Publicamos extensos trechos da entrevista com o Secretário-Geral das Nações Unidas publicada no jornal La Repubblica.
Paolo Mastrolilli - Nova York
"Quando a lei do poder substitui o poder da lei, as consequências são
profundamente desestabilizadoras." Um alerta vai ao cerne da ameaça que
abala toda a comunidade global, e emitido pelo secretário-geral da ONU,
António Guterres, nesta entrevista exclusiva à Repubblica, durante sua visita à Itália para a abertura dos Jogos Olímpicos.
Historicamente, os Jogos têm sido uma oportunidade para o diálogo,
a inclusão e a paz, mas em seu recente discurso à Assembleia Geral da
ONU sobre as prioridades para 2026, o senhor afirmou: "Vivemos em um
mundo repleto de conflitos, impunidade, desigualdade e
imprevisibilidade. Um mundo marcado por divisões geopolíticas
autodestrutivas, violações flagrantes do direito internacional e cortes
drásticos no desenvolvimento e na ajuda humanitária. Essas e outras
forças estão abalando os alicerces da cooperação global e testando a
resiliência do próprio multilateralismo. Este é o paradoxo da nossa
época: em um momento em que mais precisamos da cooperação internacional,
parecemos ser os menos inclinados a usá-la e investir nela." Quais são
as causas profundas dessa tendência e quais poderiam ser as soluções?
Antes de tudo, os Jogos Olímpicos são um excelente momento para
simbolizar a paz e o respeito pelo direito internacional e pela
cooperação. Quero expressar minha profunda gratidão à Itália por sua
liderança na revitalização da antiga Trégua Olímpica como um poderoso
símbolo de paz. Graças à iniciativa italiana, a Assembleia Geral das
Nações Unidas adotou uma resolução convocando as nações a observarem a
Trégua Olímpica durante a preparação e ao longo dos Jogos Olímpicos e
Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Esta é uma poderosa
recordação de que, mesmo em tempos de divisão, a humanidade pode se unir
em torno de valores compartilhados. O esporte tem uma capacidade única
de superar divisões e inspirar a cooperação, e eu elogio a Itália por
abraçar esse espírito durante os Jogos de 2026. Os desafios que
destaquei estão profundamente enraizados em múltiplos fatores
interconectados. Na geopolítica atual, ações imprudentes provocam
reações perigosas. A impunidade alimenta a escalada, as desigualdades
abalam as sociedades e as mudanças climáticas desencadeiam tempestades,
incêndios florestais e a elevação do nível do mar. A tecnologia sem
proteção multiplica a instabilidade. Ao mesmo tempo, violações
flagrantes do direito e das normas internacionais enfraquecem a
credibilidade das instituições globais, enviando um sinal perigoso de
que atores poderosos podem agir impunemente. A redução do investimento
em desenvolvimento e ajuda humanitária agrava ainda mais essas crises,
deixando populações vulneráveis à fome, ao deslocamento e aos
conflitos. O efeito cumulativo é o enfraquecimento do multilateralismo
justamente quando a cooperação global é mais necessária: para prevenir
conflitos, responder a crises, enfrentar as mudanças climáticas e
defender os princípios de paz, justiça e direitos humanos que
fundamentam as Nações Unidas. Os Jogos Olímpicos também oferecem uma
plataforma única para conscientizar sobre a crise climática. As mudanças
climáticas ameaçam diretamente o futuro dos esportes de inverno: sem
ações urgentes, o número de locais capazes de sediar eventos de inverno
de forma confiável poderá cair dos atuais mais de 90 para apenas 30 na
década de 2080. Salvaguardar o futuro do esporte — e do nosso planeta —
exige uma ação decisiva e coletiva de todos os governos para limitar o
impacto do aquecimento global, em consonância com o Acordo de Paris, a
Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Os Jogos
podem mobilizar governos, atletas e cidadãos, demonstrando que a
cooperação global pode gerar resultados concretos, tanto para a paz
quanto para o clima. Acredito que as Olimpíadas são excelentes momentos
para simbolizar a paz, o respeito ao direito internacional e a
cooperação internacional. (…)
Recentemente o senhor afirmou: "Há aqueles que acreditam que o
poder da lei ("Estado de Direito") deve ser substituído pela lei do
poder. De fato, ao observar a atual política dos EUA, fica evidente a
crença de que soluções multilaterais são irrelevantes e que o que
importa é o exercício do poder e da influência dos EUA." Quais são as
consequências e os perigos desse comportamento para a paz e a
estabilidade globais?
Se queremos um mundo estável — um mundo onde a paz possa ser
sustentada, o desenvolvimento compartilhado possa florescer e nossos
valores comuns possam prevalecer — devemos defender a multipolaridade
baseada na cooperação, não no confronto. Quando a lei do poder substitui
o poder da lei, as consequências são profundamente desestabilizadoras. A
impunidade alimenta conflitos, escaladas e aprofunda a desconfiança,
permitindo que spoilers se aproveitem das tensões e ajam sem
responsabidade. A cooperação multilateral é enfraquecida e as
instituições internacionais têm dificuldades para responder eficazmente
às crises. Quando Estados poderosos priorizam a influência em detrimento
da adesão ao direito internacional, isso mina a credibilidade do
sistema internacional baseado em regras, enviando uma mensagem perigosa
de que regras e normas podem ser ignoradas e descartadas. Isso mina a
confiança entre os países, incentiva ações unilaterais e aumenta o risco
de confrontos, instabilidade e sofrimento humano. Em última análise, a
paz e a estabilidade globais não podem ser alcançadas sem o respeito ao
direito internacional, comportamento previsível e cooperação coletiva.
Instituições multilaterais fortes e inclusivas, fundamentadas na
responsabilidade e em valores compartilhados, são essenciais para a
gestão de conflitos, o combate às desigualdades, a resposta a crises
humanitárias, o enfrentamento das mudanças climáticas e a defesa dos
princípios da Carta das Nações Unidas.
Em seu discurso sobre as prioridades para 2026, o senhor afirmou
que acolhe com satisfação o início da Fase Dois do cessar-fogo em Gaza.
No entanto, muitos analistas veem o Conselho de Paz como um desafio
direto às Nações Unidas. O próprio presidente Trump afirmou que ele
poderia substituir a ONU. O senhor considera isso um risco?
O Conselho de Segurança adotou a Resolução 2803, que trata
especificamente de Gaza. Essa resolução define uma série de funções e
responsabilidades, incluindo as do Conselho de Paz e de outros atores, e
é essencial que seja plenamente implementada. Encorajo todas as partes a
respeitá-la. Todos os esforços devem ser guiados pelas resoluções
relevantes da ONU e pelo direito internacional. Temos necessidade de que
o cessar-fogo em Gaza se mantenha e que se avance decisivamente para a
Fase Dois. Isso significa a retirada completa das forças israelenses, o
desmantelamento dos grupos armados e a criação das condições para um
horizonte político crível, incluindo uma solução de dois Estados. Ao
mesmo tempo, é importante sermos claros quanto aos mandatos. A
responsabilidade pela paz e segurança internacionais cabe às Nações
Unidas e, dentro delas, ao Conselho de Segurança. Somente o Conselho tem
a autoridade, conferido pela Carta, para agir em nome de todos os
Estados-Membros, adotar decisões vinculativas e autorizar o uso da força
de acordo com o direito internacional. Nenhum outro órgão ou iniciativa
pode substituir esse papel. É precisamente por isso que o
fortalecimento e a reforma do Conselho são essenciais. A segurança
continua sendo crucial. Em Gaza, observamos um aumento significativo na
assistência humanitária desde o cessar-fogo. Mas ainda está longe de ser
suficiente. Além de alimentos, há enormes necessidades de saúde,
abrigo, água e saneamento. As Nações Unidas permanecem totalmente
comprometidas e empenhadas em superar os obstáculos para que a
assistência vital chegue aos mais necessitados.
Recentemente, o senhor enviou uma carta aos embaixadores
alertando-os de que a ONU corre o risco de um "colapso financeiro
iminente". Por que isso está acontecendo e o que os Estados-membros
devem fazer para evitar essa situação?
Enfatizei que este não é um desafio comum de fluxo de caixa. Deixei
claro aos Estados-membros que, embora a ONU tenha administrado períodos
difíceis de contribuições não pagas no passado, a situação atual é
categoricamente diferente. Decisões de não honrar contribuições que
financiam uma parte significativa do orçamento regular aprovado foram
agora formalmente anunciadas. Isso cria uma crise estrutural. De acordo
com as regras financeiras vigentes, se os fundos não forem recebidos, a
Organização é legalmente obrigada a devolver os valores "não gastos",
mesmo quando os mandatos não podem ser totalmente implementados. O
resultado é um ciclo insustentável de incerteza, atrasos nas operações,
congelamento de contratações e implementação reduzida dos mandatos
aprovados pelos próprios Estados-membros. A trajetória atual é
insustentável. Isso expõe a ONU a riscos financeiros estruturais e força
uma escolha drástica: os Estados-membros devem concordar em reformar as
regras financeiras da ONU ou aceitar a perspectiva muito real de seu
colapso financeiro. Abu Dhabi acolheu as primeiras negociações
trilaterais entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos, mas a
condição para as garantias de segurança é que a Ucrânia concorde em
ceder território. Considera esta uma solução aceitável para uma paz
justa e duradoura?
Saúdo todos os esforços para alcançar uma paz justa e inclusiva, e as
Nações Unidas estão prontas para apoiar esses esforços. No entanto, no
que diz respeito à Ucrânia, é crucial não esquecer os princípios
fundamentais. Primeiro, foi a Rússia que invadiu a Ucrânia, e não o
contrário. Segundo, qualquer possível solução para este ou qualquer
outro conflito deve basear-se no direito internacional e nos princípios
da Carta das Nações Unidas. As violações destas regras são extremamente
perigosas, pois transmitem a mensagem de que o direito internacional já
não importa e que os Estados podem agir sem consequências. Qualquer paz
na Ucrânia deve garantir a soberania, a independência e a integridade
territorial do país dentro das suas fronteiras internacionalmente
reconhecidas, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e o direito
internacional. A ONU está pronta para apoiar um processo de paz se as
partes concordarem e nos pedirem para o fazer, mas essas decisões não
dependem de nós, dependem das partes. Em menos de um mês, completaremos
quatro anos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela
Federação Russa — uma guerra que trouxe morte e destruição, causou um
número inimaginável de vítimas em ambos os países e representa uma grave
ameaça não só à paz e à segurança na Europa, mas também aos fundamentos
e princípios fundamentais das Nações Unidas. Nos últimos meses, com as
temperaturas caindo bem abaixo de zero, testemunhamos ataques
sistemáticos e intensificados à infraestrutura energética ucraniana, com
consequências humanitárias devastadoras. Esses ataques mataram e
feriram dezenas de civis e deixaram milhões de ucranianos sem
eletricidade, aquecimento e água. Onde quer que ocorram, os ataques
contra civis e infraestrutura civil são inaceitáveis, injustificáveis
e devem cessar imediatamente. Esta guerra, que nunca deveria ter
começado, deve terminar.
(vaticannews)