No encontro internacional sobre a família, que se realiza até 14 de outubro no Vaticano, a portas fechadas e com a participação dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo e convidados do papa, participantes buscam responder à questão: por que diminui o número de jovens que se casam na Igreja e como é que a sociedade atual compreende a relação entre sexualidade, procriação e o vínculo sacramental do matrimônio.

O presidente da Conferência Episcopal Australiana, bispo Timothy Costelloe, disse ontem (8), na sessão da tarde, que em seu país, e provavelmente em muitos outros, “o conceito de uma ligação necessária entre atividade sexual e procriação, assim como a importância dessa ligação no casamento cristão, não é mais amplamente compreendido ou aceito”.

Para ilustrar essa realidade, ele citou o depoimento de um diretor de Educação Religiosa na Austrália Ocidental, um pai casado, que disse que muitos jovens “herdaram pressupostos culturais sobre sexualidade que diferem substancialmente dos da Igreja”.

Para Costelloe, essa situação destaca “a tensão entre a visão da Igreja e algumas correntes dominantes da sociedade contemporânea (...) que muitas vezes apresentam uma visão das relações humanas que privilegia a realização pessoal, a autonomia e a felicidade imediata em detrimento da permanência, do sacrifício e da aliança”.

Falhas morais dos líderes eclesiásticos

Muitos jovens também enfrentam experiências dolorosas, “como a ruptura conjugal em suas próprias famílias, violência doméstica, desigualdades entre mulheres e homens e as falhas morais de líderes religiosos, cuja credibilidade e testemunho foram comprometidos”.

“Estamos competindo com muitas outras propostas sobre o significado do casamento”, disse ele.

Apesar dessas dificuldades, o bispo disse que muitos jovens continuam buscando relacionamentos que façam aflorar o "melhor neles", que sejam "duradouros" e que lhes proporcionem uma base sólida sobre a qual construir um futuro significativo.

Ele defendeu a necessidade de apoiar essas aspirações e acompanhar jovens no processo de construção de relacionamentos estáveis.

Costelloe disse que o elevado número de casamentos que "terminam em divórcio" faz com que muitos jovens duvidem que "um compromisso para a vida toda seja possível ou mesmo desejável".

O bispo destacou o valor do testemunho que as "famílias estáveis" podem oferecer.

O desafio de compreender a rejeição do casamento entre os jovens

No encontro, o cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, alertou para o declínio do número de casamentos em todo o mundo, tanto no âmbito civil quanto no religioso. “Vamos tentar interpretar esse fenômeno, levando em consideração se as suas causas são as mesmas em todos os lugares”, disse ele a sobre o encontro, que ocorre para marcar o décimo aniversário da exortação apostólica Amoris laetitia, publicada pelo papa Francisco depois de dois sínodos marcados por intensos debates sobre a pastoral familiar.

O prefeito disse que os padres não são os únicos preocupados com os jovens que não querem se casar. Muitos pais cristãos também estão preocupados porque seus filhos "sofrem de solidão, hesitam em assumir um compromisso duradouro ou rejeitam categoricamente o caminho que eles próprios trilharam com alegria".

Entre os fatores que ajudam a explicar essa tendência, ele citou o elevado número de divórcios, a diversidade de arranjos de coabitação e a influência das tendências culturais predominantes.

Nesse sentido, o prefeito disse: “Num nível mais profundo, poderíamos nos perguntar se talvez Deus tenha parado de falar ao coração dos jovens e de despertar neles o desejo de se casar”.

Assim, ele disse que, nesses dias de encontro, participantes tentarão identificar sinais de esperança e refletir sobre espaços, iniciativas, pessoas e eventos que podem abrir novos caminhos rumo ao casamento.

“Também refletiremos sobre até que ponto nossas comunidades estão atentas ao testemunho daqueles que, apesar de tudo, escolhem o matrimônio – seja numa fase inicial da vida ou mais tarde – e como a experiência deles pode nos ajudar a compreender e apresentar a vocação ao matrimônio de modo mais eficaz”, disse o prefeito.

O que os jovens procuram quando falam de amor?

O bispo-auxiliar de Mumbai, Índia, Stephen Eustace Victor Fernandes, disse que o principal desafio para a Igreja não é tanto perguntar por que jovens não aceitam o casamento, mas sim entender o que eles buscam quando falam “de amor, liberdade, dignidade e futuro”.

Fernandes disse que os jovens vivem relacionamentos num contexto cultural muito diferente das gerações anteriores, onde “a cultura da imediatidade e da escolha contínua pode influenciar sua experiência de intimidade, enquanto o casamento exige paciência, presença, perdão e perseverança”.

Ele disse também que muitos jovens têm dificuldade em imaginar uma vida pessoal, relacional e familiar estável devido ao contexto de "insegurança econômica" decorrente de dificuldades no emprego, custos de moradia, migração ou instabilidade social.

Segundo ele, para muitos, adiar o casamento não é simplesmente uma rejeição ao casamento em si, mas pode refletir "uma crise de confiança na possibilidade de construir uma vida estável e duradoura com outra pessoa".