sábado, 25 de julho de 2026

Cardeal Kikuchi: a Igreja na Ásia, comunidade de realidades diversas unidas por uma só fé

 

Em uma entrevista, o cardeal Tarcisius Isao Kikuchi, de Tóquio, Japão, secretário-geral da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, aprofunda os temas da Assembleia Plenária da FABC (que se encerra em 26 de julho), detendo-se no valor da fé, na tutela da dignidade humana e na necessidade de uma urgente resposta pastoral à migração por parte da Igreja em toda a Ásia.

Deborah Castellano Lubov - Vatican News

“Tivemos a oportunidade de aprofundar a nossa compreensão da realidade na Ásia e a conscientização de que, embora vivendo em contextos muito diferentes, estamos unidos em uma única fé, em um único Corpo de Cristo”. Quem explica é o cardeal Tarcisius Isao Kikuchi, arcebispo de Tóquio e Secretário-geral da Federação das Conferências Episcopais da Ásia (FABC), em conversa com a mídia do Vaticano sobre a XII Assembleia Plenária aberta na segunda-feira (20/07) em Jacarta, na Indonésia, e que se encerra no domingo, 26 de julho. Mais de 120 cardeais e bispos reuniram-se para rezar e refletir sobre a missão da Igreja no continente asiático. O cardeal Kikuchi presidiu a celebração eucarística que deu início à Assembleia, marcada por dias ricos em partilha e pela apresentação das reflexões surgidas nas discussões em grupo.

Eminência, quais os principais frutos da Assembleia Plenária até agora? Quais foram os temas e as prioridades principais das suas discussões?

A Igreja na Ásia existe nas diversas realidades culturais, linguísticas, políticas e econômicas, mas uma coisa é comum à maioria de nós: somos uma minoria absoluta na sociedade, com exceção das Filipinas. No primeiro dia, os participantes apresentaram breves vídeos de três minutos; na quarta-feira, tivemos um dia de oração e conversação no Espírito, guiado pelo cardeal Luis Antonio Tagle; e, na quinta-feira, nos dedicamos ao aprofundamento do mutável panorama sociopolítico da Ásia e à partilha da realidade das nossas Igrejas locais. Tivemos a oportunidade de aprofundar a nossa compreensão da realidade na Ásia e de aumentar a conscientização de que vivemos em realidades muito diferentes, mas unidos em uma única fé, em um único Corpo de Cristo. Compartilhamos os desafios e as oportunidades para a missão, baseados nas realidades locais, e encontramos alguns elementos comuns, em particular a importância do diálogo. Estamos buscando o melhor modo de sermos nós mesmos pontes, mas também construtores de pontes entre as pessoas, junto com as pessoas através do diálogo: com culturas diferentes, com as pessoas, especialmente os pobres, na variada realidade das numerosas religiões e na resposta à crise ecológica.

Eminência, a Ásia é um continente extraordinariamente diversificado. O que o senhor aprendeu com os seus confrades bispos durante esta assembleia?

As grandes ondas migratórias na Ásia exigem uma atenção pastoral imediata em muitos países. A tutela da dignidade humana também é uma prioridade em muitos Estados. Embora cada Nação tenha a sua própria situação e os seus próprios problemas, podemos buscar caminhos de cooperação entre as comunidades eclesiais na Ásia. O que as respectivas comunidades eclesiais na Ásia precisam é da compreensão recíproca de suas realidades e de cooperação mútua. Todos os meus confrades bispos, apesar de suas diferentes realidades, pedem o reconhecimento das circunstâncias em que atuam e o apoio, sobretudo espiritual, recíproco.

Os católicos no Japão representam uma porcentagem relativamente pequena da população. Como arcebispo de Tóquio, de que modo o senhor considera que as deliberações destes dias possam ajudar a sua Igreja a testemunhar melhor ou até mesmo a difundir a fé neste contexto?

Segundo as estatísticas oficiais da Igreja, no Japão há menos de meio milhão de católicos. No entanto, na realidade, no país reside pelo menos outro meio milhão de católicos migrantes. O sistema de registro oficial da Igreja no Japão não leva totalmente em conta essas pessoas. Por exemplo, estima-se que cerca de 40 mil filipinos residam na arquidiocese de Tóquio, e muitos jovens vietnamitas que trabalham no Japão com vistos temporários também são católicos. Através dos nossos encontros com os bispos de outros países asiáticos, iniciamos discussões profícuas sobre a realidade dos católicos migrantes e trocamos perspectivas significativas sobre a sua pastoral. Todos concordamos com o fato de que a presença dos católicos migrantes representa uma contribuição significativa para a comunidade eclesial local, enriquecendo a sua diversidade e permitindo à Igreja ser testemunha de unidade na diversidade, em particular em uma sociedade que frequentemente tende à exclusão e ao nacionalismo, como a japonesa. Sendo um exemplo de “unidade na diversidade”, a Igreja no Japão pode proclamar os valores do Evangelho através da sua própria existência, sendo uma comunidade de pessoas de diferentes nacionalidades que caminham e rezam juntas. A sinodalidade é fundamental para este testemunho.

Como foi recebida no Japão a encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV? Dada a liderança do Japão na inovação tecnológica, o senhor considera que o documento teve repercussão na sociedade japonesa? Em sua opinião, quais aspectos podem ser particularmente valiosos no contexto japonês?

A nova encíclica Magnifica humanitas foi objeto de numerosos artigos na imprensa no Japão. De fato, desde a eleição, as palavras e as ações do Papa Leão têm sido amplamente acompanhadas pelos meios de comunicação japoneses. Há um interesse notável pela nova encíclica porque ela aborda o tema da inteligência artificial — que também é uma questão de interesse nacional neste momento —, mas a tradução oficial em japonês ainda está em andamento e aguardamos com expectativa a sua publicação. Somente então poderemos avaliar a reação da opinião pública.

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