A imagem de dois trens de alta velocidade destroçados, com os vagões de ferro retorcidos depois de uma brutal colisão frontal, rompeu para sempre a rotina tranquila de Urda, uma cidade espanhola de apenas 2,5 mil habitantes, na província de Toledo. O acidente aconteceu ontem (28).

Antonio García Condado, de 78 anos, o farmacêutico da cidade, foi um dos primeiros a ver dezenas de corpos sob os amontoados de ferro e a socorrer os feridos que não tinham sequer forças para gritar ajuda.

Ele estava terminando de tomar café da manhã quando sua filha o avisou de que havia ocorrido um acidente ferroviário. O farmacêutico pegou o carro e seguiu para o local. A princípio, acreditou que se tratava de um incidente menor.

“Quando cheguei lá, vi uma coisa muito tranquila. Não havia trânsito, praticamente não havia carros. E disse: ‘Bom, isto é uma coisa muito tranquila. Mas, à medida que me aproximava da cabine do AVE, vi que não havia cabine. Era um amontoado de ferragens, cadáveres e pessoas moribundas”, disse, um dia após a tragédia, à EWTN News Español.

Alguns mexiam “a mão no meio dos cadáveres”

O que mais o surpreendeu foi o silêncio sepulcral que envolvia a cena.

“Não havia gritos; talvez porque não tivessem forças nem para falar. Alguns moviam a mão no meio dos cadáveres”, contou.

Como Antonio está perto do pavilhão onde os familiares aguardam, jornalistas de diversos veículos perguntam, repetidas vezes, o que ele viu; mas a repetição não ameniza o impacto das cenas que presenciou. Toda vez que relata o ocorrido, Antonio volta a se emocionar.

“Fiquei profundamente impactado com a despedida de um homem moribundo com a sua mulher: ‘Maite, eu te amo muito, cuide dos nossos filhos’. As últimas palavras que ele disse me comoveram muito: ‘Deus é bom’”, recorda.

O padre José Miguel Fernández, pároco da Basílica do Santíssimo Cristo de Urda, revelou depois, durante a homilia, que esse homem havia sobrevivido ao acidente e telefonou para Antonio para lhe agradecer.

Em seu relato diante das câmeras, o farmacêutico contou que, depois daquela cena, viu outro sobrevivente que pedia ajuda com serenidade, apesar da gravidade dos ferimentos. Ele descreveu um rapaz que estava atrás dele, de pé, muito tranquilo, pedindo uma ambulância.

“Ele havia perdido o braço. Eu desabei”

“Foi então que percebi que ele estava com o braço decepado. Ele havia perdido o braço. Desabei; acho que até chorei”, conta.

Depois daquele primeiro impacto, ele se deu conta da gravidade da situação e voltou imediatamente à farmácia. Reuniu todo o material médico que pôde e mobilizou toda a sua família.

“Vim para cá de mãos vazias para conseguir algum material, principalmente analgésicos. Meu filho veio comigo, minha filha também, minha mulher, o auxiliar que trabalha comigo... Deixamos a farmácia praticamente vazia e fomos todos tentar resolver algum problema”, explica.

De volta ao local do acidente, as forças de segurança orientaram que ele entrasse por outro ponto. Lá, deparou-se com uma cena ainda mais devastadora, do outro lado do trem. “Um vagão incrustado dentro de outro. Imagine os corpos que havia ali. Pois é, aquilo foi terrível”, descreve.

Poucos minutos depois, o local do acidente envolvendo os dois trens, um AVE da Renfe, com 397 pessoas a bordo, e um Iryo, que transportava 147 passageiros, se encheu da movimentação de agentes uniformizados e veículos típica das grandes catástrofes: dezenas de ambulâncias que se cruzavam com carros funerários; caminhões dos bombeiros, veículos da Defesa Civil, da Guarda Civil…

A fé, a única coisa que conforta em meio à tragédia

Durante toda a manhã, Antonio colaborou como pôde com as equipes de emergência, fornecendo medicamentos e materiais de saúde quando começavam a faltar. “O que mais me marcou foi o primeiro momento, quando vi as pessoas pedindo ajuda sem que eu pudesse fazer nada, pois estava praticamente sozinho. Foi uma sensação de impotência tremenda”, explica este homem de profundas convicções religiosas.

Para ele, a fé em Cristo foi e continua sendo seu grande amparo: “Nós, que cremos, quando vivemos traumas tão grandes, sempre nos lembramos da mesma coisa. Acho que isso nos conforta muito. É a única forma de seguir em frente”.

(acidigital)