Daniele Piccini – Cidade do Vaticano
Entre eles há quem tenha lutado até o dom da própria vida contra o narcotráfico ou o desmatamento. Há quem tenha protegido aldeias inteiras da exploração dos recursos naturais, que destrói os ecossistemas e os torna inabitáveis, e tenha pago com o próprio sangue seu amor pelos outros. Há quem tenha denunciado ações criminosas ou corruptas em benefício de uma comunidade ou de todo um país e não tenha sido perdoado por isso. São os novos mártires do século XXI, estimados em cerca de 1.700. Para refletir sobre sua identidade e suas motivações e valorizar seus atos de sacrifício, o Dicastério para as Causas dos Santos organiza, na terça-feira, 15 de setembro, no Instituto Patrístico Augustinianum, na Via Paolo VI, 25, em Roma, um congresso intitulado “O século XXI: um novo tempo de mártires?”. O encontro acontece exatamente um ano após a Missa presidida por Leão XIV na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, para recordar os mártires e testemunhas da fé do século XXI, no dia em que a Igreja celebra a festa da Exaltação da Santa Cruz. O encontro foi apresentado na manhã desta quinta-feira, 10 de setembro, na Sala de Imprensa da Santa Sé.
“Nem todos os santos são canonizados”
“A santidade não é apenas aquela oficialmente canonizada”, afirmou o cardeal Marcelo Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. “A graça da santidade na Igreja – acrescentou – é significada, mas não se esgota nas canonizações. Naturalmente, não se exclui que, para alguns dos inscritos no Catálogo, uma vez verificadas as condições exigidas, possa ser iniciado um processo de beatificação e canonização. O que se pretende, porém, destacar são sobretudo a ‘medida elevada da vida cristã ordinária’, indicada por João Paulo II em Novo millennio ineunte, n. 30, e a santidade ‘da porta ao lado’, recordada pelo Papa Francisco em Gaudete et exsultate, nn. 6-8.”
Foi o Papa Francisco quem instituiu, neste Dicastério, por meio da Carta de 3 de julho de 2023, a “Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé”, com a finalidade de “elaborar um Catálogo de todos aqueles que derramaram seu sangue para confessar Cristo e testemunhar o Evangelho”.
Sem os valores da santidade, o ser humano desaparece
“A santidade cristã – acrescentou o cardeal – também possui um valor antropológico, muito bem destacado por Bento XVI.” O Papa Ratzinger, na Carta Encíclica Spe salvi, reafirmava que o abandono das qualidades dos mártires da Igreja – “sofrer com o outro, pelos outros; sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor e para se tornar uma pessoa que verdadeiramente ama” – levaria à destruição do próprio ser humano, pois, escrevia ainda o Pontífice, “a capacidade de sofrer por amor da verdade é medida da humanidade”.
O prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos destacou, por fim, “o valor ecumênico da iniciativa”, já percebido profundamente tanto pelo Papa João Paulo II – que, na Carta Encíclica Ut unum sint, falava de um “martirológio comum” dos cristãos – quanto, mais recentemente, pelo Papa Francisco, que, “ao instituir a Comissão dentro do Dicastério para as Causas dos Santos, destacou que seu trabalho ‘permitirá acrescentar aos mártires oficialmente reconhecidos pela Igreja os testemunhos documentados – e são muitos – desses nossos irmãos e irmãs, dentro de um amplo panorama no qual ressoe a única voz da martyria dos cristãos’”.
Uma reflexão histórica e cultural sobre o martírio
“A inspiração para o congresso – refletiu o professor Andrea Riccardi, vice-presidente da Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé – nasce de um aspecto da vida do Papa João Paulo II, que sempre se sentiu companheiro dos mártires, mas também se perguntou constantemente por que havia sobrevivido ao atentado de 13 de maio de 1981. E a resposta que dava a si mesmo era: ‘para testemunhar a graça da resistência, até o dom da vida, de tantos homens e mulheres de todas as condições’.”
O historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio respondeu afirmativamente à pergunta retórica apresentada pelo título do congresso: o nosso é, sem dúvida, um tempo de “novos mártires”. “O Papa Francisco – prosseguiu o professor Riccardi – percebeu isso ao instituir esta Comissão. O tempo do martírio continua. As notícias o sugerem. Não será um congresso científico, mas uma reflexão enraizada em uma consciência madura da Igreja sobre o valor e o significado do martírio. A Comissão sentiu a necessidade de elaborar historicamente e culturalmente sobre essa experiência da Igreja do século XXI, observando – concluiu o historiador – as muitas faces do martírio.”
O programa do congresso
Dom Fabio Fabene, secretário do Dicastério para as Causas dos Santos e presidente da Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé, apresentou, por fim, o programa do congresso, que se propõe a “analisar o fenômeno do martírio contemporâneo”. O encontro será realizado em duas sessões: das 9h às 13h e das 15h30 às 18h30. Os participantes serão recebidos pelo Papa Leão XIV na quarta-feira, 16 de setembro, antes da audiência geral.
Na primeira sessão, pela manhã, dom Fabio Fabene, após uma oração, abrirá os trabalhos e passará a palavra ao cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa, na República Democrática do Congo, e ao professor Andrea Riccardi. À tarde, depois do intervalo e da mesa-redonda, participarão Sandra Sarti, presidente da organização Ajuda à Igreja que Sofre Itália; irmã Nicoletta Vittoria Spezzati, consultora histórica do Dicastério para as Causas dos Santos; a jornalista Lucia Capuzzi; e irmã Alice Drajea Jurugo, das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus.
O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, abrirá os trabalhos da tarde dedicados aos testemunhos da Terra Santa. Em seguida, haverá as apresentações de Paolo Affatato, jornalista da Fides, e do professor Roberto Regoli, da Pontifícia Universidade Gregoriana. Posteriormente, contribuirão para a reflexão o professor Gianni La Bella, da Universidade de Modena e Reggio Emilia, e dom Marco Gnavi, secretário da Comissão. O cardeal Semeraro fará, por fim, as conclusões do congresso.
Sem comentários:
Enviar um comentário