VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV
A ESPANHA
(6-12 DE JUNHO DE 2026)
ENCONTRO COM AS ORGANIZAÇÕES DE RECEÇÃO DE MIGRANTES
DISCURSO DO SANTO PADRE
Porto de Arguineguín (Las Palmas de Gran Canaria)
Quinta feira, 11 de junho de 2026
Queridos irmãos e irmãs:
Acabámos de escutar uma das passagens mais exigentes do Evangelho. Sabemos que este mesmo capítulo faz também uma advertência que nenhum crente pode tomar de ânimo leve (Mt 25, 41-45). Hoje, junto ao mar, a Palavra torna-se mais concreta: aqui chegam tantas vidas feridas, despojadas de quase tudo, mas nunca da sua dignidade. Aqui, o Evangelho arranca-nos da posição confortável de espectadores e coloca-nos diante do irmão que chega. Pergunta-nos se soubemos reconhecer Cristo naqueles que desembarcam marcados pelo medo, a fome, a violência, depois de atravessarem o deserto, a noite e o mar.
Como podeis ver, na minha mão tenho o anel que se chama “do Pescador”. O próprio nome remete-nos para o lago da Galileia, onde Cristo chamou Pedro e lhe disse: «De futuro, serás pescador de homens» (Lc 5, 10). A Igreja interpretou este versículo como uma imagem da sua missão. Mas aqui e em lugares como El Hierro, este mandato adquire uma força literal e dolorosa. Esta ilha, pequena em extensão, mas grande em humanidade, viu chegar milhares de pessoas arrancadas da sua terra e entregues à fragilidade de uma canoa. Aqui há pessoas resgatadas do mar e corpos sem vida retirados das águas. Por isso, o Sucessor de Pedro não se pode desinteressar destes cais. A Igreja não se pode desinteressar destas águas nem de qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar alheio o clamor de quem grita no meio da noite.
Na linguagem bíblica, o mar pode ser uma imagem de ameaça, escuridão e caos. Aí aparecem o Leviatã, figura da força que devora, e Rahab, nome que evoca a soberba dos poderes que se levantam contra Deus e contra a vida (cf. Sl 74, 13-14; 89, 10-11; Is 27, 1; 51,9; Jb 26, 12). Também hoje existem monstros que espreitam estes mares: máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento.
Mas a fé não fica paralisada perante o poder do mar. Acreditamos num Deus que subjuga o caos, põe limites ao mal e abre um caminho quando a morte parece impor-se. Foi isso que o povo de Israel experimentou ao atravessar o Mar Vermelho para sair da escravidão e avançar rumo à liberdade (cf. Ex 14, 21-31). E assim o contemplamos em Cristo, que caminha sobre as águas e, perante a tempestade, pronuncia uma palavra soberana: «Cala-te, acalma-te!» (Mc 4, 39; cf. Mt 14, 25-27). Essa voz continua a ressoar contra as forças que devoram, escravizam e descartam tantos dos nossos irmãos. Ali onde Cristo ordena que o mar se cale, a Igreja não pode permanecer em silêncio diante de quem é abandonado às suas águas.
Obrigado pelos testemunhos, por nos recordardes o que significa salvar vidas. Obrigado, Maria, por nos lembrares o que a Cáritas, as paróquias e tantas pessoas fazem diariamente. As tuas palavras mostram-nos onde começa a conversão do olhar: quando o migrante deixa de ser “mais um”, deixa de ser uma categoria e um número. Só então compreendemos que aquela menina poderia ser nossa filha, que aqueles rostos poderiam fazer parte da nossa família; e então, a consciência fica sem desculpas. A misericórdia começa com pequenos gestos: às vezes com algumas bolachas e um pouco de leite; outras vezes, com cinco pães e dois peixes (cf. Mt 14, 17-21). Não se trata de resolver tudo, mas de colocar tudo nas mãos de Deus e de estar presentes onde o ser humano sofre, os recursos não são suficientes e não há uma língua comum, embora os gestos ainda possam falar. Obrigado de coração a todos aqueles que se juntam aos resgates, ao acolhimento e ao acompanhamento, dando testemunho de que a misericórdia concreta pode salvar e mudar vidas.
Querida Blessing, embora não estejas aqui hoje, a tua voz está. Obrigado por partilhares a tua história conosco. O teu nome significa bênção e lembra-nos que cada vida humana é uma bênção de Deus. Ninguém pode comprá-la, vendê-la, usá-la ou descartá-la, porque em cada pessoa resplandece a imagem e semelhança do Criador (cf. Gn 1, 27). Contaste-nos que fugiste do teu país não porque quisesses, mas porque não havia outra opção. Nas tuas palavras, ouvimos o drama de tantas pessoas obrigadas a partir porque a pobreza, a guerra, as ameaças ou a exploração lhes bloquearam todos os caminhos.
Gostaria que esta mensagem chegasse a ti e a tantas mulheres vítimas do tráfico e da exploração: se outros colocaram um preço no teu corpo, Deus nunca deixou de olhar para ti como alguém com valor incalculável. Se quiseram aprisionar-te num passado de dor, Deus continua a pronunciar sobre ti uma promessa de futuro. Se te trataram como uma coisa, a Igreja quer dizer-te hoje: és filha, és irmã, és uma bênção. A tua vida não pertence àqueles que te fizeram mal; o teu corpo não pertence àqueles que se aproveitaram de ti; os teus dias não pertencem àqueles que quiseram acorrentá-los ao medo. A tua vida pertence a Deus e conserva uma dignidade que não te podem tirar. E nós queremos caminhar contigo até que essa verdade volte a ser sentida de um modo mais forte do que a dor.
Queridos migrantes: antes de vos dizer qualquer outra palavra, quero inclinar-me perante a vossa dignidade. Não sois números nem processos administrativos. Sois pessoas com uma família e uma casa deixada para trás; com sonhos que ninguém tem o direito de desprezar. Mas também quero dizer-vos que a vossa vida deve ser protegida. Não entregueis a vossa existência àqueles que com ela fazem comércio. Não acrediteis naqueles que prometem paraísos fáceis em troca do vosso corpo ou de dinheiro, de silêncio ou da vossa liberdade. Essas falsas promessas são “cantos de sereias”, são indústrias de morte.
Este drama tem de se tornar um exame de consciência: para as nações de origem, que devem criar condições de paz, justiça e desenvolvimento; para as nações de passagem, chamadas a proteger e a não deixar os mais fracos nas mãos de redes criminosas; para a Europa, que não pode proclamar a dignidade humana e habituar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico sejam cemitérios sem lápides; para a comunidade internacional, chamada a uma cooperação eficaz e perseverante.
Também a Igreja deve deixar-se interpelar. O acolhimento do migrante não pode ser algo secundário nem delegado exclusivamente a alguns voluntários. Ajoelhamo-nos diante do altar para adorar Cristo presente na Eucaristia, de quem recebemos a força e a motivação para viver a caridade; por isso, não podemos depois “passar de largo” perante as canoas e as pequenas embarcações, pois da oração brota todo o serviço e a ela volta todo o compromisso (cf. Lc 10, 31-32).
A partir desta ilha, gostaria que a voz daqueles que hoje se pronunciaram chegasse àqueles que têm nas suas mãos responsabilidades decisivas – autoridades civis, parlamentos, governos e organizações internacionais –, e também às comunidades cristãs, às outras tradições religiosas e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não basta gerir as chegadas, distribuir números, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes quando estas já tiveram lugar. Cada embarcação que chega não traz apenas migrantes; traz consigo uma pergunta: que mundo construímos, se tantos irmãos têm de arriscar a morte para procurar a vida?
A dignidade humana exige vias legais e seguras, resgate e assistência, cooperação concreta contra os traficantes, proteção efetiva às vítimas, processos sérios de acolhimento e integração, e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade na sua própria terra. Embora exista o direito de procurar refúgio quando a vida está ameaçada, existe também o direito de não ter de migrar: o direito de permanecer na própria casa sem fome, nem guerra, nem perseguição, nem violência, sem que a terra se torne inabitável, sem que a corrupção roube o pão dos pobres, sem que as armas destruam o futuro das crianças. Não podemos habituar-nos a contar mortos. A dignidade humana não tem passaporte nem perde valor ao atravessar uma fronteira.
Deus, que “no ocaso da vida nos julgará sobre o amor” (cf. S. João da Cruz, Avisos e sentenças, 57), que nos conceda reconhecê-lo hoje nos pobres e nos estrangeiros, e nos livre de olhar para a dor alheia como se não nos pertencesse. Que Nossa Senhora do Carmo acompanhe aqueles que chegaram, console quem perdeu os seus entes queridos, sustente aqueles que os acolhem e desperte em todos nós a coragem da misericórdia.
E que a história não tenha de nos acusar de termos convertido a dor dos que sofrem numa paisagem habitual das nossas costas. Porque hoje, aqui, junto ao mar, cada vida que chega questiona-nos sobre o que resta da nossa humanidade. Mais cedo ou mais tarde, saber-se-á se soubemos guardá-la ou se deixámos que a indiferença falasse por nós. Muito obrigado.
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