sexta-feira, 13 de março de 2020

O Papa: pastores próximos do povo, nem sempre medidas drásticas são boas

Missa em Santa Marta
Na missa na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, esta sexta-feira (13/03), Francisco rezou pelos doentes, mas também pelos pastores a fim de que tomem medidas que não deixem o povo de Deus sozinho e o acompanhem com o conforto da Palavra de Deus, dos sacramentos e da oração

VATICAN NEWS

Na quinta missa (VÍDEO INTEGRAL) via streaming da Capela da Casa Santa Marta no Vaticano, esta sexta-feira (13/03), no dia da sua eleição à Cátedra de Pedro, Francisco convidou mais uma vez a rezar pelos doentes de coronavírus, mas em particular rezou pelos pastores.

Nestes dias nos unimos aos doentes, às famílias, que sofrem esta pandemia. E gostaria também de rezar hoje pelos pastores que devem acompanhar o povo de Deus nesta crise: que o Senhor lhes dê a força e também a capacidade de escolher os meios melhores para ajudar. Nem sempre as medidas drásticas são boas, por isso rezemos: para que o Espírito Santo dê aos pastores a capacidade e o discernimento pastoral a fim de que providenciem medidas que não deixem sozinho o santo povo fiel de Deus. Que o povo de Deus se sinta acompanhado pelos pastores e pelo conforto da Palavra de Deus, dos sacramentos e da oração.

Obviamente, o Papa não se refere às medidas adotadas pelo governo italiano para contrastar os contágios evitando aglomeração de pessoas, mas se dirige aos pastores a fim de que considerem as exigências dos fiéis que precisam ser acompanhados espiritualmente num momento tão dramático.

Na homilia, comentando as leituras do dia, e em particular a parábola dos vinhateiros homicidas, falou da infidelidade à aliança por parte de quem se apropria do dom de Deus que é riqueza, abertura e bênção, e o aprisiona numa doutrina (Mt 21, 33-43.45). A seguir, o texto da homilia transcrita pelo Vatican News:

Ambas as leituras são uma profecia da Paixão do Senhor. José vendido como escravo por 20 ciclos de prata, entregue aos pagãos. E a parábola de Jesus, que claramente fala simbolicamente do assassinato do Filho. Esta história de “um homem que possuía um terreno, plantou nele uma vinha – o cuidado com o qual a fizera –, cercou-a com uma sebe, abriu nela um lugar para a prensa e construiu uma torre – tinha feito isso muito bem. Depois, a arrendou a vinhateiros e partiu para longe”.

Este é o povo de Deus. O Senhor escolheu aquele povo, há uma eleição daquele povo. É o povo da eleição. Também há uma promessa: “Ide avante. Vós sois o meu povo”, uma promessa feita a Abraão. E também há uma aliança feita com o povo no Sinai. O povo deve sempre guardar a eleição na memória, que é um povo eleito, a promessa para olhar para frente com esperança e a aliança para viver a fidelidade a cada dia.

Mas nessa parábola se dá que quando chegou o tempo para colher o frutos esse povo tinha se esquecido que eles não eram os proprietários: “Os lavradores pegaram os servos, bateram num deles, mataram o outro, lapidaram outro. Depois mandou outros servos, mais numerosos, mas o trataram do mesmo modo”. Certamente Jesus mostra aí – está falando aos doutores da lei – como os doutores da lei trataram os profetas. “Por último mandou-lhes o próprio filho”, pensando que respeitariam o filho. “Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre eles: ‘Este é o herdeiro. Vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança!”

Roubaram a herança, que era outra. Uma história de infidelidade, de infidelidade à eleição, de infidelidade à promessa, de infidelidade à aliança, que é um dom. A eleição, a promessa e a aliança são um dom de Deus. Infidelidade ao dom de Deus. Não entender que era um dom e tomá-lo como propriedade. Esse povo se apropriou do dom e tirou esse dom para transformá-lo em “minha “ propriedade. E o dom que é riqueza, é abertura, é bênção, foi trancafiado, aprisionado numa doutrina de leis, muitas. Foi ideologizado. E assim o dom perdeu a sua natureza de dom, acabou numa ideologia. Sobretudo numa ideologia moralista repleta de preceitos, inclusive ridícula porque passa à casuística para cada coisa. Apropriaram-se do dom.
Este é o grande pecado. É o pecado de esquecer que Deus se fez dom Ele mesmo para nós, que Deus nos doou isso como dom e, esquecendo isso, tornar-se proprietários. E a promessa já não é promessa, a eleição já não é eleição: “A aliança deve ser interpretada segundo o meu parecer, ideologizado”. Aí, nessa atitude, eu vejo talvez o início, no Evangelho, do clericalismo, que é uma perversão, que renega sempre a eleição gratuita de Deus, a aliança gratuita de Deus, a promessa de Deus. Esquece a gratuidade da revelação, esquece que Deus se manifestou como dom, se fez dom para nós e nós devemos dá-lo, mostrá-lo aos outros como dom, não como nossa posse.

O clericalismo não é uma coisa somente destes dias, a rigidez não é uma coisa destes dias, já havia no tempo de Jesus. E depois Jesus seguirá adiante na explicação das parábolas -  esse é o capítulo 21 –, seguirá adiante até chegar ao capítulo 23 com a condenação, onde se vê a ira de Deus contra aqueles que tomam o dom para si como propriedade e reduzem a sua riqueza aos caprichos ideológicos da mente deles.

Peçamos ao Senhor a graça de receber o dom como dom e transmiti-lo como dom, não como propriedade, não de um modo sectário, de modo rígido, de modo “clericalista”.

(vaticannews)

quinta-feira, 12 de março de 2020

Papa: rezar pelas autoridades e não ser indiferente

Missa em Santa Marta
Na missa matutina, Francisco convidou a rezar pelas pessoas que têm a responsabilidade de tomar decisões diante da pandemia de coronavírus. Comentando o Evangelho, falou que a indiferença não pode deixar que nos esqueçamos de quem vive na dificuldade.

VATICAN NEWS

O Papa Francisco continua a nos acompanhar neste momento difícil com a missa na capela da Casa Santa Marta dedicada ao Espírito Santo. É a quarta celebração eucarística via streaming (VÍDEO INTEGRAL). Esta manhã, na sua introdução, convidou a rezar em especial pelas autoridades.

Continuamos a rezar juntos, neste momento de pandemia, pelos doentes, pelos familiares, pelos pais com as crianças em casa… mas, sobretudo, eu gostaria de pedir a vocês que rezem pelas autoridades: eles devem decidir e muitas vezes decidir medidas que não agradam o povo. Mas é pelo nosso bem. E muitas vezes, a autoridade se sente sozinha. Rezemos pelos nossos governantes que devem tomar a decisão sobre esses medidas: que se sintam acompanhados pela oração do povo.

Comentando o Evangelho do dia do rico opulente e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31), o Papa exortou a não ser indiferente ao drama daqueles que, sobretudo as crianças, sofrem a fome ou fogem das guerras e encontram diante de si somente muros. Eis o texto da homilia transcrita pelo Vatican News:

Esta narração de Jesus é muito clara; pode parecer uma narração para crianças: é muito simples. Jesus quer nos indicar com isso não só uma história, mas a possibilidade de que toda a humanidade viva assim, que todos nós vivamos assim. Dois homens, um satisfeito, que sabia se vestir bem, talvez buscasse os grandes estilistas da época para se vestir; usava roupas de púrpura e linho finíssimo. E depois vivia bem, pois todos os dias oferecia esplêndidos banquetes. Ele era feliz assim. Não tinha preocupações, tomava precauções, talvez alguma pílula contra o colesterol para os banquetes, mas assim a vida ia bem. Estava tranquilo.
À sua porta havia um pobre: se chamava Lázaro. Ele sabia que o pobre estava ali: ele o sabia. Mas lhe parecia natural: “Eu vivo bem e ele… mas assim é a vida, que se vire”. No máximo, talvez – o Evangelho não diz – às vezes dava alguma coisa, algumas migalhas. E assim a vida dessas duas pessoas passou. Ambos passaram pela Lei de todos nós: morrer. Morreu o rico e morreu Lázaro. O Evangelho diz que Lázaro foi levado ao Céu, ao lado de Abraão… Do rico diz somente: foi enterrado. Ponto. E acaba.
Há duas coisas que impressionam: o fato de que o rico soubesse que havia este pobre e que soubesse o seu nome, Lázaro. Mas não importava, lhe parecia natural. O rico talvez fizesse também os seus negócios que, no final, iam contra os pobres. Conhecia bem claramente, era informado sobre esta realidade. E a segunda coisa que me impressiona muito é a palavra “grande abismo” que Abraão diz ao rico. “Entre nós há um grande abismo, não podemos comunicar; não podemos passar de uma parte a outra”. É o mesmo abismo que na vida havia entre o rico e Lázaro: o abismo não começou lá, o abismo começou aqui.
Pensei no qual seria o drama deste homem: o drama de ser muito, muito informado, mas com o coração fechado. As informações deste homem rico não chegavam ao coração, não sabia se comover, não podia se comover diante do drama dos outros. Nem mesmo chamar um dos jovens que serviam o banquete e dizer “leve isto, aquilo a ele…”. O drama da informação que não chega ao coração. Isso acontece também a nós. Todos nós o sabemos, porque vimos no telejornal, vimos nos jornais quantas crianças sofrem a fome hoje no mundo; quantas crianças não têm os remédios necessários; quantas crianças não podem ir à escola. Continentes com este drama: nós o sabemos. Pobrezinhos….e continuamos. Esta informação não chega ao coração e muitos de nós, muitos grupos de homens e mulheres vivem este distanciamento entre aquilo que pensam, aquilo que sabem e aquilo que ouvem: o coração está separado da mente. São indiferentes. Assim como o rico era indiferente à dor do Lázaro. Há um abismo da indiferença.
Em Lampedusa, quando fui pela primeira vez, me veio esta palavra: a globalização da indiferença. Talvez nós hoje aqui em Roma estamos preocupados porque “parece que as lojas estão fechadas, eu tenho que comprar isto, e parece que não posso passear todos os dias, e parece que…”: preocupados com as minhas coisas. E esquecemos das crianças famintas, esquecemos daquela pobre gente que nos confins dos países buscam a liberdade, aqueles migrantes forçados que fogem da fome e da guerra e encontram somente um muro, um muro feito de ferro, um muro de arame farpado, mas um muro que não os deixa passar. Sabemos que isto existe, mas não chega ao coração… Nós vivemos na indiferença: a indiferença é este drama de estar bem informado, mas não sentir a realidade dos outros. Este é o abismo: o abismo da indiferença.
Depois há outra coisa que impressiona. Aqui sabemos o nome do pobre. A gente sabe. Lázaro. Também o rico sabia, porque quando estava nos ínfernos pede a Abraão que envie Lázaro. Ali o reconheceu: “Manda-me ele”. Mas não sabemos o nome do rico. O Evangelho não diz como se chamava este senhor. Não tinha nome. Tinha perdido o nome: havia somente os adjetivos da sua vida. Rico, poderoso… muitos adjetivos. Isso é o que o egoísmo provoca em nós: faz perder a nossa identidade real, o nosso nome, e somente nos leva a avaliar os adjetivos. A mundanidade nos ajuda nisto. Caímos na cultura dos adjetivos, onde o seu valor é aquilo que possui, aquilo que pode… Mas não “qual o seu nome?”: perdeu o nome. A indiferença leva a isto. Perder o nome. Somos somente os ricos, somos isto, somos aquilo. Somos os adjetivos.
Peçamos hoje ao Senhor a graça de não cair na indiferença, a graça de que todas as informações das dores humanas que temos cheguem ao coração e nos movam a fazer algo pelos outros.

(vaticannews)

terça-feira, 10 de março de 2020

Papa Francisco: sacerdotes, levem a Eucaristia aos doentes de coronavírus

Missa em Santa Marta
Nesta terça-feira (10), o Pontífice presidiu a segunda missa ao vivo, via streaming, direto da Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano. Além do novo encorajamento aos agentes sanitários que lutam contra o Covid-19 e das orações aos infectados, o Papa exortou os padres a levarem a hóstia a quem precisa permanecer em casa.

Andressa Collet – Cidade do Vaticano

As imagens da missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, que diariamente estão levando o encorajamento do Papa via streaming para o mundo, iniciaram nesta terça-feira (10) com um lento zoom da câmara sobre o crucifixo que se sobrepõe ao altar. Em seguida, aparece a figura de Francisco que sai da Sacristia.

Começa num silêncio total do local a cerimônia presidida pelo Pontífice. Um silêncio que o próprio Papa quebra logo ao recordar, como na missa desta segunda-feira (9), que a celebração é oferecida a quem sofre por causa do coronavírus, para quem cuida deles:

“Rezemos ao Senhor também pelos nossos sacerdotes para que tenham a coragem de sair e ir ao encontro dos doentes, levando a força da Palavra de Deus e a Eucaristia, e de acompanhar os profissionais de saúde, os voluntários, nesse trabalho que estão fazendo.”

A vaidade é venenosa e nunca cura

A homilia é inspirada no Evangelho, no qual os escribas e fariseus da época faziam exibição hipócrita da sua superioridade diante das pessoas, chamando-se de mestres, mas recusando de se comportar com coerência. A seguir, o texto da homilia, com uma transcrição do Vatican News, quando o Papa iniciou comentando:

“Ontem a Palavra de Deus nos ensinava a reconhecer os nossos pecados e a confessá-los, mas não somente com a mente, também com o coração, com um espírito de vergonha; a vergonha como uma postura mais nobre diante de Deus pelos nossos pecados. E, hoje, o Senhor chama todos, pecadores, a dialogar com Ele, porque o pecado nos fecha em nós mesmos, nos faz nos escondermos ou esconde a nossa verdade, dentro.

É isso que aconteceu com Adão, com Eva: depois do pecado, se esconderam porque tinham vergonha; estavam nus. E o pecador, quando sente a vergonha, depois tem a tentação de se esconder. E o Senhor chama: ‘Vamos, venham, vamos discutir’, diz o Senhor, ‘vamos falar do teu pecado, da tua situação. Não tenham medo. Não...’. E continua: ‘Mesmo se os pecados de vocês fossem como a cor de escarlate, vão se tornar brancos como a neve. Se fossem vermelhos como a púrpura, vão se tornar como lã’. ‘Venham, porque eu sou capaz de mudar tudo’, diz o Senhor, ‘não tenham medo de vir falar, sejam corajosos mesmo com as misérias de vocês’.

Me faz lembrar aquele santo, que tão penitente, rezava muito. E procurava sempre dar ao Senhor tudo aquilo que o Senhor lhe pedia. Mas o Senhor não estava feliz. E, um dia, ele estava um pouco irritado com o Senhor, porque tinha um certo temperamento, aquele santo. E disse ao Senhor: ‘Mas, Senhor, eu não te entendo. Eu te dou tudo, tudo, e tu sempre estás tão insatisfeito, como se faltasse alguma coisa. O que falta?’. [E o Senhor responde]: ‘Me dê os teus pecados: é isso que falta’.

Ter a coragem de ir falar com o Senhor com as nossas misérias: ‘Vamos, venham! Vamos discutir! Não tenham medo. Mesmo se os pecados de vocês fossem como escarlate, vão se tornar brancos como a neve. Se fossem vermelhos como a púrpura, vão se tornar como lã’.

Esse é o convite do Senhor. Mas sempre há um engano: ao invés de ir falar com o Senhor, fingir de não ser pecadores. É aquilo que o Senhor repreende aos doutores da lei. Essas pessoas fazem as obras ‘para serem admiradas pelas pessoas: ampliam os seus filactérios e alongam as franjas; estão satisfeitos pelos lugares de honra nos banquetes, dos primeiros lugares nas sinagogas, das saudações nas praças, como também de serem chamados Rabbi das pessoas’.

A aparência, a vaidade. Encobertar a verdade do nosso coração com a vaidade. A vaidade nunca cura! A vaidade nunca cura. Além disso, é venenosa, continua trazendo a doença do coração, trazendo aquela dureza de coração que te diz: ‘Não, não vá ao Senhor, não vá. Você fica.’

A vaidade é apenas o lugar para se fechar ao chamado do Senhor. Em vez disso, o convite do Senhor é aquele de um pai, de um irmão: ‘Venham! Vamos conversar, falar. Ao final, Eu sou capaz de mudar a tua vida do vermelho ao branco’.

“Que essa Palavra do Senhor nos encoraje; que a nossa oração seja uma oração real. Da nossa realidade, dos nossos pecados, das nossas misérias. Fale com o Senhor. Ele sabe, Ele sabe o que somos. Sabemos disso, mas a vaidade nos convida sempre a encobertar. Que o Senhor nos ajude.”

(vaticannews)

segunda-feira, 9 de março de 2020

Museus Vaticanos fechados a partir de hoje para evitar risco de contágio do coronavírus


A medida é preventiva, afirma um comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé divulgado ainda neste domingo (8), ao seguir as disposições do último decreto do governo italiano para conter a difusão do Covid-19. Turistas são direcionados a sanar dúvidas e reservas através de um endereço eletrônico disponibilizado para dar assistência.

Andressa Collet – Cidade do Vaticano

Já nesta segunda-feira (9), quem abrir as redes sociais e o site oficial dos Museus Vaticanos – seja para informações ou para agendar visitas – encontrará um aviso oficial de fechamento do local ao público. A medida segue as determinações do governo da Itália divulgadas em decreto oficial no domingo (8), como precaução para evitar a difusão do coronavírus.

Museus fechados até 3 abril por precaução

A Sala de Imprensa da Santa já havia divulgado um comunicado sobre o fechamento, até 3 de abril, dos Museus Vaticanos, do Reparto de Escavações – que realiza visitas especiais a sepulturas em baixo da Basílica, onde está o túmulo de São Pedro, por exemplo –, do Museu das Vilas Pontifícias e dos Museus das Basílicas Pontifícias. O site oficial dos Museus Vaticanos, ao se desculpar pela situação, indica um endereço eletrônico especial para ser usado em caso de necessidade neste período: help.musei@scv.va. O mesmo contato pode ajudar a esclarecer dúvidas sobre o fechamento, as reservas ou ainda dar algum tipo de assistência.

As medidas do governo italiano também serão observadas nos Dicastérios, em organismos da Santa Sé ou ligados a ela, além do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano. Em entrevista ao Vatican News, o vice-diretor da Direção de Saúde e Higiene do Governatorato, professor Andrea Arcangeli, confirmou que continuam normais, com medidas especiais de contingência, as atividades da farmácia, do supermercado e do refeitório do Vaticano. Em todos os serviços, porém, deverão ser respeitadas as medidas de precaução para conter o vírus, como o acesso controlado dentro dos locais para evitar aglomeração, inclusive na Basílica de São Pedro, que permanece aberta ao público e às orações dos fiéis.

(vaticannews)

Missa ao vivo da Santa Marta: o Papa a oferece aos doentes de coronavírus


Na manhã desta segunda-feira (09/03), o Papa Francisco celebrou a missa na Capela da Casa Santa Marta, transmitida ao vivo hoje e nos próximos dias, para manifestar sua proximidade cotidiana aos que estão envolvidos na epidemia de coronavírus.

Vatican News

Unidos ao Papa num momento difícil para estar mais unidos a Cristo, mais unidos entre nós. No Angelus deste domingo, um Angelus especial rezado da Biblioteca Apostólica, Francisco convidou “os fiéis a viverem este momento difícil com a força da fé, a certeza da esperança e o fervor da caridade”, buscando “um sentido evangélico neste momento de provação e dor”. Na missa celebrada nesta segunda-feira na Capela da Casa Santa Marta, o Papa se fez próximo aos que estão sofrendo:

Nestes dias, oferecerei a missa para os doentes dessa epidemia de coronavírus, para os médicos, enfermeiros, voluntários que ajudam muito, familiares, para os idosos que estão em casas de repouso e  para os presos. Rezemos juntos esta semana, esta oração forte ao Senhor: “Salva-me, Senhor, e dá-me misericórdia. Os meus pés estão no caminho certo. Na assembleia bendirei ao Senhor.

Na homilia, Francisco comentou a Primeira Leitura extraída do Livro do Profeta Daniel, recordando a necessidade de se reconhecer pecador. Segue a homilia, segundo a nossa transcrição.

A Primeira Leitura do Profeta Daniel é uma confissão dos pecados. O povo se reconhece pecador. “Senhor, você foi fiel a nós, mas pecamos, agimos como maus e ímpios. Fomos rebeldes, nos distanciamos dos seus mandamentos e de suas leis. Não obedecemos aos seus servos, os Profetas, que em seu nome falaram aos nossos reis, aos nossos príncipes, aos nossos antepassados e a todo o povo do país.”

Há uma confissão dos pecados, um reconhecimento de que pecamos. Quando nos preparamos para receber o Sacramento da Reconciliação, devemos fazer um “exame de consciência” e ver o que eu fiz diante de Deus: pequei. Reconhecer o pecado. Reconhecer o pecado não pode ser apenas fazer uma lista dos pecados intelectuais, dizer: “eu pequei”. Depois eu digo ao padre e o padre me perdoa. Não é necessário, não é justo fazer isso. Isso seria como fazer uma lista das coisas que eu devo fazer ou que eu devo ter ou que fiz mal, mas que permanece na cabeça. Uma confissão verdadeira dos pecados deve permanecer no coração. Confessar-se não é apenas dizer ao sacerdote essa lista: “Fiz isso e aquilo”, e depois vou embora. Estou perdoado. Não, não é justo. É preciso dar um passo, um passo a mais, que é a confissão de nossas misérias, mas com o coração, ou seja, que aquela lista que eu fiz de coisas ruins desça ao coração. Assim faz Daniel, o Profeta. “A ti, Senhor, convém a justiça; e a nós, ter vergonha”.

Quando reconheço que pequei, que não rezei direito e sinto isso no coração, me vem esse sentimento de vergonha: “Envergonho-me de ter feito isso. Peço-lhe perdão com vergonha”. A vergonha pelos nossos pecados é uma graça, devemos pedi-la:

“Senhor, que eu tenha vergonha”. Uma pessoa que perdeu a vergonha, perde a autoridade moral, perde o respeito pelos outros. Um desavergonhado. O mesmo acontece com Deus: resta-nos ter vergonha.  A ti convém a justiça; a nós, a vergonha. A vergonha no rosto, como hoje. “Senhor, continua Daniel, resta-nos ter vergonha no rosto: a nossos reis e príncipes, e a nossos antepassados, pois que pecamos contra ti”. Ao Senhor nosso Deus, antes tinha dito convém a justiça, agora diz: cabe a misericórdia.

Quando nós temos não apenas a recordação, a memória dos pecados que fizemos, mas também o sentimento de vergonha, isso toca o coração de Deus que responde com misericórdia. O caminho para ir ao encontro da misericórdia de Deus é envergonhar-se das coisas ruins, das coisas más que fizemos. Assim, quando vou confessar-me vou dizer não somente a lista de pecados, mas os sentimentos de confusão, de vergonha por ter feito isso a um Deus tão bom, tão misericordioso e justo.

Peçamos hoje a graça da vergonha: de ter vergonha dos nossos pecados. Que o Senhor conceda a todos nós essa graça.

(vaticannews)

domingo, 8 de março de 2020

Papa Francisco - Oracão do Angelus 2020-03-08

Coronavírus: viver este momento com a força da fé, encoraja o Papa


"Que o tempo da Quaresma nos ajude a dar um sentido evangélico também a este momento de provação", disse o Papa ao manifestar sua solidariedade às pessoas afetadas pelo coronavírus.

Bianca Fraccalvieri - Cidade do Vaticano

A força da fé, a certeza da esperança e o fervor da caridade: foram os conselhos do Papa Francisco aos bispos, para que ajudem os fiéis a viverem este momento marcado em muitos países pelo combate ao coronavírus.

No Angelus dominical, realizado justamente dentro da Biblioteca Apostólica para evitar risco de contágio entre os fiéis, o Pontífice manifestou mais uma vez sua proximidade aos que sofrem com o vírus e aos profissionais da área da saúde.

“Uno-me aos meus irmãos bispos para encorajar os fiéis a viverem este momento difícil com a força da fé, a certeza da esperança e o fervor da caridade. Que o tempo da Quaresma nos ajude a dar um sentido evangélico também a este momento de provação.”

Ao final da saudação, o Papa anunciou que iria assomar à tradicional janela de onde é feito o Angelus para ver os fiéis "um pouco em tempo real". E assim fez, saudando de longe os presentes.

Modificações
A Audiência Geral de 11 de março também se realizará seguindo o mesmo procedimento. O evento será transmitido ao vivo pelo Vatican News e nos telões na Praça São Pedro e distribuído pelo Vatican Media aos meios de comunicação que solicitarem.
De acordo com um comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, essas medidas são necessárias para evitar riscos de difusão do COVID-19 durante a fase dos controles de segurança para entrar na Praça, como solicitado também pelas autoridades italianas.
Respeitando a determinação da Direção de Saúde e Higiene do Estado da Cidade do Vaticano, até o dia 15 de março estará suspensa a participação dos fiéis nas missas realizadas na Santa Marta. O Santo Padre celebrará a Eucaristia em caráter privado. 

(vaticannews)

HOJE É O DIA DO SENHOR



II DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA

Do Tabor ao Calvário

A Vida cristã pode ser comparada a uma caminhada
que deve ser percorrida na escuta atenta de Deus,
na observância total aos seus planos.
A Quaresma é um momento forte para rever essa caminhada.

As Leituras bíblicas de hoje nos ajudam...

Na 1a Leitura, vemos a caminhada de Abraão: (Gen 12,1-4)

- Deus chama Abraão, convida-o a deixar a terra e a família e
  a partir ao encontro de uma outra terra,
  para ser um sinal de Deus no meio dos homens.
- Deus lhe oferece a sua bênção e a promessa de uma família numerosa,
  que será testemunha da Salvação de Deus diante de todos os povos.
- Diante do desafio de Deus, Abraão pôs-se a caminho.
  Abraão percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração.

* Confiante na Palavra de Deus, mostrou-se disposto a deixar tudo
   e iniciou uma caminhada em busca da Terra Prometida.
   Também nós somos peregrinos em busca de uma Terra Prometida.

Na 2ª leitura, São Paulo exorta Timóteo a superar a sua timidez e
a ser um modelo de fidelidade no testemunho da fé. (2Tm 1,8b-10)

* É um apelo aos seguidores de Jesus,
   a serem verdadeiras testemunhas do projeto de Deus no mundo.
   Nada poderá afastar o discípulo dessa responsabilidade.

No Evangelho, vemos a Caminhada de Jesus:  (Mt 17,1-9)

A caminho de Jerusalém, Jesus faz o primeiro anúncio da Paixão.
O caminho da salvação esperado pelos discípulos é bem diferente.
Por isso, ficam profundamente desanimados e frustrados.
A aventura parece encaminhar-se para um grande fracasso.
- Para fortalecer o ânimo profundamente abalado dos discípulos,
Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João,
e revela-lhes no Monte Tabor a glória da divindade.
Após um momento de medo, eles reencontram a paz e a alegria.

Com a TRANSFIGURAÇÃO, Mateus quer duas coisas:
- Revelar: QUEM É JESUS: É "o Filho amado do Pai" e
- Convidar: "Escutem o que ele diz".

* Pela Transfiguração, Deus demonstra que uma existência feita dom
não é fracassada, mesmo quando termina na cruz.
A Celebração da Transfiguração de Jesus nos faz
Testemunhas vivas da meta que nos aguarda.

- Por que Moisés e Elias?
  Eles representavam para os israelitas todo o Antigo Testamento.
  Jesus é a explicação e a realização de toda a Lei e os Profetas.
  No Monte Sinai, falavam com Deus, aqui estão falando com Jesus...
- Israel era o filho predileto de Javé.
  Jesus é o Filho predileto do Pai, que os discípulos devem ouvir.

  Por isso: "os três levantaram os olhos e viram só Jesus."
  Moisés e Elias desapareceram, já cumpriram a sua missão:
  apresentar ao mundo o Messias, o novo Profeta, o novo Legislador.

O Prefácio resume o sentido do evangelho de hoje:
"Cristo, depois de anunciar a morte a seus discípulos,
mostrou-lhes no Monte santo o esplendor de sua glória
para testemunhar, de acordo com a Lei e os Profetas,
que a Paixão é o caminho da Ressurreição."

A Nossa caminhada para Deus:
Também nós somos chamados por Deus a uma caminhada,
que é íngreme e difícil, como a escalada de uma alta montanha.
No final dessa viagem, que começa com o BATISMO,
seremos envolvidos pela mesma "nuvem luminosa",
que envolveu o Mestre e brilharemos como o sol no reino do Pai.
Como os apóstolos, também seremos tentados a desanimar.
Mas Jesus nos dá força para enfrentar e olhar além.
Ao transfigurar-se aos apóstolos na glória da Trindade,
quis manter viva neles a chama da esperança.
Com a sua morte, o sonho não tinha acabado.
Por isso, eles e nós não devemos desanimar, por causa da cruz.

+ "Descer o Monte"
Na Transfiguração, Jesus nos revela também o valor da Vida.
Em Jesus aparece a beleza do ser humano,
que deve ser respeitado em todas as etapas da sua existência
e com ele toda natureza que o envolve.

Diante das ameaças e agressões à Vida, Jesus nos tranqüiliza:
"Levantai-vos. Não tenhais medo!".
Convida-nos a "descer o Monte" e retomar
a dolorosa caminhada em defesa da Vida.

Pela Transfiguração, Jesus mostra que essa realidade hostil,
em que vivemos, pode e deve ser mudada, transfigurada...
O caminho é escutar o Filho amado e segui-lo com fidelidade...

Que a Caminhada Quaresmal nos ajude a descobrir esse Cristo glorioso,
a escutar e acolher a sua voz
para que a Páscoa aconteça dentro de cada um de nós.


     Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa - 08.03.2020

(buscandonovasaguas)

sábado, 7 de março de 2020

A comunicação de risco em Saúde Pública: Portugal pode ser o Manual das Más Práticas


O que pretendiam as nossas autoridades da Saúde com essa mega conferência de imprensa? Tranquilizar os portugueses? Garantir que acreditávamos neles, porque eram vários a fazer as mesmas declarações?
07 mar 2020, 00:073

Desde de que as notícias sobre a epidemia de covid-19, quando ainda não se chamava assim, se tornaram elas próprias “virais”, que a comunicação pública sobre este tema em Portugal tem sido algo que vale a pena observar. Infelizmente, não pelas melhores razões.
Ao contrário do já defendido aqui no Observador a comunicação pública de risco, neste caso concreto, em Portugal tem sido: 1. Errática; 2. incoerente; 3. pouco clara; 4. insuficiente no que importa; 5. demasiada no que não importa; 6. ao sabor das crises e fluxos de informação dos próprios meios de comunicação, nacionais e internacionais.
Senão vejamos: A principal responsável pela comunicação de risco em saúde em Portugal, a DGS, tem demonstrado, na informação que nos transmite pelas vias oficiais, nomeadamente o seu site, mas também nos comunicados, entrevistas, aparições na televisão, dificuldade em ser clara, pragmática e, simultaneamente, tranquilizadora.
Tudo gira em torno do número de casos suspeitos (andámos semanas a contar casos suspeitos, em ansiedade à espera do 1º, como se de uma competição se tratasse – é preciso ser rápido e mostrar que se é rápido), e agora que já há casos confirmados, vamos continuar a contá-los, como se a isso se resumisse a nossa forma de lidar com o problema.
E quando tal não se fez, o resultado ainda foi pior.
Ao divulgar publicamente um possível “cenário” de 1 milhão de infetados em Portugal, por COVID-19, mesmo que depois tenha feito diversos esforços para corrigir a amplitude de reações a esta afirmação, ela teve, necessariamente, efeitos graves, nomeadamente junto da população mais idosa e mais vulnerável a notícias de elevada divulgação nos meios de comunicação tradicionais, como é a televisão.
Como agravante às insensatas declarações públicas sobre “cenários”, facilmente confundíveis pela população em geral com “previsões”, a comunicação social tem divulgado incessantemente imagens de supermercados com prateleiras vazias (em geral em Itália e na Coreia do Sul), mas que levou a uma tendência generalizada para a procura de bens de mais longa duração como enlatados, além dos já tradicionais toalhetes, álcool, e as famosas máscaras (aparentemente inúteis), mas já esgotadas em muitas farmácias. Isto, naturalmente, sem falar da quase histeria na contagem dos suspeitos e dos infetados.
Representantes políticos continuam a confundir o público, transmitindo mensagens contraditórias. Não falo só em linguagem verbal. Aconselha-se o “distanciamento social”, na voz do primeiro-ministro, por exemplo, e no entanto, o nosso Presidente da República, não só acha a expressão “exagerada”, como ainda no dia 2 de março  recebeu no Palácio de Belém 36 atletas de 16 países, não poupando os afetos.
Para completar uma “festa” de má comunicação pública de risco, e uma clara comunicação pública de medo, eis que chega a conferência de imprensa, na manhã de dia 2 de março, com a presença de 4 (quatro!) altos cargos na área da saúde (ministra da Saúde, diretora da DGS, secretário de Estado da Saúde e diretor do Instituto Ricardo Jorge), para informar os portugueses de que (finalmente) existem 2 casos confirmados de cidadãos portugueses em Portugal infetados por COVID-19 (à data de hoje, dia 5, são 8 casos). A pergunta que se impõe: quando forem 100, ou mais, ou perto disso, quem irá fazer a conferência de imprensa? O governo em peso, na companhia do senhor Presidente da República? E para dizer o quê?
O que exatamente pretendiam as nossas autoridades da Saúde com esta conferência de imprensa? Tranquilizar os portugueses? Garantir que acreditávamos neles, porque eram vários a fazer as mesmas declarações? Não deixar o protagonismo em mãos alheias? Partilhar visibilidade? Ou responsabilidades?
Aliás, num qualquer noticiário televisivo, apenas como exemplo, é possível ouvir declarações sobre o Covid-19 da parte de todo e qualquer responsável político: já ouvimos, para além dos titulares de cargos da Saúde, o ministro da Economia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministro da Administração Interna, os ex-diretores da DGS (repetidamente em diversos momentos), responsáveis militares, etc., etc., etc.
Numa muito rápida pesquisa sobre como a comunicação pública sobre o Covid-19 tem sido realizada noutros países, nomeadamente no Reino Unido (o NHS-National health Service – tem sido o nosso modelo preferido nos últimos anos) ou nos EUA, (onde o CDC – Center of Disease Control – tem muitos anos de prática a lidar com comunicação de crise), ficamos logo com uma imagem muito clara do que poderia estar a ser feito em Portugal nesta área, e manifestamente não está.
Veja-se o Reino Unido. No seu site oficial remete imediatamente para um outro site específico sobre o Covid-19 onde, numa linguagem muito clara e bem dirigida, se explica de que se trata, como prevenir, fornece informações específicas para viajantes, profissionais de saúde, etc. Também abre uma ligação para a “resposta governamental à epidemia” onde divulga o plano de ação governamental, ele próprio. Pode, inclusivamente, consultar-se o documento, com data de 3 de março, chamado “Coronavirus: action plan – A guide to what you can expect across the UK”, um documento de 30 páginas, com uma linguagem muito clara e muito informativo, da autoria do “Emergency and Health Protection Directorate”.
Nos EUA, o CDC abre diretamente a sua página, encaminhando o cidadão para o que realmente importa, ou seja: como prevenir que o COVID-19 se espalhe nas comunidades, dando indicações específicas para cada caso, nomeadamente, o que fazer para prevenir ou em caso de uma crise mais generalizada: em casa, nas escolas, nas universidades, no trabalho, em comunidades de culto ou outras, em eventos de maior escala, para os profissionais de saúde e para a proteção e apoio ao cidadão de primeiro nível, como é o caso dos bombeiros.
Outro exemplo significativo é o da Suécia. Também apresenta um site claro e simples do ponto de vista informativo, mas tem uma abordagem muito interessante, uma vez que é um país com muita emigração chinesa e iraniana, que é a disponibilizar a mesma informação, mas em chinês e persa/farsi. Portugal, país com tantos emigrantes, poderia também pensar na importância da comunicação com essas comunidades.
Uma consulta a estes exemplos de comunicação pública de risco pelas nossas autoridades com responsabilidades nessa matéria poderiam ser um caminho para evitar más praticas de comunicação que produzem, necessariamente, más práticas de cidadania e menos responsabilidade individual e social nos cidadãos portugueses.
As autoridades responsáveis pela comunicação pública de Saúde não podem, nem devem, controlar a informação que é difundida pelos órgãos de comunicação social, sendo que essa se deve reger por códigos de conduta próprios dos profissionais da comunicação. Muito menos pode, ou deve, controlar o que se vai passando na comunicação on line, nomeadamente nas redes sociais, esse “demónio” que espalha notícias falsas. Mas culpabilizar as “fake news” divulgadas por esses meios parece ser, nos últimos tempos, uma maneira fácil de disfarçar uma fraca capacidade de comunicar com os cidadãos quando as matérias são sensíveis. Até porque, as redes sociais têm públicos fragmentados e um tipo de comunicação muito difícil de rastrear ou classificar. Só uma comunicação pública de risco de grande responsabilidade e qualidade pode mitigar efeitos perversos de mensagens divulgadas por meios tão vastos e ecléticos como as redes sociais.
Uma comunicação de risco em saúde responsável e eficaz exige que seja realizada por um interlocutor institucional, no máximo, e que seja alguém credível, capaz de dizer a verdade, com clareza, e de transmitir, simultaneamente, confiança e tranquilidade. Essa informação deve chegar, igualmente, aos sites, às redes sociais, aos media tradicionais, para que depois passe de boca em boca, sem histerias e sobressaltos.
Contribuir para ter cidadãos mais e melhor informados, conscientes, autónomos e responsáveis, são a única forma de lidar com uma situação generalizada de risco em saúde pública, e para tal temos de ter uma comunicação pública em saúde mais responsável, mais profissional e menos política, capaz de recorrer a especialistas em comunicação pública ou, pelo menos, capaz de aprender com autoridades de outros países que sabem fazer mais e melhor.
Professora e Investigadora na área da Comunicação e Saúde


Pregação de Quaresma: como Maria, somos chamados a uma conversão permanente


Foi realizada no Vaticano, pelo padre Rupnik, a primeira pregação da Quaresma para o Papa e para a Cúria, centralizada no tema: “Junto da Cruz de Jesus estava sua Mãe”

Amedeo Lomonaco – Cidade do Vaticano

Hoje as gerações se confrontam com a realidade porque não é aquela que imaginaram, desejaram e por isso não a compreendem. Maria, ao contrário, continuamente compreende “a Palavra de um modo novo”. A pregação da Quaresma do jesuíta padre Marko Ivan Rupnik para o Santo Padre e a Cúria Romana é orientada nesta outra compreensão da história.

Maria e a Palavra
“Maria – explica o pregador – compreende a Palavra de um modo diverso”. Sua compreensão é uma “conversão permanente”. Ela é continuamente “desafiada por uma novidade”: “Ela pode compreender permanentemente a Palavra de um modo novo e com esta ela compreende a realidade”. Maria estava sob a Cruz, recorda o padre Rupnik, e sobre a Cruz estava escrito “Rei”. Não é possível pensar que “ali não pensasse na Palavra que lhe tinha sido dita: estarás no trono de Davi”. A Cruz é o único lugar onde está escrito que seu Filho é rei. A Cruz é o trono onde se encontra Cristo. Sem o Espírito Santo, acrescenta o padre jesuíta, não se pode compreender o dom que Deus nos deu. O dom é o Crucifixo e “nós somos unidos a esse evento”.
“A história é gerida através do dom de si, através do amor (Padre Rupnik)”

Deus é amor
Padre Rupnik sublinha que sem o Espírito Santo “não podemos compreender que Deus existe verdadeiramente como amor”. Amor significa “doar a si mesmo”. O amor se realiza com o dom de si. É uma coisa chocante, explica, que nos pede para irmos além da nossa mentalidade. Em Cristo, vemos “a verdade de Deus”. Compreender um Deus que se doa deste modo, “coloca em dificuldade as abordagens racionalistas à fé”. “Deus Pai governa o mundo e a história através do Cordeiro, o dom da fé”. “A história é gerida através do dom de si, através do amor”.

Da Quaresma ao Tríduo Pascal
O amor, que “no céu é uma Bem-aventurança absoluta”, na Terra é o Tríduo pascal. Por isso, é preciso se preparar através do caminho quaresmal. É preciso saber entender, sublinha padre Rupnik, que “a nossa presença na história encontra sentido através do Tríduo pascal”. Deve-se compreender todo o dom é consumido: “quem se doa se consome, não se poupa”. Então o testemunho é possível apenas graças ao Espírito Santo.

Viver o dom de si
É o Senhor que dá a vida: com o Espírito Santo, podemos viver a vida como “dom de si”. Deus derrama nos nossos corações o amor do Pai. Este, conclui padre Rupnik, é caminho da Igreja na história. É um caminho pascal. Nós como Maria, “somos chamados a uma conversão contínua para ver que a história procede segundo a Providência”. E que Deus “se manifesta neste mundo através da nossa presença”.

(vaticannews)