacramental. Devemos estar bem cientes do fato de que, por um lado, a Igreja facilita muito o acesso ao sacramento do matrimônio. E por outro, porém, tem em relação ao matrimônio um conceito muito alto, que envolve demandas muito elevadas. Aqui também existe uma tensão.

5) O argumento da falta de fé como motivação para declarar a nulidade de um casamento pode apresentar dificuldades: como é possível constatar a falta de fé? Como se faz para ‘medir’ a fé?
Medir a fé não é possível. A liturgia diz: "[...] dos quais só tu conheceste a fé" (Oração Eucarística IV). Isso não significa que a fé não tenha necessariamente uma tradução externa visível: a fé se manifesta mediante a confissão de fé, por exemplo, ou por meio da caridade. No entanto, sim, é possível julgar sobre a intenção, que está ligada à fé. Nós argumentamos a partir da intenção, no caso dos batizados não-crentes, descritos segundo uma tipologia precisa: trata-se daqueles batizados que permaneceram como crianças que nunca aderiram pessoalmente à fé e daqueles que conscientemente negaram a fé e a rejeitam.

6) O que o documento traz de novo a respeito dos sacramentos da iniciação cristã?
Com referência aos três sacramentos [da iniciação], enfatizamos que a recepção de um sacramento sempre envolve um caráter missionário. Um sacramento não é recebido apenas para si mesmo, mas também para outros: para fortalecer a Igreja como Corpo de Cristo e para ser testemunhas de Jesus Cristo Ressuscitado. Insistimos também sobre a necessidade de processos catecumenais prévios, como preparação para a recepção do sacramento; e sobre a necessidade que acontece na própria recepção, como dom da graça e momento de compreensão pessoal do significado do sacramento; e sobre a necessidade de catequeses subsequentes à recepção dos sacramentos, inspiradas na catequese mistagógica dos Padres da Igreja.
Enfatizamos que a figura da fé especificada para cada sacramento é diferente. No batismo é necessário assegurar a presença do elemento dialógico que caracteriza a história da salvação e o relacionamento com Deus. Isso não comporta problemas para o Batismo dos adultos. Para as crianças, é necessário assegurar a presença de pessoas próximas, pais, padrinhos, avós, alguns membros da família, que garantam o objetivo de uma educação cristã. No caso da Confirmação, insistimos na maturidade necessária para uma inserção mais adulta e responsável na comunidade cristã, quer em relação ao seu lado interno de construção comunitária, quer em relação à missão em direção ao externo. Acentuamos a importância da relação pessoal com o Senhor, mediante a oração. A Eucaristia é o sacramento da fé por excelência. Nela a fé é exercida e nutrida. É necessária uma maior adesão pessoal ao credo e uma coerência basilar com a vida cristã. Nossa intenção está muito longe de colocar barreiras aos sacramentos. Pelo contrário, gostaríamos que o documento ajudasse a estimular a pastoral e a prática sacramental. Levar a sério a sacramentalidade da história da salvação requer um mínimo de fé para evitar que a celebração dos sacramentos caia no ritualismo vazio, na magia ou em uma privatização da fé que não corresponde mais à fé eclesial.

(vaticannews)

Comunhão na mão e Missa sem a paz nas igrejas de Roma para evitar coronavírus



Roma, 03 Mar. 20 / 02:00 pm (ACI).- A Diocese de Roma adotou uma série de medidas para evitar possíveis contágios do coronavírus COVID-19 entre os fiéis durante a celebração da Missa.
As medidas adotadas, anunciadas pelo Vigário da Diocese, Cardeal Angelo De Donatis, envolvem, principalmente, não dar a paz e receber a comunhão na mão, além de esvaziar as fontes de água benta.
Essas medidas são destinadas a evitar novos contágios do COVID-19, que já ocorreu na cidade de Roma e na região de Lácio. Na Itália como um todo, o número de pessoas infectadas já chega a mais de 2 mil.
Apesar da natureza excepcional dessas medidas preventivas, a Diocese de Roma ainda não chegou a uma situação extrema como a vivida em dioceses do norte da Itália, como Turim, Milão ou Veneza, onde as Missas foram suspensas e outras celebrações litúrgicas limitadas, como casamentos e batizados.
Em Roma, as embaixadas francesas perante o Estado italiano e a Santa Sé decidiram fechar as igrejas nacionais francesas ao público, incluindo a emblemática São Luís dos Franceses, depois que um sacerdote da Diocese de Paris contraiu o vírus durante sua estadia na capital italiana.
Além disso, o Vaticano também suspendeu a celebração de dois importantes eventos promovidos pelo Papa Francisco: o encontro de Assis sobre a "Economia de Francisco", previsto para o final de março, e o "Pacto Global pela Educação", marcado para o mês de maio.

Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Nathália Queiroz.


terça-feira, 3 de março de 2020

Retiro espiritual, Bovati: entender quem somos para renascer

02/03/2020

Na primeira meditação no retiro quaresmal em Ariccia, o pregador dos Exercícios espirituais - segundo reporta o L'Osservatore Romano - refletiu sobre o sentido do nascimento, afirmando que "meditar sobre como nós vimos ao mundo, na relação com Deus e com as outras coisas, constitui o princípio e o fundamento da nossa vida espiritual"

Cidade do Vaticano

O primeiro passo é sempre apresentar-se, mostrando a “carteira de identidade” interior. Mas para fazê-lo é preciso realmente “compreender quem somos”. O padre jesuíta Pietro Bovati foi incisivo – na manhã de segunda-feira (02/03) – na primeira meditação dos exercícios espirituais para a Cúria Romana na Casa Divin Maestro em Ariccia, nas proximidades de Roma.
A primeira coisa a ser feita, sugeriu o secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, é entender “quem somos”, indo “à origem do prodígio do nosso nascimento”.  E na Sagrada Escritura, explicou, “nos é dita a verdade sobre nossa constituição”: nos é dito que somos a imagem de Deus porque carregamos em nossa carne algum traço d’Aquele que nos gerou”.
“Meditar a nossa gênese – ressaltou – não é algo secundário ou preliminar, mas é aquilo que sustenta, guia e dá sentido a nossa existência por completo.” Tanto que “o meditar sobre como vimos ao mundo, na relação com Deus e com as outras coisas, constitui o princípio e o fundamento da nossa vida espiritual”.

Os dois nascimentos

Em particular, o pregador dos exercícios espirituais propôs a atualidade de “dois nascimentos: o de Moisés, “o homem que Deus escolheu para a tarefa fundadora de libertar Israel”, e de Jesus, “o Salvador do mundo, enviado propriamente para levar a cumprimento o desígnio de Deus de libertação”.
São duas “histórias – insistiu – sobre as quais meditamos como prefigurações e indicações sobre o sentido do nosso pessoal vir ao mundo”. Certamente, “as vicissitudes de Moisés e Jesus têm características irrepetíveis; no entanto, nelas se mostra o sentido misterioso do nosso vir ao mundo: somos constituídos como filhos prodigiosamente doados pelo amor eterno de Deus”.
Repercorrendo as vicissitudes de Moisés, padre Bovati recordou que “a Sagrada Escritura ousa dizer que no ventre de cada mulher é Deus mesmo a formar o feto e a dar-lhe o sopro vital. Como se Ele continuasse a sua obra de Criador na pontualidade de cada evento histórico”.
E propriamente “essa audaciosa imagem de Deus tem o mérito de fazer-nos compreender que toda existência humana é obra querida pelo Criador, desde sempre desejada e levada por Ele a cumprimento no tempo estabelecido”.
Eis “uma primeira maravilhosa e vertiginosa consideração daquilo que nós somos: como não reconhecer em adoração e comovido reconhecimento que nasci e estou vivo por um maravilhoso processo que me leva a dizer que Deus me quis na minha individualidade, dirigindo cada coisa até o meu vir ao mundo?”

O desígnio de Deus: salvar-nos

Sempre em referência à história de Moisés, que desde pequeno escapou da morte, o pregador explicou que também “nós nascemos como fruto de uma extraordinária manifestação, um concurso de causas inimagináveis, porém guiadas pelo desígnio de Deus. E fomos salvos. Muitas vezes poderíamos morrer, poderíamos perder-nos. E isso são apenas traços, os sinais de um maravilhoso desígnio em relação a nós”.
Mas, alertou, “isso não pode ser interpretado banalmente”, considerando que “tivemos sorte: essa experiência deve ser lida como um evento de amor, porque alguém nos salvou, tirando-nos da ameaça de morte, do turbilhão das águas, em certos casos de morte física, em outros de morte espiritual. E então, em primeiro lugar, o fiel sente nessa consideração o manifestar-se do amor de Deus”.
O ser salvos, em outras palavras, “é a permanente verdade do meu existir que nós celebramos no sinal sacramental do batismo”. E, em segundo lugar, “o fato de ser salvos é experiência de ter sido amados por pessoas concretas”.
Portanto, afirmou o pregador, é oportuno “na oração fazer emergir a nossa genealogia e, nela, ver os rostos daqueles que me amaram e socorreram, porque naqueles rostos, como sinais, se manifesta a vontade providencial de Deus em relação a mim”.
Segundo padre Bovati, definitivamente, “como Moisés fomos salvos porque fomos adotados para além dos nossos genitores: outras figuras assumiram em relação a nós o papel parental, de modo a tornar possível nosso crescimento humano e espiritual e termos sido adotados nos faz compreender a beleza da nossa adoção filial em Cristo”.

O exemplo de José

Se na história de Moisés, quando criança, “são sobretudo as figuras femininas que intervêm para mostrar a presença ativa de Deus, na história de Jesus, por sua vez, é um homem, José, que assume essa forma”.
Propriamente o exemplo de Moisés, explicou o pregador, “deve orientar nossas decisões” com a força da sua “obediência dócil, pronta, humilde à voz de Deus”. E também como “emblema daquela castidade que sabe acolher o amor da mulher e sabe viver no amor sem possuir, sem apropriar-se vantajosamente da carne a ele confiada”. Além disso, observou, “o amor de José, em seu manifestar-se histórico, consiste em renunciar aos projetos pessoais”.
“Dessas considerações – prosseguiu – queremos compreender, contemplar com crescente admiração” que o Filho de Deus “quis assumir essa dimensão de filho do homem; e o seu nascer da carne virginal é certamente prodigioso, mas foi alimentado pelas palavras o pelo exemplo das pessoas que contribuíram para sua própria formação de homem.”
Portanto – concluiu o pregador indicando aos presentes o Salmo 139 para a oração –, “o dom feito a Cristo é figura do nosso nascer: também nós somos filhos de Deus, mas devemos tudo também àqueles que o Senhor colocou em nosso caminho como mães e pais adotivos que nos ajudaram a crescer como filhos do homem e como filhos de Deus. E isso para que também nós nos tornemos testemunhas” para “ajudar os outros a viver desse mesmo dom, a reconhecê-lo em sua história”.

(vaticannews)

segunda-feira, 2 de março de 2020

Assim são os arquivos do pontificado de Pio XII que o Vaticano abrirá a consulta



Vaticano, 02 Mar. 20 / 04:00 pm (ACI).- Nesta segunda-feira, 2 de março, o Arquivo Apostólico Vaticano, antigo Arquivo Secreto, abriu os documentos do pontificado de Pio XII(de 1939 a 1958) para que os pesquisadores possam ter acesso a eles.
Esta abertura é possível depois de uma trabalho de 14 anos, no qual estiveram envolvidos o próprio Arquivo Apostólico Vaticano, o Arquivo Histórico da Seção de Relações com os Estados da Secretaria de Estado e o Arquivo da Congregação para a Doutrina da Fé.
A abertura afeta também o Arquivo Histórico da Congregação para a Evangelização dos Povos, o Arquivo Histórico da Congregação para as Igrejas Orientais, o Arquivo da Penitenciaria Apostólica e o Arquivo Histórico Geral da Fábrica de São Pedro.
Em concreto, no Arquivo Apostólico Vaticano, estarão à disposição dos pesquisadores 73 arquivos de representações pontifícios, 15 séries da Secretaria de Estado, 21 acervos de Congregações romanas e escritórios da Cúria e palatinos, 3 do Estado da Cidade do Vaticano e outros 8 acervos.
Por isso, no total, estarão disponíveis para consulta 120 acervos e séries com cerca de 20 mil documentos.
Uma das séries, a mais ampla, pertencente aos Assuntos Gerais da Secretaria de Estados, compreende quase 5 mil caixas que foram ordenadas, numeradas e descritas por um grupo de 15 arquivistas que realizaram um inventário de cerca de 15 mil páginas que poderão ser consultadas de forma digital.
Os diferentes arquivos da Santa Sé poderão acolher 120 pesquisadores. No Arquivo Apostólico Vaticano, que tem uma capacidade para acolher 60 pesquisadores, a reserva para a consulta de documentos do pontificado de Pio XII já começou desde o início de outubro de 2019.
As autorizações para consultar os arquivos foram dadas distribuindo aos pesquisadores ao longo de diferentes meses, tentando buscar um equilíbrio entre os interessados em estudar o pontificado do Papa Pio XII e os interessados em estudar outros períodos.
Os quase 20 anos do Pontificado de Pio XII abarcam desde a Segunda Guerra Mundial, a reconstrução, o enfrentamento entre o bloco ocidental e o oriental, até as mudanças experimentadas neste período na Igreja e na sociedade, que se desenvolveriam nos anos posteriores.
Publicado originalmente em ACI Prensa. Traduzido e adaptado por Natalia Zimbrão.

(acidigital)

Francisco segue do Vaticano o retiro quaresmal em Ariccia


Numa carta ao pregador dos Exercícios Espirituais, que começou na tarde deste domingo em Ariccia, o Papa reza e abençoa a Cúria ali reunida e reitera que seguirá do seu quarto as pregações do padre jesuíta Pietro Bovati. Protagonista das reflexões Moisés, o homem que experimenta a amizade de Deus.

Alessandro De Carolis, Silvonei José - Cidade do Vaticano

Você pode ser um artesão do sagrado ou amigo de Deus, a chave está em como se vive a oração, o único "exercício" que leva a criatura à intimidade com o Criador. O padre Pietro Bovati, teólogo da Pontifícia Comissão Bíblica e por uma semana pregador do retiro quaresmal da Cúria Romana em Ariccia, abriu neste domingo à tarde o ciclo de meditações traçando o caminho espiritual que seguirá até sexta-feira, 6 de março. "Rota" que o Papa segue da Casa Santa Marta, como ocorreu para os compromissos dos últimos dias. Neste domingo, na abertura dos Exercícios, o padre Bovati leu as linhas de uma pequena mensagem na qual Francisco, com resfriado, escreve: "Eu os acompanharei daqui". Vou fazer os Exercícios no meu quarto, seguindo as pregações do padre Bovati, a quem muito agradeço. Rezo por vocês: por favor, rezem por mim".

O movimento do silêncio

A oração, diz e reitera o padre Bovati, é um "caminho", que segue "traços divinos", e o emblema deste dinamismo é Moisés. Quando o Patriarca, como narra o livro do Êxodo, vai à tenda do encontro, colocada fora do acampamento, que, sublinha o pregador, "é o caminho do desejo", de deixar tudo para ir ao encontro com Deus, e a nuvem que desce sobre a tenda à medida que Moisés se aproxima é o sinal do Altíssimo que "vai ao seu encontro". Isto, observa o padre Bovati, "anula uma ideia bastante difundida que identifica a oração com uma palavra que o homem dirige ao Senhor", quase uma "forma de recitação", enquanto "a oração autêntica é, ao contrário, fundamentalmente uma experiência profética, aquela através da qual a criatura humana pode, em silêncio, escutar a voz do Senhor". É um "face a face" no qual, diz a Bíblia, Deus fala a Moisés "como a um amigo".

Uma questão de alma

Aqui está um primeiro valor da oração, que tem o que o teólogo jesuíta chama de "prodigiosa familiaridade ".

Aqui, a familiaridade com Deus nada tem a ver com a familiaridade nos assuntos religiosos, nem mesmo com uma boa cultura teológica ou bíblica. Pelo contrário, é fruto exclusivo da oração autêntica, na qual é dado ao homem ver e saborear o plano de amor de Deus, a sua vontade benéfica a ser posta em prática concreta, pronta e generosamente. Sem esta experiência de familiaridade não há vida autenticamente religiosa, mas apenas - na melhor das hipóteses - o ofício das coisas sagradas.

A necessidade da sarça

Obviamente esta confidência não é improvisada, "é o ponto final de um processo". É de certa forma uma transfiguração semelhante à que Moisés viveu através da experiência da sarça. Para alcançar esta intimidade com Deus, afirma o padre Bovati, "é necessário ter repetidas experiências de fogo" e nisto a sarça pode "representar - afirma - a pessoa humana na sua fragilidade, fraqueza e miséria como a de um espinheiro, que no entanto é investido por uma perene força de vida: o fogo".

Não se trata simplesmente de atualizar um pouco o fervor da nossa alma através de algum exercício apropriado de devoção, mas de assumir com renovado compromisso da verdade, com uma sincera abertura de coração o dom que Jesus veio trazer ao mundo. Quando exclamava: "Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como eu gostaria que já estivesse aceso!

"Subir para o andar superior”

É o fogo que o mundo de hoje necessita constantemente, no qual para o pregador existem "condições de necessidades espirituais urgentes e até dramáticas, que requerem forças espirituais de cura que só Deus pode dispensar".

A Igreja está sempre desejosa de se renovar espiritualmente, é chamada a um processo de reforma que certamente não pode limitar-se a medidas disciplinares e administrativas, porque o Espírito solicita impulsos e mártires que só os santos podem assumir. O que podemos fazer agora, na consciência da nossa responsabilidade como crentes, é "subir à sala do andar superior", como narrado nos Atos dos Apóstolos, e em segredo, perseverantes e concordes na oração, esperar humildemente o poder do Espírito Santo que descerá, segundo a promessa, sobre todos aqueles que rezam.

Solo sagrado

Num percurso meditativo que vai entrelaçar o Livro do Êxodo com o Evangelho de Mateus, assim como a leitura dos Salmos, o último "ícone" que o padre Bovati indica é o de Moisés tirando as sandálias ao aproximar-se da sarça ardente. É a pausa diante do divino é o convite "a parar, a não distrair o coração com outros pensamentos", mas concentrar no encontro com Deus "todas as energias do coração".

(vaticannews)

domingo, 1 de março de 2020

O Papa no Angelus: com o diabo não se dialoga jamais


Francisco no Angelus deste domingo recorda que "a tentação é a tentativa de percorrer caminhos alternativos aos de Deus". Depois do Angelus, o Papa pediu para rezar pelos migrantes que fogem da guerra e fez saber que, por causa de um resfriado, não participará este ano dos exercícios espirituais para a Cúria Romana, que começarão esta noite em Ariccia. O Papa explicou que seguirá as meditações, unindo-se espiritualmente à Cúria.

Silvonei José - Cidade do Vaticano

Diante das tentações, existe um caminho a seguir. O Papa Francisco, ligando suas palavras no Angelus com as do Evangelho deste domingo, incorporado no tempo da Quaresma, lembra-nos que este caminho é aquele percorrido por Jesus no deserto, onde ele enfrenta as tentações do maligno. O diabo primeiro sugere a Jesus, que tem fome, que transforme as pedras em pão. Mas a resposta é clara: "Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus". Então o diabo pede a Jesus para experimentar a confiança em Deus, de se atirar do ponto mais alto do templo, porque ele seria socorrido pelos anjos. "Quem crê - enfatiza Francisco -, sabe que não se coloca à prova Deus, mas confia na sua bondade". Por esta razão, Jesus responde ao diabo com estas palavras: "Não porás à prova o Senhor teu Deus!".. Na terceira tentação, o maligno oferece "uma perspectiva de messianismo político". Mas Jesus, recorda o Pontífice, "rejeita a idolatria do poder e da glória humana" e, no final, expulsa o tentador dizendo: "Vai embora, Satanás, pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto’”.

Quanto mais longe de Deus, mais indefesos nos sentimos...

Jesus, recorda o Pontífice, não dialoga com o diabo, mas responde ao maligno com a palavra de Deus. Nunca se deve dialogar com o diabo. Nisto, enfatiza, é preciso ter muito cuidado. A experiência de Jesus, explica o Papa, deve ajudar-nos a estar vigilantes, a não nos submetermos a nenhum ídolo:

Também hoje Satanás irrompe na vida das pessoas para tentá-las com suas propostas atraentes; ele mistura a sua às muitas vozes que tentam domar a consciência. De muitos lugares chegam mensagens convidando as pessoas a "deixarem-se tentar" para experimentar a embriaguez da transgressão. A experiência de Jesus ensina-nos que a tentação é a tentativa de percorrer caminhos alternativos aos de Deus, que nos dão a sensação de autossuficiência, de gozo da vida como um fim em si mesmo. Mas tudo isso é ilusório: logo percebemos que quanto mais nos afastamos de Deus, mais nos sentimos indefesos e inermes diante dos grandes problemas da existência.
E Francisco conclui:

"Que a Virgem Maria, a Mãe d’Aquele que esmagou a cabeça da serpente, nos ajude neste tempo de Quaresma a estar vigilantes diante das tentações, a não nos submetermos a nenhum ídolo deste mundo, a seguir Jesus na luta contra o mal; e conseguiremos também nós ser vencedores como Ele".

Oração pelos migrantes que fogem da guerra

No final da oração mariana, Francisco recordou os muitos migrantes que procuram refúgio no mundo, "muitos homens, mulheres e crianças expulsos por causa da guerra". E pediu para rezar por eles.

Exercícios Espirituais em Ariccia

Depois do Angelus, o Papa recordou ainda que nesta noite terão início os exercícios espirituais da Cúria Romana. E ele anunciou que este ano, por causa de um resfriado, não participará do retiro em Ariccia. "Uno-me espiritualmente à Cúria e a todas as pessoas que estão vivendo momentos de oração, fazendo os exercícios espirituais em casa".

(vaticannews)