quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

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Papa na RDCongo: hoje, meu coração está no Leste deste imenso país


No encontro com as vítimas da guerra na região Leste da RDCongo, o Papa Francisco sugere a promoção da paz com dois “nãos e dois “sins”: não à violência e à resignação, e sim à reconciliação e à esperança. O encontro foi realizado na Nunciatura do país.

Jane Nogara - Vatican News


No segundo dia da viagem do Papa Francisco à RDCongo, o Papa encontrou na Nunciatura Apostólica de Kinshasa, (01/02) as vítimas da violência no Leste do país. “O meu coração está hoje no leste deste imenso país, que não terá paz enquanto esta não for alcançada lá, na sua parte oriental”. Assim iniciou seu discurso aos habitantes do Leste da RDCongo esclarecendo em seguida:


“Estou unido convosco. As vossas lágrimas são as minhas lágrimas, a vossa dor é a minha dor. A cada família enlutada ou desalojada por causa de aldeias incendiadas e outros crimes de guerra, aos sobreviventes das violências sexuais, a cada criança e adulto ferido, digo: estou convosco, quero trazer-vos a carícia de Deus”


Amados por Deus

O Papa disse ainda que enquanto os violentos “vos tratam como objetos, o Pai que está nos Céus vê a vossa dignidade e diz a cada um de vós: ‘És precioso aos meus olhos, estimo-te e amo-te’ (Is 43, 4). Irmãos e irmãs, a Igreja está e estará sempre da vossa parte. Deus ama-vos e não Se esqueceu de vós; oxalá se recordem de vós também os homens!”.


Condenação e perdão

“Em nome d’Ele e juntamente com as vítimas e quantos se empenham pela paz, a justiça e a fraternidade”, exortou o Papa, “condeno as violências das armas, os massacres, os estupros, a destruição e ocupação de aldeias que continuam a ser perpetrados na República Democrática do Congo; e também a exploração sangrenta e ilegal da riqueza deste país, bem como as tentativas de dividi-lo para o poder controlar”. E Francisco apela ainda “Volto-me para o Pai que está nos Céus e nos quer ver a todos como irmãos e irmãs na terra, humildemente inclino a cabeça e, com a tristeza no coração, peço-Lhe perdão pela violência do homem sobre o homem":


Pai, tende piedade de nós! Consolai as vítimas e quantos sofrem. Convertei os corações de quem pratica tão cruéis atrocidades, que envergonham toda a humanidade. E abri os olhos àqueles que propositadamente os fecham ou passam ao largo para não ver estas abominações


Os conflitos

Francisco explica que se trata de conflitos que obrigam milhões de pessoas a abandonar suas casas, provocam gravíssimas violações dos direitos humanos, desintegram o tecido socioeconómico, causam feridas difíceis de cicatrizar. São lutas de parte nas quais se entrelaçam dinâmicas étnicas, territoriais e de grupo; conflitos que têm a ver com a posse da terra, a ausência ou debilidade das instituições, ódios nos quais se infiltra, em nome dum falso deus, a blasfémia da violência. “Mas é, sobretudo, a guerra desencadeada por uma insaciável ganância de matérias-primas e de dinheiro, que alimenta uma economia de guerra que exige instabilidade e corrupção. Que escândalo, que hipocrisia: as pessoas são estupradas e assassinadas, enquanto os negócios que provocam violências e mortes continuam a prosperar!”. Prosseguindo com um apelo: "Dirijo um sentido apelo a todas as pessoas, a todas as entidades, internas e externas, responsáveis pela guerra na República Democrática do Congo, saqueando-a, flagelando-a e desestabilizando-a. Enriqueceis-vos mediante a exploração ilegal dos bens deste país e o sacrifício cruento de vítimas inocentes".


Basta! Basta de se enriquecer na pele dos mais frágeis, basta de se enriquecer com recursos e dinheiro manchados de sangue!”


Como promover a paz: não à violência, não à resignação

Em seguida o Papa reflete, mas o que fazer, por onde começar... para promover a paz? E sua proposta é de recomeçar com dois “nãos e dois “sins”.

Antes de mais nada, não à violência, sempre e em todo o caso, sem “se” nem “mas”. Amar o próprio povo não significa nutrir ódio contra os outros. Pelo contrário, “amar o próprio país significa recusar a envolver-se com quantos incitam ao uso da força”. “O ódio”explicou o Papa, “só gera mais ódio, e violência outra violência”. Devemos dizer um claro e forte ‘não’ a quem os propaga em nome de Deus.


Queridos congoleses, não vos deixeis seduzir por pessoas ou grupos que incitam à violência em nome de Deus. Deus é Deus da paz, e não da guerra”


Francisco continuou dizendo que para se dizer “verdadeiramente ‘não’ à violência, não basta evitar atos violentos; é preciso extirpar as raízes da violência: penso na ganância, na inveja e, sobretudo, no rancor”.


Há depois um segundo “não” que devemos dizer: “não à resignação. A paz pede para se combater o desânimo, o desalento e a desconfiança que nos levam a crer que é melhor suspeitar de todos, é melhor viver separados e afastados do que dar as mãos e caminhar juntos. Mais uma vez, em nome de Deus, renovo o convite a quantos vivem na República Democrática do Congo para que não desistam, mas se empenhem por construir um futuro melhor”.

 “Um futuro de paz não vai cair do céu, mas poderá chegar se se eliminarem dos corações o fatalismo resignado e o medo de se envolver com os outros. Um futuro diferente virá se for de todos e não de um, se for para todos e não contra alguém. Um futuro novo virá se o outro, seja ele tutsi ou hutu, deixar de ser um adversário ou um inimigo, passando a ser um irmão e uma irmã em cujo coração (assim é preciso acreditar) existe, embora oculto, o mesmo desejo de paz. Também no leste, a paz é possível! Acreditemos nisto e trabalhemos sem delegar para outro a mudança!


Os dois “sins”: sim à reconciliação e à esperança

“E eis-nos, finalmente, aos dois ‘sins’ pela paz. Em primeiro lugar, sim à reconciliação. Amigos, é maravilhoso aquilo que estais prestes a fazer. Quereis assumir o compromisso de vos perdoardes mutuamente e de repudiardes as guerras e os conflitos para solucionar as distâncias e as diferenças”.


“O último ‘sim’, decisivo: sim à esperança. Se é possível representar a reconciliação como uma árvore, como uma palmeira que dá fruto, a esperança é a água que a torna mimosa. Esta esperança tem uma fonte, e esta fonte tem um nome, que quero proclamar aqui juntamente convosco: Jesus! Jesus: com Ele, o mal já não tem a última palavra sobre a vida; com Ele, que, dum túmulo – estação final do trajeto humano – fez o início duma nova história, abrem-se sempre novas possibilidades”.


Por fim o Papa quis motivar mais uma vez com a esperança:


“Irmãos, irmãs do Leste do país, esta esperança é para vós; tendes direito a ela. Mas é um direito que também deve ser conquistado. Como? Semeando-a cada dia, com paciência. Volto à imagem da palmeira. Diz um provérbio: ‘Quando comes a tâmara, vês a palmeira, mas quem a plantou, há muito tempo que voltou à terra’. Por outras palavras, para se obter os frutos esperados, é preciso trabalhar com o mesmo espírito dos plantadores de palmeiras, pensando nas gerações futuras e não nos resultados imediatos. Semear o bem faz-nos bem: liberta da lógica estreita do ganho pessoal e dá de prenda a cada dia o seu porquê; traz à vida o respiro da gratuidade e torna-nos mais semelhantes a Deus, semeador paciente que irradia esperança sem nunca Se cansar”.


(vaticannews)

ENCONTRO COM OS JOVENS E OS CATEQUISTAS: DISCURSO (Texto)

 VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO

À REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO E SUDÃO DO SUL 

(Peregrinação Ecumênica de Paz no Sudão do Sul)

[31 de janeiro - 5 de fevereiro de 2023]

ENCONTRO COM OS JOVENS E OS CATEQUISTAS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Estádio dos Mártires (Kinshasa)

Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023


Obrigado pela vossa amizade, a vossa dança e as vossas palavras! Estou feliz por ter podido fixar-vos nos olhos, saudar-vos e abençoar-vos, enquanto as vossas mãos levantadas para o céu faziam festa.

Agora quero pedir-vos para durante alguns momentos olhardes, não para mim, mas concretamente para as vossas mãos: abri as palmas das mãos e fixai nelas os olhos. Amigos, Deus colocou nas vossas mãos o dom da vida, o futuro da sociedade e deste grande país. Irmão, irmã, as tuas mãos parecem-te pequenas e frágeis, vazias e inaptas para tarefas tão grandes? Quero, porém, fazer-te notar uma coisa: todas as mãos são semelhantes, mas não há nenhuma igual a outra; ninguém tem mãos iguais às tuas. Por isso, tu és uma riqueza única, irrepetível e incomparável. Ninguém, na história, te pode substituir. Pergunta-te então: Para que servem estas minhas mãos? Para construir ou destruir, dar ou reter, amar ou odiar? Vê! Podes apertar a mão e fechá-la, torna-se um punho; ou podes abri-la e colocá-la à disposição de Deus e dos outros. Aqui está a opção fundamental, desde os tempos antigos, desde Abel que ofereceu com generosidade os frutos do seu trabalho, enquanto Caim levantou a mão contra o irmão e o matou (cf. Gn 4, 8). Jovem que sonhas com um futuro diferente, é das tuas mãos que nasce o amanhã; das tuas mãos, pode vir a paz que falta a este país. Mas, concretamente, como fazer? Quero sugerir-vos alguns «ingredientes para construir o futuro»: justamente cinco, que podeis associar aos dedos duma mão.

Ao polegar, o dedo mais próximo do coração, corresponde a oração, que faz pulsar a vida. Pode parecer uma coisa abstrata, distante da realidade concreta dos problemas. Mas a oração é o primeiro ingrediente, e o fundamental, porque sozinhos nada conseguimos fazer. Não somos omnipotentes e, quando alguém julga que o é, acaba por falhar miseravelmente. É como uma árvore desenraizada: mesmo que seja grande e robusta, sozinha não se aguenta de pé. Por isso mesmo, é preciso radicar-se na oração, na escuta da Palavra de Deus, que nos permite crescer cada dia em profundidade, dar fruto e transformar o ar poluído que respiramos em oxigénio vivificante. Para o conseguir, cada árvore precisa dum elemento simples e essencial: a água. Pois bem! A oração é «a água da alma»: é humilde, não se vê, mas dá vida. Quem reza, amadurece interiormente e sabe erguer o olhar para o Alto, lembrando-se de que foi feito para o Céu.

Irmão, irmã, há necessidade de oração, duma oração viva. Não te dirijas a Jesus como a um ser distante e estranho de quem se tem medo, mas como ao maior amigo, que deu a vida por ti. Conhece-te, confia em ti e ama-te, sempre. Se O contemplas suspenso na cruz para te salvar, compreendes quanto vales para Ele. E podes confiar-Lhe, colocando sobre a sua cruz as tuas cruzes, os teus medos, as tuas preocupações. Abraçá-los-á; já o fez há dois mil anos, e aquela cruz, que hoje suportas, já fazia parte da d’Ele. Portanto, não tenhas medo de tomar o crucifixo nas mãos e apertá-lo ao peito, de derramar as tuas lágrimas por Jesus. E não te esqueças de fixar o seu rosto, o rosto dum Deus jovem, vivo, ressuscitado! Sim, Jesus venceu o mal; fez, da cruz, a ponte para a ressurreição. Por isso, cada dia levanta as mãos para Ele a fim de O louvar e bendizer; grita-Lhe as esperanças do teu coração, confia-Lhe os segredos mais íntimos da vida: a pessoa que amas, as feridas que guardas dentro, os sonhos que tens no coração. Fala-Lhe do teu bairro, dos vizinhos, dos professores, dos companheiros, dos amigos e colegas; do teu país. Deus gosta desta oração viva, concreta, feita com o coração. Permite-Lhe intervir, entrar nos sulcos da vida dum modo especial, ou seja, com a sua «força de paz». Esta tem um nome; sabeis quem é? É o Espírito Santo, Aquele que consola e dá vida. É o motor da paz, é a verdadeira força de paz. Por isso mesmo, a oração é a arma mais poderosa que existe. Transmite-te o conforto e a esperança de Deus. Abre-te sempre novas possibilidades e ajuda-te a superar os medos. É verdade! Quem reza vence o medo e assume o próprio futuro. Acreditais nisto? Quereis escolher a oração como vosso segredo, como água da alma, como única arma a trazer convosco, como companheira de viagem todos os dias?

Agora fixemos o segundo dedo, o indicador. Com ele, indicamos algo aos outros. Os outros, a comunidade: aqui está o segundo ingrediente. Amigos, não deixeis que a vossa juventude seja arruinada pela solidão e o isolamento. Imaginai-vos sempre juntos, e sereis felizes, porque a comunidade é o caminho para estar bem connosco mesmos, para ser fiéis à própria vocação. As escolhas individualistas, pelo contrário, no início parecem aliciadoras, mas depois deixam dentro apenas um grande vazio. Pensai nas drogas: escondes-te dos outros, da vida verdadeira, para te sentires omnipotente; e, no fim, encontras-te privado de tudo. Mas pensai também na dependência do ocultismo e da feitiçaria, que enredam nas grinfas do medo, da vingança e da raiva. Não vos deixeis fascinar por falsos paraísos egoístas, construídos sobre aparências, ganhos fáceis ou religiosidades distortas.

E guardai-vos da tentação de apontar o dedo contra alguém, de excluir o outro por ser de origem diferente da vossa; guardai-vos do regionalismo, do tribalismo, que parecem reforçar-vos no vosso grupo quando, pelo contrário, representam a negação da comunidade. Sabeis como acontece: primeiro, crê-se nos preconceitos sobre os outros, depois justifica-se o ódio e em seguida a violência, no fim encontramo-nos no meio da guerra. Mas tu – pergunto – já terias falado com pessoas dos outros grupos ou sempre estiveste fechado no teu? Terias já escutado as histórias dos outros, debruçando-te sobre as suas tribulações? Claro, é mais fácil condenar alguém do que compreendê-lo; mas o caminho que Deus indica para construir um mundo melhor passa pelo outro, pelo conjunto, pela comunidade. É fazer Igreja, alargar os horizontes, ver em cada um o meu próximo, cuidar do outro. Vês alguém sozinho, atribulado, negligenciado? Aproxima-te dele, não para lhe fazeres ver como és bom, mas para lhe dar o teu sorriso e oferecer-lhe a tua amizade.

David, disseste que vós jovens quereis, e justamente, estar conectados com os outros, mas que as redes sociais frequentemente vos confundem. É verdade! O mundo virtual não é suficiente, não nos podemos contentar em interagir com pessoas distantes ou mesmo falsas. A vida real não se toca com um dedo no ecrã. É triste ver jovens que passam horas diante dum telemóvel: depois de largarem aquele espelho, se olhares para o seu rosto, verás que não sorri, o olhar tornou-se cansado e enjoado. Nada e ninguém pode substitui a força de estar juntos, a luz dos olhos, a alegria da partilha! É essencial falar e ouvirmo-nos: não vos contenteis com o ecrã onde cada um procura o que lhe interessa; em vez disso descobri cada dia a beleza de vos deixardes maravilhar pelos outros, as suas histórias e as suas experiências.

Tentemos agora experimentar o que significa fazer comunidade. Durante alguns momentos, por favor, dai a mão a quem está ao vosso lado. Senti-vos uma única Igreja, um único Povo. Sente que o teu bem depende do bem do outro, que é multiplicado se for posto em conjunto. Sente-te guardado pelo irmão e pela irmã, por alguém que te aceita assim como és e quer cuidar de ti. E sente-te responsável pelos outros, parte viva duma grande rede de fraternidade, onde nos apoiamos reciprocamente e tu és indispensável. Sim! És indispensável e responsável pela tua Igreja e pelo teu país; fazes parte duma história maior, que te chama a ser protagonista: criador de comunhão, campeão de fraternidade, corajoso sonhador dum mundo mais unido.

Nesta aventura, não estais sozinhos; apoia-vos a Igreja inteira, espalhada por todo o mundo. Trata-se dum desafio difícil, mas possível. E tendes também amigos que, das bancadas do Céu, vos impelem para estas metas. Sabeis quem são? Os santos. Penso, por exemplo, no Beato Isidoro Bakanja, na Beata Maria Clementina Anuarita, em São Kizito e nos seus companheiros: testemunhas da fé, mártires que nunca cederam à lógica da violência, mas confessaram, com a vida, a força do amor e do perdão. Os seus nomes, escritos no Céu, ficarão na história, enquanto o fechamento e a violência sempre revertem em detrimento de quem os comete. Sei que já várias vezes demonstrastes saber erguer-vos para defender, mesmo à custa de grandes sacrifícios, os direitos humanos e a esperança duma vida melhor para todos no país. Agradeço-vos por isso e honro a memória de tantos que perderam a vida ou a saúde por estas nobres causas. E encorajo-vos: avançai juntos, sem medo, como comunidade!

Oração, comunidade… E chegamos ao dedo médio, que se alonga um pouco mais além dos outros para de certo modo nos lembrar uma coisa imprescindível. É o ingrediente fundamental para um futuro que esteja à altura das vossas expectativas. É a honestidade! Ser cristão é testemunhar Cristo. Ora o primeiro modo de o fazer é viver retamente, como Ele quer. Isto significa não se deixar enredar nos laços da corrupção. O cristão só pode ser honesto, senão trai a sua identidade. Sem honestidade, não somos discípulos e testemunhas de Jesus; somos pagãos, idólatras que se adoram a si próprios em vez de Deus, que se servem dos outros em vez de servir os outros.

Mas – pergunto – como se vence o câncer da corrupção, que parece expandir-se sem nunca parar? São Paulo ajuda-nos, com uma frase simples e genial, que podeis repetir até a recordar de cor. É esta: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21). Não te deixes vencer pelo mal: não vos deixeis manipular por indivíduos ou grupos que procuram servir-se de vós para manter o vosso país na espiral da violência e da instabilidade, para continuarem a controlá-lo sem consideração por ninguém. Mas vence o mal com o bem: sede vós os transformadores da sociedade, os conversores do mal em bem, do ódio em amor, da guerra em paz. Quereis sê-lo? Se quiserdes, é possível… E sabeis porquê? Porque cada um de vós tem um tesouro que ninguém vos pode roubar: são as vossas opções. Sim! Tu és o resultado das opções que realizas, e sempre podes escolher a coisa certa a fazer. Somos livres para escolher: não permitais que a vossa vida seja arrastada pela torrente poluída, não vos deixeis levar como tronco seco num rio sujo. Indignai-vos, sem nunca ceder aos aliciamentos persuasivos, mas envenenados, da corrupção.

Vem-me à mente o testemunho dum jovem como vós, Floribert Bwana Chui: há quinze anos – contava ele apenas 26 – foi morto em Goma por ter bloqueado a passagem de alimentos estragados, que teriam danificado a saúde das pessoas. Poderia deixar correr, não o teriam descoberto e ainda ganharia qualquer coisa naquilo. Mas, como cristão, rezou, pensou nos outros e escolheu ser honesto, dizendo não à imundície da corrupção. Isto é conservar as mãos limpas, enquanto as mãos, que ganham em tráficos ilícitos, ficam ensanguentadas. Se alguém te entregar um envelope prometendo favores e riquezas, não caias na armadilha, não te deixes enganar, não te deixes engolir pelo pântano do mal. Não te deixes vencer pelo mal, não acredites nas tramoias obscuras do dinheiro, que te fazem precipitar na noite. Ser honesto é brilhar como de dia, é espalhar a luz de Deus, é viver a bem-aventurança da justiça: vence o mal com o bem!

Passamos ao quarto dedo: o anular. Nele se colocam as alianças nupciais. Mas, se pensarmos bem, o anular é também o dedo mais frágil, aquele que tem mais dificuldade para se levantar. Lembra-nos que as grandes metas da vida, a começar pelo amor, passam por fragilidades, canseiras e dificuldades. Devem ser vividas, enfrentadas com paciência e confiança, sem nos sobrecarregarmos com problemas inúteis, como, por exemplo, transformar o valor simbólico do dote num valor quase de mercado. Mas nas nossas fragilidades, nas crises, qual é a força que nos faz continuar? O perdão. Pois perdoar quer dizer saber recomeçar. Perdoar não significa esquecer o passado, mas não se resignar com o facto de poder repetir-se. É mudar o curso da história. É levantar quem caiu. É aceitar a ideia de que ninguém é perfeito e que todos – e não só eu – têm o direito de recomeçar.

Amigos, para criar um futuro novo, precisamos de dar e receber o perdão. É o que faz o cristão: não se limita a amar aqueles que o amam, mas sabe interromper, com o perdão, a espiral das vinganças pessoais e tribais. Penso no Beato Isidoro Bakanja, um irmão vosso que foi torturado longamente porque não renunciara a testemunhar a sua piedade e propusera o cristianismo a outros jovens. Nunca cedeu a sentimentos de ódio e, ao dar a vida, perdoou ao seu carrasco. Quem perdoa leva Jesus mesmo aonde não é acolhido, introduz amor onde o amor é rejeitado. Quem perdoa constrói o futuro. Mas como tornar-se capaz de perdão? Deixando-se perdoar por Deus. Sempre que nos confessamos, somos os primeiros a receber em nós aquela força que muda a história. Da parte de Deus, somos perdoados sempre e gratuitamente; quanto a nós, é-nos dito – como se lê no Evangelho – «vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Caminha, pondo fim ao rancor, sem veneno, sem ódio. Caminha, assumindo o estilo de Deus, o único que renova a história. Caminha e acredita que, com Deus, sempre se pode recomeçar, sempre se pode voltar a partir, sempre se pode perdoar!

Oração, comunidade, honestidade, perdão. Chegamos ao último dedo: o mindinho. Tu poderias dizer: sou pequeno, e o bem que possa fazer não passa duma gota no oceano. Mas é precisamente a pequenez, o fazer-se pequenino que atrai Deus. Há uma palavra-chave neste sentido: serviço. Quem serve, faz-se pequenino. Como uma semente minúscula que parece desaparecer na terra e, em vez disso, dá fruto. Segundo Jesus, o serviço é o poder que transforma o mundo. Deste modo, a simples pergunta que poderias até atar ao dedo, para não te esqueceres de a fazer cada dia, é esta: Eu, que posso fazer pelos outros? Ou seja: como posso servir a Igreja, a minha comunidade, o meu país? Olivier, disseste-nos que nalgumas regiões isoladas sois vós, os catequistas, que servis diariamente a comunidade dos fiéis e que isto, na Igreja, deve ser «tarefa de todos». É verdade! E é belo servir os outros, cuidar deles, fazer algo gratuitamente, como Deus faz connosco. Quero agradecer-vos, queridos catequistas: para muitas comunidades, sois vitais como a água! Fazei-as crescer sempre com a clareza da vossa oração e do vosso serviço. Servir não é ficar de braços cruzados, é mobilizar-se. Muitos movem-se, porque seduzidos pelos próprios interesses; vós não tendes medo de vos mobilizar em prol do bem, investir no bem, no anúncio do Evangelho, preparando-vos com paixão e adequadamente, dando vida a projetos organizados e de longo prazo. E não tendes medo de fazer ouvir a vossa voz, porque, nas vossas mãos, está o futuro e também o presente. Vós estais mesmo no ponto central do presente!

Amigos, deixei-vos cinco conselhos para identificar prioridades no meio das inúmeras e persuasivas vozes que circulam. Muitas vezes na vida, como na circulação estradal, é a desordem que cria engarrafamentos e inúteis bloqueios, que fazem perder tempo e energias e alimentam a cólera. Ao contrário, faz-nos bem, mesmo na confusão, dar ao coração e à vida pontos firmes, direções estáveis, para iniciar um futuro diferente, sem se deixar levar pelos ventos do oportunismo. Queridos amigos, jovens e catequistas, agradeço-vos pelo que sois e fazeis: pelo vosso entusiasmo, a vossa luz e a vossa esperança. Quero dizer-vos uma última coisa: nunca desanimeis! Jesus confia em vós e nunca vos deixa sozinhos. A alegria que hoje tendes, guardai-a e não deixeis que se apague. Como dizia Floribert aos seus amigos, quando estavam deprimidos: «Pega no Evangelho e lê-o! Consolar-te-á, dar-te-á alegria». Juntos, saí do pessimismo, que paralisa. A República Democrática do Congo espera, das vossas mãos, um futuro diverso, porque o futuro está nas vossas mãos. O vosso país voltará a ser, graças a vós, um jardim fraterno, o coração de paz e liberdade da África! Obrigado!



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Encontro com os jovens e os catequistas no Estádio dos Mártires em Kinsh...

Hoje é celebrada a apresentação do Senhor e o Dia da Vida Consagrada

 


REDAÇÃO CENTRAL, 02 Fev. 23 / 05:00 am (ACI).- Hoje (2), a Igreja celebra a apresentação de Jesus no templo, quando se realizou o encontro com Simeão e Ana, o qual se entende como o encontro do Senhor com o seu povo, e também aconteceu o ritual de purificação da Virgem Maria.

Naquela época, quando nascia o primogênito, era levado após quarenta dias ao templo para sua apresentação, como descreve a Lei de Moisés. Assim, desde o nascimento do Verbo encarnado, em 25 de dezembro, até 2 de fevereiro, José e Maria cumpriram o tempo e levaram o menino para se consagrar.

O Evangelho de São Lucas relata: “Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22).

Ao chegar ao templo, eles encontraram Simeão, a quem o Espírito Santo havia prometido que não morreria antes de ver o Salvador do mundo, e foi o Espírito que disse ao profeta que aquele menino era o Redentor e Salvador da humanidade.

Após tomar o menino nos braços e bendizer ao Senhor, o profeta disse à Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 2,34-35).

Também neste dia, encontrava-se no Templo a filha de Fanuel, da tribo de Aser, chamada Ana, de idade já avançada. Ana ficou viúva sete anos depois de ter se casado e assim permaneceu até 84 anos de idade. Ficava dia e noite no Templo servindo a Deus e oferecia jejum e oração. Ao ver a criança, Ana louvou a Deus e faloudo menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.

Neste dia, a Igreja recorda também o Dia Mundial da Vida Consagrada. Ao celebrar esta festa em 2014, o papa Francisco convidou, “à luz desta cena evangélica, a considerar a vida consagrada como um encontro com Cristo: é Ele que vem até nós, trazido por Maria e José, e somos nós que vamos até Ele, guiados pelo Espírito Santo. Mas no centro está Ele. É Ele que move tudo, é Ele que atrai ao Templo, à Igreja, onde podemos encontrá-lo, reconhecê-lo, recebê-lo e também abraçá-lo”.


(acidigital)

Laudes da Festa da Apresentação do Senhor

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Deus é poderoso para fazer infinitamente mais (Mc 6,1-6) Palavra de Deus...

Esperei, Esperei no Senhor - Salmo 40 (39)

HOMILIA DO SANTO PADRE

 VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO

À REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO E SUDÃO DO SUL 

(Peregrinação Ecumênica de Paz no Sudão do Sul)

[31 de janeiro - 5 de fevereiro de 2023]


SANTA MISSA PELA PAZ E A JUSTIÇA


HOMILIA DO SANTO PADRE


Aeroporto "Ndolo"

Quarta-feira, 1° de fevereiro de 2023



Bandeko, boboto [irmãos e irmãs, paz] R/ Bondeko [fraternidade].

Bondeko [fraternidade] R/ Esengo [alegria].


Esengo – alegria! A alegria de vos ver e encontrar é grande; muito desejei este momento (fez-nos esperar um ano!). Obrigado por terdes vindo aqui!

O Evangelho acaba de nos dizer que também a alegria dos discípulos era grande na tarde de Páscoa, e que esta alegria brotou ao «verem o Senhor» (Jo 20, 20). Naquele clima de alegria e maravilha, o Ressuscitado fala aos seus. E que lhes diz? Começa por quatro palavras: «A paz esteja convosco!» (20, 19). Trata-se de uma saudação, mas é mais do que uma saudação: é um dom. Porque a paz, aquela paz anunciada pelos anjos na noite de Belém (cf. Lc 2, 14), aquela paz que Jesus prometeu deixar aos seus (cf. Jo 14, 27), é agora, pela primeira vez, entregue solenemente aos discípulos. A paz de Jesus, que também nos é dada em cada Missa, é pascal: chega com a ressurreição, porque antes o Senhor devia derrotar os nossos inimigos, o pecado e a morte, e reconciliar o mundo com o Pai; devia experimentar a nossa solidão e o nosso abandono, os nossos infernos, abraçar e preencher as distâncias que nos separavam da vida e da esperança. Agora, superadas as distâncias entre Céu e terra, entre Deus e homem, a paz de Jesus é dada aos discípulos.

Metamo-nos, pois, na pele deles. Naquele dia, estavam completamente atordoados pelo escândalo da cruz, feridos interiormente por terem abandonado Jesus pondo-se em fuga, dececionados com o epílogo do seu caso, temerosos de acabar como Ele. Havia neles sentimentos de culpa, frustração, tristeza, medo... Pois bem! Jesus proclama a paz enquanto no coração dos discípulos existem os escombros, anuncia a vida enquanto eles sentem dentro a morte. Por outras palavras, a paz de Jesus chega no momento em que, para eles, tudo parecia acabado, no momento menos aguardado e mais inesperado, quando não havia vislumbres de paz. Assim faz o Senhor: surpreende-nos, estende-nos a mão quando estamos prestes a afundar, levanta-nos quando tocamos o fundo. Irmãos, irmãs, com Jesus o mal nunca triunfa, nunca tem a última palavra. «Com efeito, Ele é a nossa paz» (Ef 2, 14), e a sua paz vence sempre. Por isso nós que pertencemos a Jesus, não podemos deixar prevalecer em nós a tristeza, não podemos permitir que se insinuem resignação e fatalismo. Se ao nosso redor se respira este clima, que não seja por nossa causa: num mundo desanimado com a violência e a guerra, os cristãos fazem como Jesus. Ele, como que insistindo, repetiu para os discípulos: Paz! A paz esteja convosco! (cf. Jo 20, 19.21); e nós somos chamados a assumir e proclamar ao mundo este inesperado e profético anúncio do Senhor, anúncio de paz.

Mas, podemos perguntar-nos: Como guardar e cultivar a paz de Jesus? Ele próprio nos indica três nascentes de paz, três fontes para continuar a alimentá-la. São o perdão, a comunidade e a missão.

Vejamos a primeira fonte: o perdão. Jesus diz aos seus: «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados» (20, 23). Mas Ele, antes de dar aos apóstolos o poder de perdoar, perdoa-os; não com palavras, mas com um gesto, o primeiro que o Ressuscitado realiza diante deles. Como diz o Evangelho, «mostrou-lhes as mãos e o peito» (20, 20). Ou seja, mostra as chagas, oferece-lhas, porque o perdão nasce das feridas. Nasce quando as feridas sofridas não deixam cicatrizes de ódio, mas tornam-se o lugar onde se dá espaço aos outros acolhendo as suas debilidades. Então as fragilidades tornam-se oportunidades, e o perdão torna-se o caminho da paz. Não se trata de esquecer tudo como se nada fosse, mas de abrir aos outros o próprio coração com amor. É assim que faz Jesus: diante da miséria de quem O renegou e abandonou, mostra as feridas e abre a fonte da misericórdia. Não usa muitas palavras, mas abre de par em par o seu coração ferido, para nos dizer que Ele está sempre ferido de amor por nós.

Irmãos, irmãs, quando a culpa e a tristeza nos oprimem, quando as coisas não correm bem, sabemos para onde olhar: para as chagas de Jesus, pronto a perdoar-nos com o seu amor ferido e infinito. Ele conhece as tuas feridas, conhece as feridas do teu país, do teu povo, da tua terra! São feridas que ardem, continuamente infetadas pelo ódio e a violência, enquanto o remédio da justiça e o bálsamo da esperança parecem nunca mais chegar. Irmão, irmã, Jesus sofre contigo, vê as feridas que carregas dentro e deseja consolar-te e curar-te, oferecendo-te o seu Coração ferido. Ao teu coração, Deus repete as palavras que disse hoje por meio do profeta Isaías: «Hei de curá-lo e guiá-lo, prodigando-lhe reconforto» (Is 57, 18).

Hoje, juntos, acreditamos que, com Jesus, sempre temos a possibilidade de ser perdoados e de recomeçar, bem como a força de nos perdoarmos a nós mesmos, aos outros e à história! É isto que Cristo deseja: ungir-nos com o seu perdão, para nos dar a paz e a coragem de por nossa vez perdoar, a coragem de realizar uma grande amnistia do coração. Faz-nos tão bem limpar o coração da ira, dos remorsos, de todo o rancor e ódio! Queridos amigos, que hoje seja o momento de graça para acolher e viver o perdão de Jesus! Seja o momento certo para ti, que carregas um fardo pesado no coração e precisas que seja tirado para voltar a respirar. E que seja o momento propício para ti, que, neste país, te dizes cristão e todavia praticas a violência; a ti diz o Senhor: «Depõe as armas, abraça a misericórdia». E a todos os feridos e oprimidos deste povo, diz: «Não tenhais medo de colocar as vossas feridas nas minhas, as vossas chagas nas minhas chagas»! Façamo-lo, irmãos e irmãs! Não tenhais medo de retirar o Crucifixo do pescoço e dos bolsos, pegar nele na mão e estreitá-lo ao coração para partilhar as vossas feridas com as de Jesus. Ao regressar a casa, tomai também o Crucifixo que tendes e abraçai-o. Demos a Cristo a possibilidade de nos sarar o coração, entreguemos-Lhe o passado, todo o medo e aflição. Como é bom abrir à sua paz as portas do coração e as de casa! E por que não escrever no vosso quarto, na vossa roupa, no exterior da vossa casa as suas palavras: A paz esteja convosco? Mostrai-as; serão uma profecia para o país, a bênção do Senhor sobre quem encontrais. A paz esteja convosco: deixemo-nos perdoar por Deus e perdoemo-nos entre nós!

Vejamos agora a segunda fonte da paz: a comunidade. Jesus ressuscitado não Se dirige a cada um dos discípulos, mas encontra-os juntos: fala-lhes no plural, e confia a sua paz à primeira comunidade. Não há cristianismo sem comunidade, tal como não há paz sem fraternidade. Mas como comunidade, para onde caminhar? Aonde ir para encontrar a paz? Voltemos a fixar os discípulos. Antes da Páscoa, seguiam Jesus, mas raciocinavam ainda de forma demasiado humana: tinham as suas esperanças num Messias conquistador que expulsaria os inimigos, realizaria prodígios e milagres, aumentaria o prestígio e o sucesso deles. Mas estes desejos mundanos deixaram-nos de mãos vazias; pior, tiraram a paz à comunidade, gerando discussões e oposições (cf. Lc 9, 46; 22, 24). E o mesmo risco existe também para nós: estar juntos, mas caminhar sozinhos, procurando na sociedade, mas também na Igreja, o poder, a carreira, as ambições... Assim, porém, segue-se o próprio eu em vez do verdadeiro Deus e acaba-se como aqueles discípulos: fechados em casa, vazios de esperança e cheios de medo e desilusão. Mas na Páscoa voltam a encontrar o caminho da paz graças a Jesus, que sopra sobre eles dizendo: «Recebei o Espírito Santo» (Jo 20, 22). Graças ao Espírito Santo, deixarão de olhar para aquilo que os divide, mas fixar-se-ão no que os une; irão pelo mundo não a pensar em si mesmos, mas nos outros; não para ter visibilidade, mas para dar esperança; não para ganhar apoiantes, mas para gastar jubilosamente a vida pelo Senhor e pelos outros.

Irmãos, irmãs, o nosso perigo é seguir o espírito do mundo, e não o de Cristo. E qual é o caminho para não cair nas ciladas do poder e do dinheiro, para não ceder às divisões, às lisonjas do carreirismo que corroem a comunidade, às falsas ilusões do prazer e da feitiçaria que nos encerram em nós mesmos? O Senhor no-lo sugere, mais uma vez através do profeta Isaías, dizendo: «Estou com as pessoas acabrunhadas e humilhadas, para reanimar os humildes, para reanimar o coração dos deprimidos» (57, 15). O caminho é partilhar com os pobres: tal é o melhor antídoto contra a tentação de nos dividir e mundanizar. Ter a coragem de olhar para os pobres e escutá-los, porque são membros da nossa comunidade, e não estranhos que devem ser abolidos da vista e da consciência. Abrir o coração aos outros, em vez de o fechar nos próprios problemas ou nas próprias vaidades. Recomecemos dos pobres e descobriremos que todos compartilhamos a pobreza interior; que todos precisamos do Espírito de Deus para nos libertar do espírito do mundo; que a humildade é a grandeza do cristão, e a fraternidade a sua verdadeira riqueza. Acreditemos na comunidade e, com a ajuda de Deus, edifiquemos uma Igreja vazia de espírito mundano e cheia de Espírito Santo, livre de riquezas para nós mesmos e repleta de amor fraterno!

Chegamos, enfim, à terceira fonte da paz: a missão. Jesus diz aos discípulos: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Envia-nos como o Pai O enviou a Ele. E como foi que o Pai O enviou ao mundo? Enviou-O para servir e dar a vida em resgate pela humanidade (cf. Mc 10, 45), para manifestar a sua misericórdia por cada um (cf. Lc 15), para procurar os que andam longe (cf. Mt 9, 13). Numa palavra, enviou-O para todos: não só para os justos, mas para todos. Ressoam neste sentido ainda as palavras de Isaías: «Paz para os de longe e os de perto – diz o Senhor» (57, 19). Em primeiro lugar, aos distantes e também aos vizinhos; não só aos «nossos», mas a todos.

Irmãos, irmãs, somos chamados a ser missionários de paz, e isto nos encherá de paz. Trata-se duma opção: é dar espaço a todos no coração, é acreditar que as diferenças étnicas, regionais, sociais, religiosas e culturais vêm em segundo lugar e não são obstáculo; que os outros são irmãos e irmãs, membros da mesma comunidade humana; que cada um é destinatário da paz trazida ao mundo por Jesus. É acreditar que nós, cristãos, somos chamados a colaborar com todos, a romper a espiral da violência, a desmantelar os enredos do ódio. É verdade! Enviados por Cristo, os cristãos são chamados, por definição, a ser consciência de paz no mundo: não só consciências críticas, mas sobretudo testemunhas de amor; não pretendentes dos próprios direitos, mas dos do Evangelho, que são a fraternidade, o amor e o perdão; não indivíduos à procura dos próprios interesses, mas missionários daquele amor louco que Deus tem por cada um dos seres humanos.

A paz esteja convosco: diz Jesus hoje a cada família, comunidade, etnia, bairro e cidade deste grande país. A paz esteja convosco: deixemos que ressoem no coração, em silêncio, estas palavras de nosso Senhor. Ouçamo-las dirigidas a nós e escolhamos ser testemunhas de perdão, protagonistas na comunidade, pessoas em missão de paz no mundo.

Moto azalí na matoi ma koyoka [Quem tem ouvidos para ouvir]

R/ Ayoka [ouça]

Moto azalí na motema mwa kondima [Quem tem coração para aderir]

R/Andima [adira].

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Kinshasa, Santa Missa, 01 de fevereiro de 2023 Papa Francisco

Papa Francisco é recebido com alegria na África

Papa Francisco na República Democrática do Congo / Vatican Media


Mercedes De La Torre

REDAÇÃO CENTRAL, 31 Jan. 23 / 02:50 pm (ACI).- Ao chegar hoje (31) à África, o papa Francisco foi recebido com alegria na República Democrática do Congo.

A visita, que se estende até o domingo (5), é a 40ª viagem apostólica internacional do papa Francisco.

O papa vai a Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, e Juba, capital do Sudão do Sul.

Francisco é o segundo papa a visitar da República Democrática do Congo. São João Paulo II visitou o país que ainda se chamava Zaire, em 1980 e 1985.

O vôo de Roma a Kinshasa sobrevoou o deserto do Saara. O papa convidou todos a bordo a fazer uma oração silenciosa “por todas as pessoas que, procurando um pouco de bem-estar, um pouco de liberdade, o atravessaram e não conseguiram”.

Antes de iniciar sua viagem à África, o papa também se encontrou no Vaticano com nove refugiados na Itália, provenientes dos dois países que visitará nestes dias.

Cerimónia de boas-vindas

A cerimônia oficial de boas-vindas aconteceu no Palácio da Nação de Kinshasa, na presença de autoridades, sociedade civil e representantes do corpo diplomático.

Nos arredores do edifício, muitas pessoas com vestes coloridas receberam o papa com cantos e danças.

Ao entrar no Palácio, Francisco foi recebido pela guarda de honra e a banda presidencial entoava música.

Em seguida, aconteceu a saudação das delegações oficiais.

Visita de cortesia

O papa Francisco fez uma visita privada de cortesia ao presidente da República Democrática do Congo (RDC), Felix Tshisekedi Tshilombo, também conhecido como “Fatshi”. Eleito em 2018, ele é filho do veterano líder da oposição Etienne Tshisekedi, morto em 2017.

O papa deu ao presidente uma medalha comemorativa de bronze. De um lado está representado o brasão do pontificado e do outro uma pomba, símbolo da paz, que sobrevoa a terra africana, formando a parte superior de uma cruz e evocando a bênção do papa.

A medalha também representa um "ocapi", que é um animal típico da RDC, alguns habitantes da região junto com a fauna local e uma criança em um barco que percorre o Nilo Branco, rio que atravessa o Sudão do Sul.

A Santa Sé descreveu que o presente do papa quer ser “uma metáfora da vida” que segue caminhos como um rio “e a fé inspira dinamismo de comunhão em nome da justiça, da liberdade e da prosperidade”.


(acidigital)

Laudes de Quarta feira da 4ª Semana do Tempo Comum