Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, início do novo ano
civil, a Liturgia oferece-nos o texto de uma bênção belíssima: «O
Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face
e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!» (Nm 6, 24-26).
Esta bênção encontra-se, no livro dos Números, a seguir às indicações
sobre a consagração dos nazireus, para sublinhar, na relação entre Deus
e o povo de Israel, a dimensão sagrada e fecunda do dom. O homem
oferece tudo o que recebeu ao Criador, que responde voltando para ele o
seu olhar benigno, tal como nos primórdios do mundo (cf. Gn 1, 31).
Graças à intervenção de Deus e à resposta generosa do seu servo
Moisés, o povo de Israel, a quem esta bênção se dirigia, era um povo de
libertos, de homens e mulheres renascidos após uma prolongada
escravidão. Era um povo que no Egito tinha usufruído de algumas
seguranças – não faltava comida, nem teto, nem uma certa estabilidade –,
mas à custa de ser escravo, oprimido por uma tirania que exigia cada
vez mais, dando cada vez menos (cf. Ex 5, 6-7). Agora, no
deserto, muitas das certezas do passado tinham-se perdido, mas em troca
havia a liberdade, que se concretizava num caminho aberto para o futuro,
no dom de uma lei de sabedoria e na promessa de uma terra na qual fosse
possível viver e crescer sem grilhões nem correntes; em suma, num
renascimento.
Assim, no início do novo ano, a Liturgia recorda-nos que cada dia
pode ser, para cada um de nós, o início de uma nova vida, graças ao amor
generoso de Deus, à sua misericórdia e à resposta da nossa liberdade. É
bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a
descobrir, no qual por graça nos podemos aventurar, livres e portadores
de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e
na bondade do Senhor que sempre nos acompanha.
Tudo isto recordamos ao celebrar o mistério da Divina Maternidade de
Maria, que com o seu “sim” contribuiu para dar à Fonte de toda a
misericórdia e benevolência um rosto humano: o rosto de Jesus, através
de cujos olhos de criança, depois jovem e homem, o amor do Pai nos
alcança e transforma.
Por isso, no início do ano, encaminhando-nos para os dias novos e
únicos que nos esperam, pedimos ao Senhor que em cada momento sintamos, à
nossa volta e sobre nós, o calor do seu abraço paterno e a luz do seu
olhar benevolente, para compreendermos sempre mais e termos
constantemente presente quem somos e a que fim maravilhoso nos dirigimos
(cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes,
41). Ao mesmo tempo, porém, também nós lhe damos glória, com a oração e
a santidade de vida, tornando-nos, uns para os outros, espelho da sua
bondade.
Santo Agostinho ensinava que em Maria «o criador do homem se fez
homem, para que, embora Ele fosse o criador das estrelas, se alimentasse
do seio de uma mulher; embora Ele fosse o pão (cf. Jo 6, 35), pudesse ter fome (cf. Mt 4,2); [...] para nos libertar, embora nós fossemos indignos» (Sermo 191,
1.1). Deste modo, ele recordava uma das características fundamentais do
rosto de Deus: o da total gratuidade do seu amor, pelo qual Ele se nos
apresenta – como quis sublinhar na Mensagem deste Dia Mundial da Paz –
“desarmado e desarmante”, nu e indefeso, como um recém-nascido no
berço. Tudo isto para nos ensinar que o mundo não se salva afiando
espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim
esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e
acolher todos, sem cálculos nem medos.
É este o rosto de Deus que Maria deixou que se formasse e crescesse
no seu ventre, mudando completamente a sua vida. É o rosto que ela
anunciou através da luz alegre e delicada dos seus olhos de mãe
expectante; o rosto cuja beleza ela contemplou dia após dia, à medida
que Jesus ia crescendo – criança, adolescente e jovem – na sua casa; e
que depois acompanhou, com o seu coração de discípula humilde, enquanto
Ele percorria os caminhos da sua missão, até à cruz e ressurreição. Para
o fazer, também ela depôs todas as defesas, renunciando a expectativas,
pretensões e garantias, como as mães sabem fazer, consagrando sem
reservas a sua vida ao Filho que por graça tinha recebido, para que Ela,
por sua vez, o doasse de novo ao mundo.
Na Maternidade Divina de Maria, observamos o encontro de duas
realidades imensas e “desarmadas”: a de Deus, que renuncia a todos os
privilégios da sua divindade para nascer segundo a carne (cf. Fil 2,
6-11), e a da pessoa que com confiança abraça totalmente a sua vontade,
prestando-Lhe, num ato perfeito de amor, a homenagem do seu maior
poder: a liberdade.
Meditando sobre este mistério, São João Paulo II convidava a
contemplar o que os pastores encontraram em Belém: «a serena ternura do
Menino, a surpreendente pobreza em que Ele se encontra, a humilde
simplicidade de Maria e de José» transformaram a sua vida, tornando-os
«mensageiros de salvação» (Homilia na Missa de Maria Santíssima, Mãe de Deus, XXXIV Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2001).
Disse-o no final do Grande Jubileu do ano 2000, com palavras que nos
podem fazer refletir também a nós: «Quantos dons – afirmava – e quantas
ocasiões extraordinárias o grande Jubileu ofereceu aos fiéis! Na
experiência do dom recebido e concedido, na recordação dos mártires, na
escuta do brado dos pobres do mundo […] também nós entrevimos a presença
salvífica de Deus na história. Quase tocámos com a mão o seu amor que
renova a face da terra» (ibid.),
e concluía: «Como aos pastores que acorreram para o adorar, Cristo pede
aos fiéis, aos quais concedeu a alegria do Seu encontro, uma corajosa
disponibilidade a partir de novo para anunciar o seu Evangelho, antigo e
sempre novo. Convida-os a vivificar a história e as culturas dos homens
com a sua mensagem salvífica» (ibid.).
Queridos irmãos e irmãs, nesta Festa solene, no início do novo ano,
prestes a concluir o Jubileu da Esperança, abeiremo-nos com fé do
Presépio, qual lugar por excelência da paz “desarmada e desarmante”,
lugar de bênção, no qual podemos recordar os prodígios que o Senhor
realizou na história da salvação e na nossa existência, para depois
partirmos, como os humildes testemunhas da gruta, «glorificando e
louvando a Deus» (Lc 2, 20) por tudo o que vimos e ouvimos. Que
seja este o nosso compromisso e propósito para os próximos meses e para
toda a nossa vida cristã.