sexta-feira, 10 de abril de 2015

Abandonei a ilha e hoje a ilha sou eu




Li algures que «nós somos o lugar que nos faz falta» e sorri em sinal de concordância.

Tinha 18 anos e o meu olhar de menina abandonava a ilha rumo ao futuro. Nunca esqueci aquela travessia do canal: as mãos grandes e incultas do meu pai nas minhas e os meus olhos pequenos e turvos, cheios de mar, postos na proa.

Naquele dia trouxe comigo o Castelete, a Poça do Pano, o Caneiro, o Lajido, os Mistérios e os Cabeços e aquele Pico gigante que eu ousei desafiar.

Naquele dia, juntamente com a linguiça, os inhames e o queijo fresco — feito com o leite da Estrela pelas mãos bondosas da minha mãe —, trouxe o grito das cagarras e o perfume doce da roca-de-velha, o «Haja Saúde, minha jóia!» do Faria, a Folia do Espírito Santo, o cheiro do cachimbo do Sr. Ferreira já coalhado nos livros da biblioteca, a Chamarrita, os foguetes de S. Pedro, o rufar da caixa do José Faniquito e a paciência do Mestre Viveza, que me ensinou o dó ré mi.

Digo que não poderia ter nascido noutra nesga de terra. No entanto, os meus olhos de menina mudaram e o meu Pico também. A Judite Jorge, minha conterrânea, escreveu que «ninguém é tão estrangeiro em lugar algum como quem volta ao lugar da infância depois de anos de ausência». E assim é. Os lugares não ficam intactos à nossa espera.

Já não gosto de voltar com demasiada frequência. Gosto de dar tempo para que a saudade cresça — abúlica primeiro, indómita e fera depois. Mas regresso sempre. Faço o caminho em contramão em busca do que fui. É seguro este meu eterno retorno. Mas insisto: A ilha de onde parti não é a ilha aonde regresso. Foi soterrada com os olhos do meu avô António — azuis de tanto amor que me tinham.

A ilha do regresso é saudade feita basalto e os sulcos no rosto da minha mãe, trilhos de lava, são memórias coaguladas.

O meu Pico trago-o comigo. Sempre. Em mim habitam os fantasmas das baleias arpoadas. Do meu corpo nascem calhetas e fajãs e rebentam criptomérias. Hoje, a ilha sou eu.


GINA ÁVILA MACEDO
Coordenadora editorial “Mundo Açoreano”
Natural da ilha do Pico, residente no Porto, Portugal


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