27 de set de 2026 às 10:48
O papa Leão XIV se reuniu hoje (27) com sete vítimas francesas de abuso sexual por parte de clérigos, realizando um gesto de solidariedade e reconciliação em um santuário mundialmente famoso por suas águas curativas.
O encontro, que durou quase duas horas, aconteceu na residência do bispo local, onde Leão XIV está hospedado durante suas duas noites no santuário de Nossa Senhora de Lourdes.
Uma das vítimas, Jérôme Guillement, disse aos jornalistas depois do encontro: “Havia algo de sincero [no papa Leão]. Com ele, cada palavra foi cuidadosamente escolhida; cada palavra tinha significado. … Houve muita emoção”.
Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, o papa passou uma hora e meia conversando individualmente com os quatro homens e as três mulheres, antes de se dirigir a eles como um grupo por cerca de 20 minutos, “agradecendo pelo doloroso testemunho e reafirmando seu compromisso para que o mal sofrido não se repita com outras pessoas”.
Ele “expressou sua solidariedade a eles e, por meio deles, a todos aqueles que sofreram e ainda sofrem pelas feridas causadas pelos abusos infligidos”, disse o comunicado.
Leão XIV também rezou com algumas das vítimas.
“Percebi que ele era um homem comprometido e também determinado”, disse Olivier Mardi, um dos participantes, depois do encontro. “Ele não se deixa enganar e sabe que esses eventos continuarão e que devemos permanecer vigilantes… Havia um lado emocional nisso e, ao mesmo tempo, algo muito poderoso quando ele fala”.
Cinco das sete pessoas envolvidas no encontro revelaram suas identidades antes da viagem do papa. Entre elas estava Bertrand Virieux, vítima do ex-padre Bernard Preynat, que em 2020 foi condenado a cinco anos de prisão por abusos contra jovens escoteiros na arquidiocese de Lyon. Preynat morreu em 2024.
A Igreja na França vem lidando com as repercussões dos abusos depois do relatório de uma comissão independente que revelou que centenas de milhares de crianças foram vítimas de abuso por parte de clérigos e religiosos nos últimos 70 anos.
A Comissão Independente sobre Abuso Sexual na Igreja (CIASE) publicou um relatório final de quase 2,5 mil páginas em outubro de 2021, estimando que 216 mil crianças foram abusadas por padres, diáconos, monges ou freiras na França entre 1950 e 2020.
Acrescentou que, quando os abusos cometidos por leigos que trabalham na Igreja também são levados em conta, “o número estimado de crianças vítimas sobe para 330 mil para todo o período”.
As vítimas foram acompanhadas pelo bispo Gérard Le Stang, de Amiens, presidente do Conselho para a Prevenção e o Combate à Pedofilia da Conferência Episcopal Francesa.
Guillement disse que Leão XIV “considerou que a Igreja na França ainda tem muito trabalho a fazer” para prevenir os abusos.
“Conversamos sobre a prevenção como parte de uma mudança cultural em todos os níveis… Há opiniões diferentes, mas, na perspectiva dele, ainda há uma dimensão sistêmica em jogo”, acrescentou o homem.
Segundo Mardi, o papa “respondeu bem às nossas propostas muito concretas; ele sabe que precisa trabalhar conosco… Ele disse que precisamos reacender a esperança, e que é preciso um compromisso sério para que isso aconteça”.
O papa Leão XIV falou sobre o abuso sexual de menores por parte do clero em seu discurso aos bispos franceses na manhã hoje.
“Nos últimos anos, enfrentastes com determinação o doloroso flagelo dos abusos contra menores cometidos por membros do clero ou no contexto eclesial”, disse ele.
O papa os elogiou por suas medidas corajosas de ouvir, buscar a verdade, a justiça, o perdão e a reparação, bem como por “um compromisso firme em prol de uma cultura de prevenção e proteção contra estes crimes”.
“É necessário prosseguir no caminho iniciado e manter a máxima vigilância”, disse.
Antes de se dirigir aos bispos, Leão XIV parou diante de um memorial às vítimas de abuso sexual infantil, que trazia uma breve reflexão de uma vítima anônima.
“[A vítima] acabará compreendendo que foi toda a cultura de um sistema que buscava proteger a si mesmo, em vez de protegê-la”, diz uma inscrição no memorial. “E seu sofrimento continua a se aprofundar em torno desta questão: por que não é feita justiça para ele? É tão vital para ele que possa finalmente encontrar paz e que as lágrimas de sua infância deixem de correr.”
Em uma missa ao ar livre celebrada no final da manhã de hoje, o papa pareceu fazer alusão à crise de abusos por parte do clero, afirmando em sua homilia que “para curar as feridas profundas, as infidelidades e os dolorosos desvios cometidos no seu seio [da Igreja], devemos submeter-nos humildemente ao olhar purificador do Senhor. Reconhecer os nossos próprios erros é indispensável para o nosso progresso espiritual”.
Os planos do papa de manter uma conversa privada com as vítimas geraram polêmica entre vários grupos de apoio às vítimas de abuso na França, que criticaram o formato do encontro e a exclusão das organizações de vítimas.
O bispo Pierre-Antoine Bozo, porta-voz da Conferência Episcopal Francesa, disse aos jornalistas sobre as críticas que “há muitos grupos de sobreviventes… Se todos eles tivessem sido incluídos ou reunidos, teria sido um evento de grande porte e não teria tido o mesmo impacto”.
“O que mais nos ajuda a acompanhar as vítimas é ouvi-las. E, para fazer isso, não dá para ter 50 pessoas sentadas à sua frente. Era exatamente isso que o papa queria”, disse Bozo.
O santuário de Lourdes foi um cenário evocativo para o encontro com as vítimas de abuso, já que está entre os primeiros santuários a cobrir obras de arte do padre Marko Rupnik, acusado de abuso sexual e atualmente em julgamento na Santa Sé.
Os mosaicos de Rupnik na fachada da Basílica do Rosário foram cobertos antes da visita de Leão XIV e permanecerão ocultos por tempo indeterminado.
“Aquilo havia assumido um peso simbólico tão grande para as vítimas que, embora muitas das pessoas que vêm a Lourdes não sejam vítimas de abuso, para aquelas que são, era preciso fazer algo”, disse o bispo Bozo.
“Se ficar tão difícil para as pessoas virem a Lourdes — pessoas que deveriam ter um lugar privilegiado ali por estarem sofrendo —, então a situação não é mais aceitável”, acrescentou o porta-voz. “Por isso, acho que cobrir os mosaicos é um primeiro passo. Depois disso, algo novo terá que ser proposto, talvez uma nova obra de arte”.
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