16 de set de 2026 às 12:42
O papa concedeu hoje (16) uma audiência privada no Vaticano aos participantes da conferência O Século XXI: Uma Nova Era de Mártires? no Instituto Patrístico Augustinianum, em Roma.
A conferência, organizada pelo Dicastério para as Causas dos Santos, debateu a iniciativa ecumênica Comissão Para Os Novos Mártires — Testemunhas da Fé, instituída pelo papa Francisco em 2023 para documentar as mortes de cristãos de todas as denominações que foram mortos desde 2000.
Entre os casos discutidos estava o da irmã Dorothy Stang, freira americana que foi morta no Brasil em 2005 em meio a um conflito de terras.
Testemunhas cristãs propõem fé vivida, não uma ideologia
Em seu discurso, o papa Leão XIV elogiou o trabalho do dicastério de catalogar as vidas de cristãos mortos por sua fé e disse que o exemplo deles pode ensinar os fiéis de hoje a apresentar a fé não como uma ideologia, mas como um modo de vida.
“A força evangelizadora das novas testemunhas da fé representa um dos maiores recursos da Igreja para anunciar o Evangelho no mundo de hoje”, disse Leão XIV. “As testemunhas da fé não propõem uma ideologia, mas mostram uma fé vivida no dia a dia”.
Ele falou também sobre a importância desses cristãos para os católicos, dizendo que eles “são irmãos e irmãs que, em vários contextos geográficos, históricos e políticos, deram a vida pelo Evangelho”.
O papa disse também que a santidade do dia a dia pode ajudar os cristãos a explicar e defender sua fé em discussões.
Em contextos culturais indiferentes, a santidade cotidiana e o heroísmo silencioso tornam-se argumentos poderosos, capazes de falar a todos, até mesmo aos mais céticos.
Entre os palestrantes da conferência estavam o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, e o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém.
Pizzaballa, que fez um discurso sobre o sofrimento dos cristãos em meio às guerras em curso na Terra Santa, falou sobre sua experiência ao falar sobre esse sofrimento a estudantes muçulmanos na Palestina.
“Concordei em me encontrar com jovens da universidade local que insistiram para que eu fosse”, disse Pizzaballa. “Eu nunca tinha passado por isso antes e estava com medo. Havia cerca de 600 estudantes, todos muçulmanos. Na conversa, eu esperava perguntas políticas sobre a guerra. Em vez disso, todas as perguntas foram sobre a vida, sobre a fé e sobre o cristianismo”.
“Quando eu disse que o cristianismo rejeita a violência… eles se levantaram e aplaudiram, dizendo que também estavam cansados de viver num sistema de violência”.
O sangue dos mártires precede as divergências teológicas
Em seu discurso, Semeraro falou sobre o progresso da iniciativa Comissão Para Os Novos Mártires — Testemunhas da Fé e falou sobre a necessidade de priorizar o sacrifício dos cristãos pela fé em detrimento dos debates teológicos.
“O sangue dos mártires precede nossos diálogos teológicos”, disse Semeraro. “Onde nossas confissões cristãs ainda têm feridas que precisam ser curadas, os mártires nos dizem que o essencial já está compartilhado: a confissão de Cristo, até mesmo a doação da própria vida. Isso se chama ecumenismo de sangue”.
Irmã Dorothy Stang e o impacto do 11 de Setembro na perseguição aos cristãos
Entre os cristãos mencionados na conferência estava a irmã Dorothy Stang, freira americana assassinada no Brasil em 2005 em meio a conflitos de terra quando fazia parte da Comissão Pastoral da Terra da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No ano passado, ela se tornou a primeira americana a ter um memorial permanente em Roma, Itália, dedicado aos mártires cristãos modernos.
A freira Nicoletta Spezzati, consultora do Dicastério para as Causas dos Santos, descreveu Stang como uma “mulher de oração contemplativa” que compreendia que “a devastação predatória do planeta não é simplesmente uma ofensa moral, mas a rebelião da humanidade contra o Criador”.
Marcia Goodman, sobrinha de Stang, disse que a vida da freira estava enraizada na crença num ambiente sustentável para todas as pessoas.
“É especialmente impactante que Dorothy, uma mulher, esteja sendo reconhecida como uma mártir moderna”, disse Goodman à EWTN News. “Ela viveu sua vida acreditando que todas as pessoas importam e, portanto, merecem um lugar para chamar de lar”.
Além de Stang, também foi mencionado o impacto dos ataques terroristas contra os EUA em 11 de setembro de 2001 sobre a perseguição aos cristãos na Europa. O padre Roberto Regoli, presidente da Fundação Joseph Ratzinger, descreveu esses ataques como um prenúncio de uma nova escala de perseguição aos cristãos em nível internacional.

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