sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Os Papas e o 11 de setembro: a luz de Cristo na hora sombria da história

 


Reflexões dos Papas sobre os atentados de 25 anos atrás e seus repetidos apelos à paz e à reconciliação. Porque, mesmo diante de um horror indescritível, o mal e a morte não têm a última palavra.

Isabella Piro – Cidade do Vaticano

É 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos da América acabam de ser atingidos por quatro ataques suicidas que, em diferentes regiões do país, provocaram quase três mil vítimas. João Paulo II encontra-se em Castel Gandolfo. Informado por telefone pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, fica profundamente abalado com o ocorrido. Imediatamente, recolhe-se em oração na capela do Palácio Apostólico. Em seguida, envia um telegrama de pesar e proximidade ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. São seis linhas escritas em letras de forma, próprias da linguagem oficial, mas as palavras escolhidas pelo Papa Wojtyła são profundamente humanas e expressam a dor do mundo inteiro: o Pontífice fala de um “horror indescritível”, definindo os atentados terroristas como “desumanos” e aquele momento histórico como “sombrio e trágico”.

Uma afronta à dignidade humana

 

No dia seguinte é quarta-feira e, na Praça São Pedro, realiza-se a audiência geral. A pedido do Bispo de Roma, não há aplausos; os fiéis permanecem em um silêncio respeitoso. “Ontem foi um dia sombrio na história da humanidade, uma terrível afronta à dignidade do homem”, afirma João Paulo II, levantando em seguida a pergunta que está no coração de todos: “Como podem acontecer episódios de tamanha selvageria?”. A resposta, prossegue, está em Cristo, fundamento da esperança, aquele que faz com que “o mal e a morte não tenham a última palavra”.

João Paulo II em oração
João Paulo II em oração

Não a vingança, mas a unidade e o diálogo

 

Enquanto isso, naquelas mesmas horas, em Roma, acontece o 180º Capítulo Geral Ordinário da Ordem de Santo Agostinho. Participa dele também o padre Robert Francis Prevost, norte-americano, futuro Leão XIV, que em 14 de setembro, no dia de seu aniversário, é eleito prior-geral. Caberia a ele, portanto, presidir, em 21 de setembro, a missa conclusiva dos trabalhos, na igreja de Santa Maria del Popolo: “Não podemos deixar de recordar os trágicos acontecimentos que, em 11 de setembro, abalaram os Estados Unidos — afirma na homilia. — A violência que o mundo viu agir na semana passada nos Estados Unidos é uma expressão trágica de uma série de problemas que estão se agravando em toda parte. O ódio e a violência continuarão a aumentar enquanto existirem tantas pessoas obrigadas a viver em extrema pobreza, oprimidas por tantas formas de injustiça”. “Enquanto muitos procuram vingança — conclui —, os agostinianos devem dar testemunho do Evangelho e de seus valores de unidade, diálogo, paz e reconciliação”.

A ferocidade do terrorismo é vencida pelo Amor

 

Passa-se um ano e os apelos de João Paulo II pela paz sucedem-se incessantemente. Em 11 de setembro de 2002, uma quarta-feira, na Audiência Geral, o Papa recorda “o atroz atentado” ocorrido doze meses antes, o desabamento das Torres Gêmeas e as vidas de tantos inocentes tragadas pelos escombros. Com firmeza, o Pontífice reafirma que “o terrorismo é e será sempre uma manifestação de ferocidade desumana” e que “a opressão, a violência armada e a guerra são escolhas que semeiam e geram apenas ódio e morte”. “Somente a razão e o amor são meios válidos para superar e resolver as disputas entre as pessoas e os povos”, conclui.

Bento XVI em oração no Ground Zero
Bento XVI em oração no Ground Zero

A coragem de trabalhar pela paz

 

A paz invocada por Karol Wojtyła ganha força na oração de seu sucessor, Bento XVI. É 20 de abril de 2008 e, durante sua viagem apostólica aos Estados Unidos, Joseph Ratzinger vai a Ground Zero. No local onde antes se erguiam as Torres Gêmeas, há uma profunda cavidade, quase uma metáfora do abismo do mal. Ao redor, porém, tudo é um grande canteiro de obras, símbolo da esperança que renasce e reconstrói. Em silêncio, o Pontífice acende uma vela em memória das vítimas; depois, ajoelha-se e pede ao Senhor que “leve a paz a um mundo violento” e conceda à humanidade “a sabedoria e a coragem de trabalhar incansavelmente por um mundo no qual a paz e o amor autênticos reinem entre as nações e nos corações de todos”.

Cada vida humana é preciosa

 

Três anos mais tarde, em 11 de setembro de 2011, no décimo aniversário dos ataques terroristas, Bento XVI envia uma carta ao presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o arcebispo de Nova York, Timothy Dolan, que seria criado cardeal em fevereiro do ano seguinte. Recordando o “brutal atentado” de dez anos antes, define-o como uma “tragédia... tornada ainda mais grave pela reivindicação de seus autores de agir em nome de Deus”. Com firmeza, portanto, convida a “afirmar sem equívocos que nenhuma circunstância pode jamais justificar atos de terrorismo. Toda vida humana é preciosa aos olhos de Deus e não se deveria poupar nenhum esforço na tentativa de promover no mundo um respeito autêntico pelos direitos inalienáveis e pela dignidade dos indivíduos e dos povos em toda parte”.

Papa Francisco presta homenagem às vítimas dos ataques (Ground Zero, 25 de setembro de 2015)
Papa Francisco presta homenagem às vítimas dos ataques (Ground Zero, 25 de setembro de 2015)

Uma dor palpável que clama aos céus

 

Também o Papa Francisco vai a Ground Zero, que, nesse período, já se transformara em um memorial composto por duas grandes piscinas de água, do tamanho das bases das Torres Gêmeas. Nas bordas, estão inscritos os nomes das 2.974 vítimas de 90 nacionalidades diferentes. Durante o Encontro inter-religioso, realizado no local em 25 de setembro de 2015, o Pontífice descreve os atentados de 11 de setembro como “um ato insensato de destruição” e fala de uma “dor palpável”, “dilacerante”, que “deixa atônitos e clama aos céus”. A água que corre nas piscinas, afirma Jorge Mario Bergoglio, “recorda todas aquelas vidas que estavam sob o poder daqueles que acreditam que a destruição é a única maneira de resolver os conflitos”. Mas “a lógica da violência, do ódio e da vingança pode causar apenas dor, sofrimento, destruição e lágrimas”. A vida, ao contrário, “está sempre destinada a triunfar sobre os profetas da destruição, sobre a morte”, porque “a reconciliação e a unidade vencerão o ódio e a divisão”. “Peçamos aos céus o dom de nos comprometermos com a causa da paz — conclui o Bispo de Roma. — Paz neste vasto mundo que Deus nos deu como casa de todos e para todos. Somente paz”.

Nunca mais uns contra os outros!

 

Diante da paz, “não podemos ser indiferentes e neutros”, afirmaria ainda Francisco em 11 de setembro de 2021. A ocasião é o G20 Interfaith Forum, realizado em Bolonha sobre o tema “É tempo de curar — Paz entre as culturas, compreensão entre as religiões”. Em uma mensagem aos participantes, o Papa volta a destacar: “Não neutros, mas comprometidos com a paz! Invoquemos o ius pacis, como direito de todos de resolver os conflitos sem violência”. E conclui: “Nunca mais a guerra, nunca mais uns contra os outros, nunca mais sem os outros!”, porque, no fim, “os jovens e a história nos julgarão por isso”.


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