quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Francisco em Chipre e na Grécia: o "alfabeto" de uma viagem às raízes da Europa


Com o voo papal no final da manhã desta quinta-feira teve início a 35ª viagem apostólica internacional de Francisco, que até o dia 6 de dezembro estará em Nicósia, Atenas e Mytilene-Lesbos. Um itinerário marcado por grandes temas, em particular os da unidade cristã e do acolhimento dos migrantes.

Isabella Piro, Silvonei José – Vatican News

O A dos Apóstolos Barnabé e Paulo, o E de ecumenismo, o M de migrantes, o H de humanidade, o mesmo invocado pelo Papa em relação às muitas pessoas que morrem no Mar Mediterrâneo. Naquele "mare nostrum" sobre o qual se debruçam Chipre e Grécia, prontos para acolher o Papa a partir desta quinta-feira até à próxima segunda-feira. O alfabeto da 35ª viagem apostólica internacional de Francisco - a terceira em 2021, após a histórica visita ao Iraque em março e a peregrinação a Budapeste e à Eslováquia em setembro - está incluído nestas letras, iniciais de palavras que dão forma concreta ao significado de um itinerário que, num período de 4 dias, 1 hora e 35 minutos, fará com que o Papa percorra um total de 4.643 km. As várias etapas da viagem papal serão marcadas pelos 11 discursos que Francisco deverá proferir nas várias ocasiões, divididos em discursos reais (9), homilias (2) e Angelus (1). Dez, por enquanto, são os temas que parecem emergir mais claramente.


Apóstolos

São Barnabé e São Paulo foram os evangelizadores de Chipre, onde chegaram juntos em 46, e da Grécia, uma terra de fé profundamente enraizada. Duas figuras imponentes, firmes na fé e fortes na amizade, em nome de Cristo. É nas suas pegadas missionárias, portanto, que o Papa Francisco se apresenta, seguindo seus exemplos de pregadores do Evangelho em dois países que idealmente unem o Oriente e o Ocidente. Como o Pontífice assinalou na Audiência Geral desta quarta-feira, o que tem início nesta quinta-feira "será uma viagem às fontes da fé apostólica e da fraternidade entre cristãos de várias confissões".


Consolação

O lema da etapa de Francisco em Chipre é "Consola-nos na fé", inspirado no nome de São Barnabé, que pode significar "filho da consolação". Desta forma, explica uma nota oficial, o objetivo é sugerir a importância do conforto e encorajamento mútuos, "dimensões essenciais para o diálogo, encontro e acolhimento, bem como traços salientes da vida e história da ilha". Chipre tem na sua história muitos séculos conturbados, marcados primeiro pelo domínio otomano, depois pelo domínio britânico e finalmente pela invasão da Turquia. Simbolizando tudo isto, ainda hoje, está a "linha verde", o muro militar que corta Nicósia de noroeste para sudoeste, tornando-a a única capital do mundo ainda dividida em duas fracções separadas: a do sul, capital da República de Chipre, e a do norte, capital da República do Norte de Chipre, reconhecida apenas por Ancara. Apesar desta complexa realidade, a ilha é um exemplo positivo: basta mencionar as palavras de Bento XVI que visitou o país em junho de 2010. “Chipre pode desempenhar um papel especial na promoção do diálogo e da cooperação", disse o então Pontífice. "O caminho que está percorrendo é um caminho que a comunidade internacional olha com grande interesse e esperança”.


Ecumenismo

Em ambos os países, Francisco irá se encontrar com os líderes das Igrejas Ortodoxas locais. Nesta sexta-feira de manhã, 3 de dezembro, no arcebispado de Nicósia, fará uma visita de cortesia à Sua Beatitude Chrysostomos II, arcebispo ortodoxo de Chipre. Depois um encontro com o Santo Sínodo na Catedral Ortodoxa da cidade. Na tarde de 4 de dezembro, porém, no arcebispado Ortodoxo da Grécia, o Papa irá se encontrar com Sua Beatitude Ieronymos II, arcebispo de Atenas e de toda a Grécia. O próprio Ieronymos II retribuirá a reunião na noite de domingo, 5 de dezembro, saudando o pontífice na Nunciatura. As conversações com os dois arcebispos ortodoxos terão lugar "em nome do Senhor da paz", explicou o Pontífice na mensagem vídeo de saudação aos habitantes dos dois países, divulgada nos últimos dias, e ambas as visitas trarão consigo "uma graça sinodal, uma fraternidade apostólica", unida a "grande respeito".


Europa

Na mesma mensagem vídeo, o Papa definiu esta viagem como "uma oportunidade de beber das antigas fontes da Europa: Chipre, uma extensão da Terra Santa no continente; Grécia, a pátria da cultura clássica". Não só: ambos os países são abraçados pelo Mediterrâneo, aquele "mare nostrum" do qual "a Europa não pode prescindir", salientou Francisco. Essas águas, de fato, ligam tantas terras, convidando-nos a "navegar juntos, não a dividir-nos indo cada um por si, especialmente neste período em que a luta contra a pandemia ainda requer muito empenho e a crise climática incumbe pesadamente".


Fraternidade

Atualmente, a Igreja Católica cipriota é composta principalmente por fiéis latinos, que são 38.000 (4,47%), e por maronitas (1,5%), mais uma pequena comunidade católica armênia (0,3%). Na Grécia, por outro lado, existem 133.000 católicos numa população de quase 11 milhões (1,2%). Destes, menos da metade são gregos. Nas últimas décadas, a presença de católicos de origem estrangeira que se estabeleceram permanentemente na Grécia cresceu significativamente. A estes devem juntar-se vários milhares de trabalhadores imigrantes com autorizações de residência temporária e requerentes de asilo. São, portanto, "pequenos rebanhos", como explicou o Papa Francisco, "irmãos e irmãs católicos que o Pai ama com muita ternura e a quem Jesus o Bom Pastor repete: 'Não temas, pequeno rebanho' (Lc 12,32)". A eles, num espírito de fraternidade, o Papa levará "o encorajamento de toda a Igreja Católica".


Jovens

Tal como com em outras viagens de Francisco, esta 35º viagem apostólica será encerrada com um encontro com os jovens: na manhã de 6 de dezembro, pouco antes de partir para Itália, o Papa saudará os jovens gregos na Escola S. Dionísio das Irmãs Ursulinas em Maroussi (Atenas). Francisco ouvirá as vozes de muitos jovens, cruzará com seus olhares, acolherá os testemunhos daqueles que vêm de países dilacerados por décadas de conflito, tais como a Síria. O fato que o último grande evento da visita papal seja precisamente um abraço ideal com as gerações mais jovens destina-se a ser uma forte mensagem de recuperação, não só para a Grécia, mas também para o mundo inteiro.


Migrantes e o Mediterrâneo

Este é o tema principal desta viagem, que será expresso em dois momentos chave do programa: nesta sexta-feira, às 16 horas, na igreja paroquial de Santa Cruz em Nicósia, Francisco participará de um momento de oração ecumênica com os migrantes. No domingo de manhã, em vez disso, irá a Mytilene-Lesbos para encorajar os refugiados acolhidos no "Centro de Acolhimento e Identificação".  Na ilha, o Papa terá "a oportunidade de se aproximar de uma humanidade ferida na carne de tantos migrantes em busca de esperança", como recordou nesta quarta-feira na Audiência Geral. Neste caso, será a segunda vez que o Papa irá a essa ilha, que já tinha visitado em 16 de abril de 2016 para levar proximidade e solidariedade aos refugiados no campo de Moria. No seu regresso dessa visita, no voo papal, Francisco acolheu 12 refugiados sírios e acompanhou-os a Roma para lhes oferecer assistência. Na mensagem vídeo para esta viagem, o próprio Pontífice disse: "penso naqueles que, nos últimos anos e ainda hoje, fugiram da guerra e da pobreza, chegando às costas do continente e em outros locais, e encontrando não hospitalidade, mas hostilidade, e até mesmo sendo explorados. Eles são nossos irmãos e irmãs. Quantos perderam as suas vidas no mar! Hoje 'o nosso mar', o Mediterrâneo, é um grande cemitério". Daí o seu forte apelo: "O mar, que abraça muitos povos, com os seus portos abertos, lembra-nos que as fontes de vida em conjunto residem na acolhida mútua".


Paz

O logotipo da viagem do Papa a Chipre retrata, além de Francisco e São Barnabé, um ramo de oliveira atado a uma espiga de trigo, sinais de paz e de comunhão. Para a Grécia, por outro lado, foi criado um desenho que representa a Igreja como um barco nas águas turbulentas do mundo, com a Cruz de Cristo como o mastro principal e o Espírito Santo a encher as velas. A sua forma e cor amarela evocam a mitra papal, sublinhando que Francisco chega como um "amigo da Grécia".


Esperança

O lema da viagem apostólica à Grécia é "Abramo-nos cada vez mais às surpresas de Deus". A frase é retirada da mensagem do Papa para o 36º Dia Mundial da Juventude, celebrado em 21 de novembro passado, e que na sua versão completa diz: "Estejamos abertos às surpresas de Deus, que quer iluminar o nosso caminho com a sua luz". Há um claro apelo à esperança: como explica uma nota oficial, "num momento em que estamos sofrendo as consequências da pandemia e da recente crise financeira, expressamos a nossa esperança de que a visita do Papa traga um raio de luz para o futuro da Grécia". Após a grave crise da dívida soberana que começou em 2009, a nação grega viu a sua situação econômica desabar, de tal modo que teve de recorrer três vezes ao plano internacional de salvamento. Em 2018, o país mostrou alguns sinais de recuperação, mas pouco depois a pandemia da Covid-19 virou novamente a situação. Até hoje, a nação helênica registou mais de 924.000 contágios por coronavírus e quase 18.000 mortes. Para não mencionar os danos que a emergência sanitária causou a setores-chave como o turismo e a indústria da construção naval, tanto que em 2020 o PIB nacional diminuiu 8,2%, enquanto a dívida pública saltou para mais de 200% do PIB nacional, o mais alto da União Europeia.


Humanidade

Especialmente para a etapa em Lesbos, Francisco descreveu-se como "um peregrino às fontes da humanidade", firme na sua convicção de que "as fontes da vida comum só voltarão a florescer na fraternidade e na integração: juntos". "Não há outra forma", reiterou ele. E assim é a partir do "passado luminoso" da Grécia, mas também de Chipre, dois "países ricos em história, espiritualidade e civilização", que o Pontífice parece estar pedindo a todos, católicos e não-católicos, um estremecer de humanidade, um futuro de nova esperança.


(vaticannews)

Vatican Media Live - Português

Santo do dia: Santa Bibiana



Santa Bibiana

VIRGEM, MÁRTIR, +363

Celebrado A 2 De Dezembro


Seu pai, Flaviano, antigo prefeito de Roma, e sua mãe, Dafrosa, foram martirizados durante o curto e ímpio reinado de Juliano o Apóstata.

Bibiana foi obrigada a passar seis meses num prostíbulo, para que se perdesse, mas com a graça de Deus conservou a fé e a pureza intactas.

Depois disso foi chicoteada até à morte.


Evangelho Quotidiano

Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. João 6, 68


Homilia Diária | Ai de quem reza, mas não muda! (Quinta-feira da 1.ª Sem...

Laudes de Quinta-feira da 1ª Semana do Advento

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

SANTA MISSA DIRETO DO SANTUÁRIO DE FATIMA 01 12 2021

Homenagem aos Heróis da Restauração e da Guerra da Aclamação

Dia de Portugal

 



Hoje, é o nosso dia: o Dia de Portugal por natureza das coisas. É o dia - 1.º de Dezembro - em que celebramos a independência, o facto de sermos livres e soberanos, senhores de nós, de podermos escolher o nosso destino, eleger os nossos amigos, parceiros e aliados, termos voz própria nossa no contexto internacional. É o dia sem o qual não seríamos. Olhando ao mundo (hoje) e à história (desde sempre), vemos como é um precioso privilégio.

Há também o Dia de Portugal no 10 de Junho, com um outro olhar sobre nós: o olhar da língua e das comunidades, o olhar de Camões, o Portugal da Portugalidade. O dia 1 de Dezembro é o dia do Portugal que, tendo nascido, mais tarde se restaurou, o dia sem o qual nem o 10 de Junho existiria. É o dia da terra, o dia das raízes e do tronco, o dia em que, perante todos, nos afirmamos livres, próprios e de pé.

Faz, hoje, 10 anos que, noutro 1.º de Dezembro, ouvi, num telejornal na RTP, o meu antecessor na Sociedade Histórica protestar contra o anúncio da eliminação do feriado. A jornalista dizia que era a última vez que se celebrava o 1.º de Dezembro. José Alarcão Troni respondeu que isso não podia ser, porque o 1.º de Dezembro era "a data sine qua non". É isto mesmo: a data sem a qual, nada. O feriado foi, por isso, defendido e acabaria restaurado.

É curiosa a história e a valia desta data, estimada, seguida e lembrada espontaneamente em inúmeras localidades do país, de modos populares muito simples, às vezes comoventes na sua simplicidade, mesmo longe dos grandes meios de comunicação social. Curioso como celebramos a independência nacional, não com referência às grandes datas da fundação (com marcos em 1128, 1139, 1143 e 1179), mas convocando a grande data de 1640. Faz sentido, porque, no único período da nossa História em que fomos perdendo a independência (1580-1640), esse foi o dia em que a resgatámos, restaurando a separação da nossa Coroa. Faz sentido, porque sentimos mais os bens essenciais quando os perdemos. A guerra de 1640 a 1668, na Europa e em possessões ultramarinas, foi o duríssimo sinal do seu alto preço.

Sendo uma monarquia, o 1.º de Dezembro é uma data como que em modo republicano, porque tivemos que romper a dinastia para restaurar com D. João IV, Duque de Bragança, a liberdade. Um facto semelhante à crise do século XIV (1383-85), quando também tivemos que romper outra dinastia para, com D. João I, Mestre de Aviz, defender a liberdade de Portugal.

Instituído o feriado em 1910, com o advento da República e definidos os feriados ao modo dos Estados modernos, foi especialmente feliz o nome por que, então, o 1.º de Dezembro foi festejado: "Dia da Autonomia da Pátria Portuguesa e da Bandeira", as duas denominações escolhidas por decretos dos Governos provisórios de Outubro e Novembro de 1910.

Há muitos debates, talvez demasiada conversa, em torno de sabermos se temos muitos ou poucos recursos - e quais são -, se somos pobres ou somos ricos, se temos futuro e qual. Não tenho dúvida nenhuma: temos muitos e importantes recursos, só temos que definir o que fazer com eles. Construí uma teoria a esse respeito.

Mas o maior recurso de Portugal é Portugal ele mesmo, é o facto de sermos. É verdadeiramente formidável: os portugueses que somos, o território que temos (terra, mar e ar), a extraordinária posição geográfica, a História e a Língua por todo o mundo. Fantástico! Cada vez gosto mais de Portugal. Não me canso de gostar de Portugal.

E como não temos futuro? Como pode pensar isso quem é de um país prestes a comemorar 900 anos? Quem o diria possível quando começou 1128? Quem o acharia provável antes de Aljubarrota ou depois de Alcácer Quibir? Quantos países há com nove séculos? Quantos há, como a Nau Catrineta, que tenham muito para contar?

De longe vimos, para longe vamos. Temos imenso onde assentar brio e amor-próprio, ânimo e propósito, sonho e ambição. Que privilégio sermos Portugal!


Presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Ribeiro e Castro


1 de Dezembro - Feriado Nacional | Restauração da Independência de Portugal

Mensagem de S.A.R. o Senhor Dom Duarte de Bragança aos portugueses a 1 d...

AUDIÊNCIA GERAL (Texto)

 PAPA FRANCISCO

AUDIÊNCIA GERAL

Sala Paulo VI

Quarta-feira 1 de dezembro de 2021


Catequese sobre São José 3. José, homem justo e esposo de Maria


Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


Continuemos o nosso caminho de reflexão sobre a figura de São José. Hoje gostaria de explorar o seu ser “justo” e “noivo de Maria”, e assim dar uma mensagem a todos os noivos, incluindo os recém-casados. Muitos acontecimentos ligados a José são contados nos evangelhos apócrifos, ou seja, evangelhos não canónicos, que também influenciaram a arte e vários lugares de culto. Estes escritos, que não estão na Bíblia  –  são histórias que a piedade cristã narrava naquele tempo –  respondem ao desejo de preencher as lacunas narrativas dos Evangelhos canónicos, aqueles que estão na Bíblia, os quais nos dão tudo o que é essencial para a fé e a vida cristã.

O evangelista Mateus. Isto é importante: o que diz o Evangelho sobre José? Não o que dizem os evangelhos apócrifos, que não são negativos nem maus; são bonitos, mas não são a Palavra de Deus. Ao contrário, os Evangelhos, que estão na Bíblia, são a Palavra de Deus. Entre eles está o evangelista Mateus que define José um homem “justo”. Ouçamos a sua narração: «Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente» (1, 18-19). Pois os noivos, quando a noiva não era fiel ou engravidava, deviam denunciá-la! E as mulheres naquele tempo eram apedrejadas. Mas José era justo. E disse: “Não, eu não farei isto. Ficarei calado”.

Para compreender o comportamento de José em relação a Maria, é útil recordar os costumes matrimoniais do antigo Israel. O matrimónio compreendia duas fases bem definidas. A primeira era como um noivado oficial, que já implicava uma nova situação: em particular, a mulher, embora continuasse a viver na casa do seu pai por mais um ano, era de facto considerada a “esposa” do noivo. Ainda não viviam juntos, mas era como se ela fosse sua esposa. O segundo ato era a transferência da noiva da casa do seu pai para a casa do noivo. Isto acontecia com uma procissão festiva, que completava o matrimónio. E as amigas da noiva acompanhavam-na até lá. De acordo com estes costumes, o facto que «antes que fossem viver juntos, Maria estava grávida», expunha a Virgem à acusação de adultério. E esta culpa, segundo a Lei antiga, devia ser punida com a lapidação (cf. Dt 22, 20-21). No entanto, na prática judaica posterior, uma interpretação mais moderada tinha-se tornado realidade e apenas impunha o ato de repúdio, com consequências civis e criminais para a mulher, mas não o apedrejamento.

O Evangelho diz que José era “homem de bem” precisamente porque estava sujeito à lei como qualquer israelita piedoso. Mas dentro dele, o amor por Maria e a confiança nela sugeriam um modo de salvar a observância da lei e a honra da sua esposa: ele decidiu dar-lhe o ato de repúdio em segredo, sem clamor, sem a sujeitar à humilhação pública. Escolheu o caminho do segredo, sem julgamento nem vingança. Mas quanta santidade em José! Nós, que assim que temos um pouco de notícias folclóricas ou negativas sobre alguém, vamos imediatamente à tagarelice! José, ao contrário, fica calado.

Mas o evangelista Mateus acrescenta: «José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados» (1, 20-21). A voz de Deus intervém no discernimento de José e, através de um sonho, revela-lhe um significado maior do que a sua própria justiça. E como é importante para cada um de nós cultivar uma vida justa e, ao mesmo tempo, sentir que estamos sempre a precisar da ajuda de Deus! Papa poder alargar os nossos horizontes e considerar as circunstâncias da vida sob um ponto de vista diferente e mais amplo. Muitas vezes sentimo-nos prisioneiros pelo que nos aconteceu: “Mas vejam o que me aconteceu!” e continuamos prisioneiros daquela situação má que nos aconteceu; mas precisamente perante algumas circunstâncias da vida, que inicialmente parecem dramáticas, existe uma Providência que com o tempo toma forma e ilumina com significado até a dor que nos atingiu. A tentação é fecharmo-nos nessa dor, nesse pensamento das coisas desagradáveis que nos aconteceu. E isto não é bom. Leva à tristeza e à amargura. O coração amargo é tão triste.

Gostaria que fizéssemos uma pausa e refletíssemos sobre um pormenor desta história narrada no Evangelho que muitas vezes ignoramos. Maria e José são dois noivos que provavelmente tinham sonhos e expetativas sobre as suas vidas e o seu futuro. Deus parece intervir como um acontecimento inesperado na sua vicissitude, embora com alguma dificuldade inicial, ambos abrem o coração para a realidade que lhes é apresentada.

Estimados irmãos e irmãs, muitas vezes as nossas vidas não são como as imaginamos. Especialmente nas relações de amor, de afeto, temos dificuldade em passar da lógica do apaixonamento para a do amor maduro. E temos de passar do apaixonamento para o amor maduro. Vós, recém-casados, pensai bem nisto. A primeira fase é sempre marcada por um certo encantamento, que nos faz viver imersos num mundo imaginário que muitas vezes não corresponde à realidade dos factos. Mas precisamente quando o apaixonamento com as suas expetativas parece chegar ao fim, neste momento o verdadeiro amor pode começar. Com efeito, amar não é pretender que o outro ou a vida corresponda à nossa imaginação; pelo contrário, significa escolher com total liberdade assumir a responsabilidade pela vida que nos é oferecida. É por isso que José nos dá uma lição importante, ele escolheu Maria “com olhos abertos”. E podemos dizer que com todos os riscos. Pensai, no Evangelho de João, uma reprimenda que fazem os doutores da lei a Jesus é esta: “Não somos filhos que provêm de lá”, referindo-se à prostituição. Porque sabiam como Maria tinha engravidado e queriam difamar a mãe de Jesus. Para mim este é o trecho mais sujo e demoníaco do Evangelho. E o risco de José dá-nos esta lição: assumir a vida como vem. Deus interveio nela? Assumo-a. E José comportou-se como o anjo do Senhor lhe ordenara: de facto o Evangelho diz: «Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa a sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus» (Mt 1, 24-25). Os noivos cristãos são chamados a dar testemunho deste amor, que tem a coragem de passar da lógica do apaixonamento para a do amor maduro. E esta é uma escolha exigente que, em vez de aprisionar a vida, pode fortalecer o amor para que seja duradouro face às provações do tempo. O amor de um casal continua na vida e amadurece todos os dias. O amor do noivado é um pouco – permiti-me que o diga – um pouco romântico. Vós vivestes-o, mas depois começa o amor maduro, quotidiano, o trabalho, as crianças que chegam. E, por vezes, aquele romantismo desaparece um pouco. Mas não há amor? Sim, mas amor maduro. “Mas sabe, padre, por vezes discutimos...”. Isto acontece desde o tempo de Adão e Eva até aos dias de hoje: que os esposos brigam é o pão nosso de cada dia. “Mas não deveríamos discutir?”. Sim, é possível. “E padre, mas por vezes erguemos a voz” –  “Acontece”. “E também por vezes os pratos voam” – “Acontece”. Mas como assegurar que não prejudica a vida do matrimónio? Escutai bem: nunca terminai o dia sem fazer a paz. Tivemos uma discussão, disse-te coisas más, meu Deus, disse-te palavras más. Mas agora o dia acaba: tenho de fazer a paz. Sabei porquê? Porque a guerra fria do dia seguinte é muito perigosa. Não deixeis que no dia seguinte comece uma guerra. Por isso que se deve  fazer as pazes antes de ir para a cama. Lembrai-vos sempre: nunca terminar o dia sem fazer a paz. E isto irá ajudar-vos na vida de casado. Este percurso do apaixonamento para o amor maduro é uma escolha exigente, mas devemos seguir por esse caminho.

E também desta vez concluímos com uma oração a São José.

São José,

vós que amastes Maria com liberdade

e optastes por renunciar da sua imaginação para criar espaço à realidade,

ajudai cada um de nós a deixarmo-nos surpreender por Deus

e acolher a vida não como um acontecimento imprevisto do qual nos devemos defender,

mas como um mistério que esconde o segredo da verdadeira alegria.

Obtende alegria e radicalidade para todos os noivos cristãos,

Mas conservando sempre a consciência

De que só a misericórdia e o perdão tornam o amor possível. Amém.


Saudações:

Queridos fiéis de língua portuguesa, uma saudação fraterna para todos vós, em particular para o grupo de enfermeiras, enfermeiros e outros profissionais de saúde em serviço no «Centro de Vacinação anti-Covid, de Braga». Faço votos de que a visita hodierna ao Túmulo de Pedro e este encontro com o seu Sucessor vos infundam uma grande coragem para abraçardes diariamente a vossa cruz e um vivo anseio de santidade para poderdes encher de esperança a cruz dos outros. Confio nas vossas orações. Obrigado pela visita!


APELO

Celebra-se hoje o Dia Mundial contra a Sida. É uma ocasião importante para recordar as muitas pessoas atingidas por este vírus, para muitas das quais, nalgumas partes do mundo, não está disponível o acesso às curas essenciais. Espero que haja um renovado compromisso de solidariedade para garantir tratamentos sanitários justos e eficazes.

Amanhã irei a Chipre e depois à Grécia para visitar as queridas populações desses países, ricos de história, espiritualidade e civilização. Será uma viagem às fontes da fé apostólica e da fraternidade entre cristãos de várias confissões.  Terei também a oportunidade de me aproximar de uma humanidade ferida na carne de tantos migrantes em busca de esperança: irei a Lesbos. Peço-vos, por favor, que me acompanheis com a oração. Obrigado.


 

Resumo da catequese do Santo Padre:

Hoje, na reflexão que vos proponho sobre São José, quero aprofundar duas dimensões da sua figura: ser «justo» e ser «noivo de Maria». O noivado, nos tempos antigos, era a primeira fase do casamento, durante a qual a noiva continuava a viver na casa paterna, mas de facto era já considerada «a esposa» do noivo. Um ano depois tinha lugar a segunda fase em que ela deixava a casa paterna e ia coabitar com o marido. Foi durante a primeira fase do casamento de José com Maria que se notou que Ela estava grávida; a Lei do tempo dava ao noivo a possibilidade de A acusar publicamente de adultério. Segundo o Evangelho, José era «justo» precisamente porque se submetia à Lei como todo o piedoso israelita; mas, dentro dele, o amor por Maria e a confiança que tinha n’Ela sugerem-lhe uma forma de salvar as duas coisas: a observância da Lei e a honra da esposa. Ou seja: entregar-Lhe-ia a ata de repúdio em segredo, sem A expor à humilhação pública. Andava José a matutar nesta solução, quando intervém a voz de Deus no seu discernimento, para revelar um significado do caso muito maior do que a própria justiça de José: «não temas receber Maria, pois o que Ela concebeu é obra do Espírito Santo». E ele assim fez: «recebeu a sua esposa». Queridos irmãos e irmãs, como é importante para cada um de nós cultivar uma vida justa e, ao mesmo tempo, sentir-se carecido da ajuda de Deus, para conseguir ler a vida num horizonte mais amplo! Muitas vezes sentimo-nos prisioneiros de algo que nos aconteceu, mas é precisamente por trás dum caso da vida inicialmente visto como dramático que se esconde a mão da Providência divina; com o passar do tempo, tudo se esclarece enchendo-se de sentido a própria tribulação que nos atingira. São José, ajude cada um de nós a deixar-se surpreender por Deus e acolher a vida, não como um temível imprevisto, mas como um mistério que esconde o segredo da verdadeira alegria.



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Audiência Geral 1o de dezembro de 2021 Papa Francisco

Beato Carlos de Foucauld




PRESBÍTERO, +1916

Celebrado A 1 De Dezembro


Beato Carlos de Foucault

        Carlos de Foucauld (Frei Carlos de Jesus) nasceu em França, em Estrasburgo a 15 de Setembro de 1858. Órfão aos 6 anos, foi educado, bem como a sua irmã Maria, pelo avô, cuja carreira militar quis seguir.

       Chegado à adolescência, afasta-se da fé. Conhecido pelo seu gosto pela vida fácil, revela contudo uma vontade forte e constante nas dificuldades. Inicia uma perigosa exploração em Marrocos (1883-1884). O testemunho da fé dos muçulmanos desperta nele o problema de Deus. «Meu Deus, se vós existis, fazei que eu vos conheça ». 

     De volta a França, tocado pelo acolhimento afectuoso e discreto da sua família, profundamente cristã, ele põe-se em busca. Guiado por um sacerdote, o padre Huvelin, ele encontra Deus em Outubro de 1886. Tem então 28 anos.  «Mal eu acreditei que havia um Deus,  compreendi imediatamente que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele ».

        Uma peregrinação à Terra Santa, revela-lhe a sua vocação: seguir Jesus na sua vida de Nazaré. Passa então sete anos na Trapa, primeiro em Nossa Senhora das Neves, e em seguida em Akbès, na Síria. Vive depois sozinho, em oração e adoração junto das clarissas de Nazaré.

         Ordenado padre aos 43 anos (1901), parte para o deserto do Sara, inicialmente para Béni-Abbès e depois para Tamanrasset entre os tuaregues do Hoggar. Quer juntar-se aos que estão mais longe «os mais marginalizados, os mais abandonados ».  Deseja que cada um dos que se aproximam dele o considere como um irmão, «o irmão universal». Quer «gritar o evangelho com toda a sua vida» num grande respeito pela cultura e pela fé daqueles no meio dos quais ele vive. «Quereria ser tão bom que pudessem dizer: Se o servo é assim, como será então o Mestre?»

      Na noite do 1º de Dezembro de 1916 foi assassinado por um bando que tinha cercado a sua casa.   

         Sonhou sempre partilhar a sua vocação com outros: depois de ter escrito várias regras religiosas, pensou que «esta vida de Nazaré» podia ser vivida em todo o lado e por todos.

        Hoje  «a família espiritual de Carlos de Foucauld» tem várias associações de fieis, comunidades religiosas e institutos seculares de leigos ou de padres.

 

Evangelho Quotidiano

"Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna". João 6, 68

Subida do Monte | (Is 25, 6-10) #591 - Meditação da Palavra

Laudes de Quarta-feira da 1ª Semana do Advento