sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Leão XIV: uma educação desarmante e desarmada cria igualdade e crescimento para todos
Mariangela Jaguraba/Raimundo Lima – Vatican News
O Papa Leão XIV recebeu em audiência nesta quinta-feira (30/10), na Sala Paulo VI, no Vaticano, os estudantes que participam do Jubileu do Mundo Educativo que teve início na última segunda-feira, 27 de outubro, e se concluirá no domingo, 2 de novembro. Estiveram presentes dentro e fora da Sala Paulo VI, oito mil e quinhentas pessoas.
O Pontífice iniciou o seu discurso, dizendo-lhes que esperou "por este momento com grande emoção" e que a companhia deles o fez "lembrar dos anos em que ensinava matemática para jovens vibrantes" como eles. "Agradeço por terem aceitado o convite para virem aqui hoje, para compartilhar as reflexões e esperanças que, por meio de vocês, transmito aos nossos amigos em todo o mundo", disse o Papa.
Audácia de viver em plenitude
A seguir, Leão XIV recordou São Pier Giorgio Frassati, "um estudante italiano canonizado durante este ano jubilar". O Pontífice citou duas frases que Frassati repetia com frequência: “Viver sem fé não é viver, mas ir vivendo” e “Para o alto”.
"São afirmações muito verdadeiras e encorajadoras", disse ainda o Papa, convidando os jovens a terem "a audácia de viver em plenitude". "Não se contentem com as aparências ou as modas: uma existência centrada naquilo que passa nunca nos satisfaz. Em vez disso, cada um diga em seu coração: 'Sonho mais, Senhor, quero mais: inspira-me!'", disse ele.
“Esse desejo é a força de vocês e expressa bem o compromisso dos jovens que planejam uma sociedade melhor, da qual não aceitam ser meros espectadores. Encorajo-os, portanto, a tender constantemente “para o alto”, acendendo o farol da esperança nas horas sombrias da história. Como seria bonito se um dia a sua geração fosse reconhecida como a “geração plus”, lembrada pelo impulso extra que saberão dar à Igreja e ao mundo.”
Protagonistas da educação
O Papa disse ainda aos estudantes que "este sonho não pode permanecer apenas de uma pessoa", mas que "devemos nos unir para realizá-lo, testemunhando juntos a alegria de crer no Senhor Jesus". De acordo com o Papa, "devemos conseguir isto através da educação, um dos instrumentos mais bonitos e fortes para mudar o mundo".
“Há cinco anos, o amado Papa Francisco lançou o grande projeto do Pacto Educativo Global, uma aliança de todos aqueles que, de várias formas, trabalham na área da educação e da cultura, com o objetivo de envolver as novas gerações numa fraternidade universal. Na verdade, vocês não são apenas destinatários da educação, mas seus protagonistas.”
Leão XIV os convidou a se aliarem "para inaugurar uma nova era educativa, na qual todos - jovens e adultos - nos tornemos testemunhas críveis da verdade e da paz".
Não se limitar a olhar para o celular
O Papa acrescentou uma reflexão de John Henry Newman, "um santo estudioso que muito em breve será proclamado Doutor da Igreja". "Ele dizia que o saber se multiplica quando é partilhado e que é no diálogo das mentes que se acende a chama da verdade. Assim, a verdadeira paz nasce quando muitas vidas, como estrelas, se unem e formam um desenho. Juntos, podemos formar constelações educativas, que orientam o caminho futuro", disse o Pontífice.
"Cada um é uma estrela, mas, juntos, vocês são chamados a orientar o futuro. A educação une as pessoas em comunidades vivas e organiza as ideias em constelações de sentido", disse ainda o Pontífice, ressaltando que "a educação nos ensina a olhar cada vez mais para o alto". "Não se limitem a olhar para o celular e para os seus fugazes fragmentos de imagens: olhem para o Céu, para o alto", sublinhou.
Uma sociedade incapaz de educar a dimensão espiritual
O Papa frisou que "não basta ter grande conhecimento científico, se depois não sabemos quem somos e qual é o sentido da vida. Sem silêncio, sem escuta, sem oração, até as estrelas se apagam". "Podemos conhecer muito do mundo e ignorar o nosso coração: vocês já devem ter experimentado aquela sensação de vazio, de inquietação que não nos deixa em paz", disse ainda o Papa Leão.
“Nos casos mais graves, vemos episódios de desconforto, violência, bullying, opressão, e até mesmo jovens que se isolam, não querendo mais relacionar-se com os outros. Penso que por trás destes sofrimentos esteja também o vazio criado por uma sociedade incapaz de educar a dimensão espiritual da pessoa humana, e não apenas as dimensões técnica, social e moral.”
Leão XIV recordou Santo Agostinho que, quando jovem, "era um rapaz brilhante, mas profundamente insatisfeito". "Até que descobriu Deus no próprio coração, escrevendo uma frase muito profunda, que serve para todos nós: «O nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós». Portanto, educar para a vida interior significa: "Ouvir a nossa inquietação, não fugir dela nem empanturrá-la com o que não sacia".
Servir da tecnologia com sabedoria
A seguir, falou a propósito de um dos novos desafios educativos: a educação digital.
“Vocês vivem nela, e isso não é mau: contém enormes oportunidades de estudo e comunicação. No entanto, não permitam que o algoritmo escreva a sua história! Sejam os seus autores: sirvam-se da tecnologia com sabedoria e não permitam que a tecnologia se sirva de vocês.”
Humanizar o digital
"A inteligência artificial também é uma grande novidade – uma das rerum novarum, ou seja, das coisas novas – do nosso tempo: todavia, não basta ser “inteligente” na realidade virtual, é necessária humanidade no trato com os outros, cultivando uma inteligência emocional, espiritual, social e ecológica", frisou ainda o Papa.
“Eduquem-se de modo a humanizar o digital, construindo-o como um espaço de fraternidade e criatividade, não como uma prisão onde vocês se fecham, nem como uma dependência ou uma fuga. Em vez de turistas da rede, sejam profetas no mundo digital.”
"A este respeito, temos diante de nós um exemplo muito atual de santidade: São Carlo Acutis", frisou ainda Leão XIV. "Um jovem que não se tornou escravo da rede, antes a utilizou com habilidade para o bem. São Carlo uniu a sua linda fé à paixão pela informática, criando um site sobre milagres eucarísticos e fazendo assim da Internet um instrumento para evangelizar. A sua iniciativa nos ensina que o digital é educativo quando não nos fecha em nós mesmos, mas nos abre aos outros", disse ainda o Papa.
Desarmar os corações
Por fim, Leão XIV falou sobre um desafio que "está no cerne do novo Pacto Educativo Global: a educação para a paz. Vejam bem como o nosso futuro é ameaçado pela guerra e pelo ódio que dividem os povos. Este futuro pode ser alterado? Certamente! Mas como? Através de uma educação para a paz desarmada e desarmante".
“Com efeito, não basta silenciar as armas: é preciso desarmar os corações, renunciando a toda forma de violência e vulgaridade. Deste modo, uma educação desarmante e desarmada cria igualdade e crescimento para todos, reconhecendo a igual dignidade de cada jovem, sem nunca os dividir entre aqueles poucos privilegiados que têm acesso a escolas caríssimas e aqueles muitos que não têm acesso à educação. Com grande confiança em vocês, convido-os a serem construtores de paz, em primeiro lugar, onde vivem, na família, na escola, no esporte e entre os amigos, indo ao encontro de quem provém de outra cultura.”
Concluindo, Leão XIV os convidou a olharem "para o alto, para Jesus Cristo, «o sol da justiça», que os guiará sempre pelos caminhos da vida".
(vaticannews)
Hoje é dia de são Quintino mártir, padroeiro dos capelães e serralheiros
Por Redação central
31 de out de 2025 às 00:01
A Igreja Católica celebra hoje (31) são Quintino, o mártir, nascido na Roma Antiga. Não há certeza sobre o ano ou local onde nasceu, mas sabe-se que morreu no ano 287 d.C.
“Quintino” ou Quentin era filho de um senador romano que se converteu ao cristianismo. A tradição sugere que ele foi batizado pelo papa são Marcelino e que acompanhou são Lúcio de Beauvais em sua pregação na Gália (região romana que incluía a atual França e parte da Bélgica).
Convocado a dar testemunho de Cristo
Durante séculos, dizia-se que são Quintino fazia curas milagrosas e tinha o poder de expulsar demônios. Pelo seu testemunho de amor a Cristo, provocou a conversão de muitos pagãos, embora também tenha despertado suspeitas das autoridades civis do império.
Ele foi acusado de professar o cristianismo e levado à força perante o governador Riciovaro. Ele o repreendeu por estar do lado daqueles que proclamavam a fé num homem crucificado, algo que o cidadão comum considerava desonroso, típico de criminosos e covardes. Quintino respondeu a Riciovaro que isso era para ele a maior honra, ainda maior do que ser filho de um senador.
Ai de mim se eu não evangelizar! (1Cor 9, 16)
Riciovaro considerou as declarações de Quintino uma afronta à sua investidura e ordenou que fosse acorrentado e açoitado. Após ser açoitado, o cristão foi levado para uma masmorra, de onde escaparia milagrosamente aproveitando a escuridão da noite.
Livre novamente, Quintino retomou a pregação. Infelizmente ele foi descoberto e preso novamente. Foi transferido para “Augusta Veromanduorum” (hoje cidade francesa de Saint-Quentin, rebatizada em homenagem ao seu ilustre santo). Lá ele ficou em uma masmorra aguardando execução.
São Quintino foi decapitado e seus restos mortais jogados no rio Somme, de cujas águas seria resgatado por um grupo de cristãos em 287. Hoje suas relíquias permanecem na basílica da cidade que leva seu nome.
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Hospital Pediátrico do Papa acolhe quem bate vindo de locais de conflito, diz Parolin
Lorena Leonardi – Roma
O tratamento e a pesquisa são ambos “caminhos de uma mesma vocação” a serviço da vida, uma responsabilidade que “une ética, ciência e solidariedade” em um lugar que se destaca não apenas por seu “sim” à pesquisa, mas também porque não diz “não” a ninguém e sempre encontra uma maneira de acolher quem bate à porta, mesmo que venha de lugares distantes, especialmente se marcados pela pobreza ou conflitos. Assim, o secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, resumiu a missão do Hospital Pediátrico Bambino Gesù durante uma intervenção nesta terça-feira, 28 de outubro, na sede da instituição sanitária, no bairro San Paolo, em Roma.
Ciência e humanidade caminham juntas
O cardeal participou da conferência sobre o tema “A pesquisa X o tratamento”, promovida por ocasião dos 40 anos do reconhecimento do “hospital do Papa” como Instituto de Recuperação e Tratamento de Caráter Científico, em 1985. Quatro décadas, destacou Parolin, “de pesquisa e tratamento, empenho, inteligência e paixão, durante as quais a ciência e a humanidade caminharam juntas a serviço das crianças e de suas famílias”.
A compaixão no tratamento dos doentes
O cardeal lembrou como na recente exortação apostólica de Leão XIV, Dilexi te, se insiste na compaixão cristã manifestada ao longo do tempo de maneira peculiar no tratamento dos doentes e sofredores. A tradição de visitar os doentes e assisti-los, confortando suas dores “não é apenas um gesto de filantropia — esclareceu — mas uma missão eclesial, através da qual, nos doentes, a Igreja toca a carne sofredora de Cristo”. Uma “herança de cuidado” que continua nos hospitais católicos, portanto também no Bambino Gesù, onde “a presença cristã ao lado dos doentes lembra que a salvação não é uma ideia abstrata, mas uma ação concreta”. E onde essa missão também é realizada através da pesquisa.
Resultados da tecnologia usada eticamente
Sobre o tema, o secretário de Estado reiterou o que Leão XIV disse aos participantes da Escola de Verão de Astrofísica recebidos em audiência em junho sobre a importância do compartilhamento do conhecimento, base da pesquisa científica moderna. Os grandes sucessos, destacou, vêm “do trabalho em equipe, da tecnologia usada de forma ética” e da multiplicação dos “vestígios de conhecimento ao nosso redor”.
Os resultados do Bambino Gesù
E no Bambino Gesù foram disseminados muitos vestígios, a partir do primeiro transplante pediátrico de coração na Itália, em 1986, até a primeira terapia genética para tumores sólidos em 2018, passando por todas as conquistas em muitos campos, até o laboratório de terapia genética recém inaugurado e representa um importante passo à frente na pesquisa e no tratamento de doenças onco-hematológicas e imunológicas pediátricas.
Os rostos por trás dos objetivos alcançados
Por trás de cada objetivo alcançado, observou Parolin, há “pessoas, histórias, rostos, crianças e famílias com novas esperanças, pesquisadores e médicos que encontram soluções, grupos disciplinares que transformaram os percursos de tratamento”. O cardeal convidou a não parar “diante das dificuldades ou das questões que as doenças raras ou condições clínicas graves colocam”, mas a enfrentá-las “com coragem e tenacidade, sempre buscando uma resposta” . Ele então evocou o episódio evangélico da cura do paralítico de Cafarnaum, que foi baixado do telhado para que pudesse encontrar Jesus, como metáfora da pesquisa científica, capaz de “procurar um caminho onde não há, encontrar uma passagem onde os outros veem um limite”.
A confiança em São Pier Giorgio Frassati
Mais uma vez, o cardeal exaltou a capacidade do hospital pediátrico de “permanecer ao lado e acompanhar”, unindo “ciência e caridade, fé e inteligência, pesquisa e cura”, para testemunhar que cada criança, cada pessoa que sofre” é “o rosto de Cristo a ser acolhido e amado”. Por fim, a confiança em São Pier Giorgio Frassati — jovem italiano de Torino ligado à família Salviati, que fundou o hospital em 1869 — para colocar “nossa saúde a serviço daqueles que não a têm”.
Sustentabilidade e universalidade
O presidente do Bambino Gesù, Tiziano Onesti, falou sobre “responsabilidade” em sentido amplo, insistindo na sustentabilidade, “para que não haja desperdício”, e na universalidade, “para que os cuidados, sem esquecer as raízes da cidade e do país, sejam oferecidos a todos”. O presidente explicou que, atualmente, o hospital acolhe três jovens palestinos, um na sede do Gianicolo e dois em Palidoro: “chegarão mais três esta semana, no total acolhemos 31 e estamos tratando-os”. Trata-se de “casos de elevada complexidade, porque, obviamente, naquela zona, naquele teatro de guerra, já não há hospitais nem cuidados médicos. Portanto, continuamos com responsabilidade acolhendo não só as crianças, mas também as suas famílias”. Sem reduzir tudo a “números e serviços”, o compromisso é que a investigação não crie apenas “trocas de conhecimento, mas pontes de solidariedade”, num horizonte capaz de devolver “dignidade e confiança”.
Prestar cuidados “que antes não existiam”
Andrea Onetti Muda, diretor científico do hospital, refletiu sobre o quanto o mundo da pesquisa mudou nas últimas décadas: “o mundo da pediatria era muito diferente do que conhecemos hoje e as possibilidades terapêuticas eram limitadas, a pesquisa não estava muito integrada à clínica, as tecnologias eram pouco mais que rudimentares”. No entanto, já naquela época havia “uma pequena semente que brotava: havia uma visão, a de unir o cuidado dos mais frágeis à força da pesquisa científica”. Uma visão que se tornou realidade, porque desde então “muitas famílias puderam olhar para o futuro com esperança” e dezenas de milhares de crianças “receberam em nosso hospital cuidados que antes não existiam”, juntamente com a diversão e o sorriso que a doença lhes havia roubado.
Inovar no dia a dia
O ministro da Saúde da Itália, Orazio Schillaci, lembrou a peculiaridade dos Institutos de internação e tratamento de caráter científico, estruturas nas quais “a pesquisa e a assistência se fundem, fazendo com que a medicina dê grandes passos à frente”. Ele reconheceu que o Bambino Gesù se destacou, no panorama nacional e internacional, “graças à capacidade de aplicar a inovação diariamente a uma sólida cultura de pesquisa e à disponibilidade das melhores competências profissionais. Tudo isso — acrescentou — sempre mantendo alta a atenção à ética e à relação de cuidado”.
Investimento “ético” para um tratamento “sem fronteiras”
O presidente da Região do Lazio, Francesco Rocca, ecoou suas palavras, prometendo apoio às instituições que, como o Bambino Gesù, são “uma referência para as famílias”. Trata-se, disse ele, de um verdadeiro “investimento ético” em uma estrutura que cuida “sem fronteiras”, inclusive de crianças provenientes de terras onde a infância está sob ataque, garantindo-lhes respeito e proteção e colocando-se como um verdadeiro “patrimônio da humanidade”.
“Crianças, família e vida”
O prefeito de Roma, Roberto Gualtieri, definiu o hospital como “um dos motores que torna nossa cidade única”, unindo-a “aos valores mais preciosos: as crianças, a família e a vida”. No âmbito de uma mesa redonda, pesquisadores e pesquisadoras ilustraram projetos de estudo sobre genética funcional, sobre a “assinatura inflamatória” no âmbito reumatológico, sobre medicina regenerativa e impressão tridimensional, sobre o uso inovador da máquina para perfusão extracorpórea.
O novo laboratório de terapia genética
No final do encontro, foi possível visitar o novo laboratório de terapia genética, instalado em um espaço de 700 metros quadrados, onde são desenvolvidos medicamentos celulares geneticamente modificados para serem produzidos na oficina adjacente ao hospital e aplicações de estudos clínicos inovadores em diversas doenças oncológicas pediátricas, em uma constante interação entre o âmbito clínico e a pesquisa.
(vaticannews)